por Ana Luiza Aguiar

O fotógrafo Luiz Braga começou a registar a vida cotidiana dos moradores da região ribeirinha de Belém do Pará no início da década de 1980. “Desde que participei do projeto Visualidade Popular da Amazônia, em 1982, me encantei com as manifestações de sabedoria visual cabocla expressas em gambiarras e ricos espaços cromáticos espalhados pelo tecido urbano da periferia de Belém”, conta. Porém, a violência crescente da região o levou a se afastar desse seu objeto de estudo e o fez passar quase dez anos sem fotografar os furos belenenses – expressão utilizada pelos moradores locais para se referir aos braços de rio que cortam seus bairros.

Com sua aprovação na edição 2017-2018 do edital Rumos Itaú Cultural, Braga voltou à região para prosseguir com sua pesquisa artística, desta vez acompanhado de uma equipe de apoio, com seguranças e produtores. “Esse distanciamento foi crucial e me permitiu refletir e redescobrir a beleza dos grandes planos urbanos da Belém periférica, onde a paisagem impregnada de gambiarras e criatividade resiste diante das torres de vidro – que por sua vez não possuem nenhuma conexão com a ancestralidade do meu lugar”, relata. O resultado final será um acervo urbanístico composto de 40 imagens. “Será a minha declaração de amor pelo universo criativo da periferia ribeirinha.”

 Arquiteto por formação, Braga nunca exerceu a profissão. Ele teve o primeiro contato com a fotografia em 1967, aos 11 anos. Em 1975, montou seu primeiro estúdio para trabalhar com retratos e nunca mais parou. Braga tem como principais características o enfoque do seu olhar – que passa ao largo das visões estereotipadas e superficiais sobre a Amazônia – e o domínio da cor, com a qual passou a ser referência na fotografia brasileira contemporânea.

Suas primeiras exposições (em 1979 e 1980) eram compostas de cenas de dança, nus, arquitetura e retratos. Após essa fase, descobriu as cores vibrantes da visualidade popular amazônica e, convidado pela Fundação Nacional de Artes (Funarte), viajou pela região aprofundando o ensaio que seria exibido sob o título No Olho da Rua, no Centro Cultural São Paulo (CCSP), em 1984. A primeira exposição dedicada integralmente à vida dos ribeirinhos ocorreu em 1985, com o título A Margem do Olhar. Exibido nacionalmente, esse ensaio lhe rendeu o Prêmio Marc Ferrez em 1988, conferido pelo Instituto Nacional da Fotografia. 

Esse encantamento pela cor da sua região e as possibilidades pictóricas extraídas do confronto entre a luz natural e as múltiplas fontes de luz de barcos, parques e bares populares resultaram no ensaio Anos Luz, premiado em 1991 com o Leopold Godowsky Color Photography Awards, da Boston University, e exibido no Museu de Arte de São Paulo (Masp) no ano seguinte.

Em 2004, usando uma câmera digital com recurso de visão noturna, Braga iniciou a série Nightvisions, cuja tonalidade monocromática esverdeada flerta com a gravura de água-forte. Adaptando seu uso para a luz do dia, surge o naturalista que passa a incluir em suas obras aspectos da paisagem de rios, igarapés e florestas, expandindo o seu universo e a sua técnica. Em 2009, foi um dos representantes do Brasil na 53a Bienal de Veneza. Sua exposição Retumbante Natureza Humanizada (Sesc Pinheiros/SP) foi premiada pela Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA) como Melhor Exposição de Fotografia de 2014.

Ao todo, o fotógrafo já realizou mais de 200 exposições – entre individuais e coletivas – no Brasil e no exterior, e suas obras compõem coleções públicas e privadas importantes, como as do Museu de Arte Moderna de São Paulo (MAM/SP), do Centro Português de Fotografia, do Museu de Arte do Rio (MAR) e da Pinacoteca do Estado de São Paulo.

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