por Da Quebrada Pro Mundo com Alexandre Ribeiro

A Alemanha é um país exemplar na prevenção ao contágio do novo coronavírus. Isso é um fato. E eu recomendo que você entenda a razão disso neste vídeo. Na coluna #DaQuebradaProMundo deste mês, no entanto, eu gostaria de ir além do que já foi apresentado nessa história. Ultrapassar também o nosso complexo de vira-lata e trazer para o debate algumas contradições que poucos têm coragem de mostrar.

“Alle Menschen sind Ausländer. Fast überall”, ou "Todos os humanos são estrangeiros. Em quase todo lugar" (imagem: Alexandre Ribeiro)

Você já ouviu falar que entre um país e outro da Europa não tem fronteira, né? Mas espere aí. E se eu disser que a fronteira mais protegida da União Europeia não fica na Europa, mas, sim, no Marrocos? Outra coisa, você sabia que a Itália foi o primeiro país da Europa a fechar fronteiras com a China? E que, ironicamente, o primeiro caso de coronavírus no país não veio diretamente da China, mas de um cidadão alemão?

Esses são exemplos de tempo e circunstâncias distintas e que carregam algo em comum não muito difícil de identificar. De um lado, o subconsciente reproduz o que é falado por todo canto: “Europa, onde tudo funciona e a vida acontece. O continente onde a economia e o bem-estar social caminham de mãos dadas”. De outro, uma faceta perversa que se esconde na noção de um “nós” (a União Europeia) e “eles” (todo o resto). Noção esta que pode vir através de um muro físico, como no caso do Marrocos. Ou da barreira que só quis enxergar o “outro”, o cidadão chinês, e esqueceu que o vírus não escolhe nacionalidade ou passaporte. Ele pode infectar cada um de “nós”.

São essas e outras contradições que me fazem repensar o que esse e tantos outros bordões humanitários que lotam paredes por toda a Europa, de fato, significam. “Alle Menschen sind Ausländer. Fast überall”, ou “Todos os humanos são estrangeiros. Em quase todo lugar”.

O vírus é um ser muito mais evoluído que nós, humanos. Não vê nacionalidade, gênero ou raça. Quer dizer, não difere na hora de contaminar, pelo menos. Mas, quando falamos de acesso a hospitais e possíveis tratamentos, pretos e pobres sofrem mais, como relata esta matéria da BBC.

Ideias pautadas na segregação são o fundamento da pseudociência que é o racismo. E agora, mesmo que o mundo esteja de ponta-cabeça, temos de intervir ao identificar o racismo crescente que essa história não pode reverberar.

Na França, a hashtag #JeNeSuisPasUnVirus [#EuNãoSouUmVírus] surgiu no fim de janeiro para denunciar agressões racistas contra a comunidade asiática, que aumentaram com a propagação do vírus. No caso dos chineses, a expressão “perigo amarelo” tem sido usada desde o século XIX para caracterizá-los como ameaças a nações ocidentais. Com o surto do novo coronavírus, o jornal francês Courrier Picard chegou a usar a expressão na capa do jornal para tratar do assunto. A ideia de que chineses são “sujos”, “comem animais selvagens” e “espalham doenças” foi amplamente usada em países ocidentais para difamar diversas comunidades através da história.

E não pense que esse racismo está associado a só um grupo. Insultos associados a sujeira, selvageria e atraso também foram muitas vezes direcionados a estrangeiros de diversas origens de maneira a legitimar sua exclusão, expulsão ou mesmo extermínio. Na era antebellum, no começo do século XIX nos Estados Unidos, os irlandeses foram culpados pela epidemia de cólera. Algumas décadas depois, imigrantes italianos foram acusados por casos de pólio nas comunidades norte-americanas. Não satisfeitos, culpabilizaram também os afro-americanos e os judeus pelo surto de tuberculose no país.

Dependendo da pandemia e da época, a imagem midiática faz parecer inadmissível a presença de comunidades “sujas” nos países ditos “civilizados”. E, infelizmente, o ciclo de opressão se renova. Encontrando os padrões que se repetem na história, constatamos esse aumento do pensamento racista e segregacionista.

E o que devemos fazer com isso? A evidência que fica é a mesma que senti ao descobrir as atitudes da União Europeia quando ninguém observa. É que o combate ao preconceito e à desigualdade deve ser tão forte e disseminado quando o combate à pandemia.

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