por Encontro com Espectadores – Maria Eugênia de Menezes

Tradicionalmente realizado no último domingo de cada mês, na Sala Vermelha do Itaú Cultural, o Encontro com Espectadores de novembro recebeu a atriz Denise Fraga e o diretor Luiz Villaça para uma conversa sobre o espetáculo Eu de Você. Pelo calendário, essa ação marcaria o encerramento do evento em 2019. 

Contudo, a multiplicidade e a riqueza da cena teatral paulistana nesse segundo semestre propuseram ao Teatrojornal – Leituras de Cena o desafio de realizar uma edição extraordinária da ação. Em 2 de dezembro, recebemos a atriz, dramaturga e diretora Janaina Leite e a assistente de dramaturgia Lara Duarte para debater Stabat Mater, produção recentemente indicada ao prêmio APCA de Teatro.   

Eu de Você

A atriz Denise Fraga falou sobre o seu primeiro solo (imagem: Agência Ophelia)

No 35º Encontro com Espectadores, o solo Eu de Você foi objeto de análise e de diversos questionamentos do público presente. Mediado pela jornalista e crítica Beth Néspoli, o debate privilegiou as etapas de criação da peça, que prescinde de um texto pronto e utiliza uma série de histórias reais na elaboração de sua dramaturgia. “Sem ter uma história com começo, meio e fim, a obra é movida pela crença de que a arte pode ser transformadora e sensibilizar as pessoas”, pontuou Néspoli.

Emocionado, o diretor explicou a estratégia para selecionar as narrativas, considerando o contexto atual de restrição de liberdades e cerceamento à produção artística. “Queríamos trazer à cena o que são essas vidas comuns”, argumentou Villaça. “É um projeto que veio na hora certa. A gente tem que ter liberdade para poder falar.”

Com uma proposta pautada pela simplicidade na cenografia e no figurino, Eu de Você é o primeiro solo de Denise Fraga e trouxe a atriz em uma delicada atuação, na qual alia a interpretação de alguns “personagens” com momentos mais performáticos e de interlocução direta com a plateia. Mesmo ao tratar de temas de conotação íntima, como a relação entre pais e filhos e relacionamentos conjugais, a montagem consegue uma nítida coloração política. “A escolha das histórias foi guiada pela vontade de oferecer um panorama contemporâneo”, lembrou Denise Fraga.

Stabat Mater

Da esquerda para a direita: Maria Eugênia de Menezes, Lara Duarte e Janaina Leite (imagem: Agência Ophelia)

Uma história real também foi o ponto de partida de Stabat Mater, espetáculo discutido durante a 36ª edição do Encontro com Espectadores. Guiado pelos procedimentos do teatro documental e da autoficção, a peça é uma obra da atriz Janaina Leite, em colaboração com uma ampla equipe de mulheres.

Já em sua segunda temporada, o trabalho retoma uma série de procedimentos de um título anterior da criadora, Conversas com Meu Pai (2014), e assume também a clara influência de um dos grandes nomes da arte performativa hoje, a catalã Angélica Liddell.

Em Stabat Mater, coloca-se o desejo de discutir a relação da artista com sua mãe sem perder de vista a moldura social e política a mediar esse tipo de vínculo. Em um misto de encenação e palestra, Janaina traz elementos de sua memória pessoal entrelaçados a fortes condicionantes ideológicos e construções culturais, como a imagem de sacralidade e virtude relacionada à mãe de Jesus.

Com mediação desta jornalista, o debate não se concentrou apenas nas dimensões mencionadas, também explorou as diversas possibilidades psicanalíticas de leitura, sugerindo um reposicionamento das imagens de mãe e filha.

Um dos eixos da conversa foi a presença da mãe de Janaina, Amália Fontes Leite, em cena. Sem formação em artes cênicas, sua presença consegue alterar a recepção dos diferentes episódios e relatos trazidos à cena. A discussão sobre outros dois experimentos dirigidos pela atriz, Feminino Abjeto e Feminino Abjeto 2: o Vórtice do Masculino, também marcou o debate. Na ocasião, ela incluiu Stabat Mater no contexto de uma ampla pesquisa sobre o feminino.

Ao longo de 2019 foram realizadas dez edições do Encontro com Espectadores, ação mensal realizada pelo Teatrojornal desde junho de 2016 e apoiada pelo Itaú Cultural desde 2018. As conversas são gravadas, transcritas, editadas e publicadas em www.teatrojornal.com.br.

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