Em abril de 2018, em Porto Alegre (RS), ocorreu o 1º Simpósio Internacional de Relações Sistêmicas das Artes Visuais, intitulado Arte Além da Arte e que trouxe uma gama de assuntos dessa área para o plano de debate. Em entrevista, Nei Vargas Rosa conta como surgiu a ideia de realizar o evento, apresenta reflexões sobre, por exemplo, o papel das bienais e compartilha percepções a respeito de atitudes conservadoras contra exposições.

Vargas Rosa é doutorando em artes visuais com ênfase em história, teoria e crítica da arte no Programa de Artes Visuais do Instituto de Artes da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). A pesquisa por ele empreendida versa sobre a institucionalização de coleções privadas de arte contemporânea no Brasil, sob a orientação da docente Maria Amélia Bulhões.

Bruna Fetter, Maria Amélia Bulhões e Nei Vargas - Foto Mirele Pacheco

Como surgiu a ideia desse primeiro simpósio internacional e quais foram os principais desafios em realizá-lo?

O simpósio surge como resultado das atividades de um grupo de trabalho constituído por mim e Bruna Fetter, sob a coordenação de Maria Amélia Bulhões, cuja trajetória de pesquisa tem sido dedicada a ampliar o entendimento a respeito do sistema da arte. Desse ambiente de investigação e produção cultural e científica decorre um conjunto de dissertações e teses sob sua orientação, como a minha, em 2008, a dissertação e a tese de Bettina Rupp – defendidas, respectivamente, em 2010 e 2017 – e a tese de Bruna, em 2016. Parte dessas pesquisas integra o livro As Novas Regras do Jogo, lançado na versão impressa e como e-book pela Editora Zouk, em 2014, o que gerou uma série de palestras e cursos. Em 2016, aconteceu o seminário Arte, Valor e Mercado, com Maria Lucia Bueno e Ana Letícia Fialho, no Santander Cultural, o qual rendeu a preparação de outro volume, a ser publicado no início de 2019.

"Essas experiências evidenciaram a necessidade de abrir espaço para um modelo de encontro que construísse canais de reunião e conexão entre investigações nas quais muitas das dinâmicas de configuração do campo das artes visuais estivessem sendo expostas ao escrutínio de pesquisadoras e pesquisadores."

Essas experiências evidenciaram a necessidade de abrir espaço para um modelo de encontro que construísse canais de reunião e conexão entre investigações nas quais muitas das dinâmicas de configuração do campo das artes visuais estivessem sendo expostas ao escrutínio de pesquisadoras e pesquisadores. Era, para tanto, fundamental que a programação atraísse participantes de variadas correntes de pensamento dispostos a questionar a noção de autonomia da arte e os arranjos de forças implicados na condução do sistema no qual ela transita e se constitui como arte.

Você pode fazer um balanço do simpósio? Quais são os próximos passos?

Primeiro é afirmar o compromisso do campo acadêmico e a importância de seu protagonismo na ampliação dessas discussões. Um evento que almeja estabelecer conexões precisa incorporar tal noção nas estruturas que o constituem, fazendo parcerias sem as quais não haveria simpósio.

Alguns pontos a destacar são: o número de quase cem propostas recebidas, originárias de diferentes pontos do país e do exterior. Vale ressaltar também a estrutura de funcionamento aberta a trocas, pois o Simpósio foi organizado para que acontecessem exposições de ideias e debates das reflexões delas originadas, para isso foi disponibilizado um tempo para participação do público após as apresentações e conferências, o que contribuiu para que questões pudessem ser aprofundadas.

Participantes do Simpósio - Foto Mirele Pacheco

Agora, o grupo está envolvido com a finalização de relatórios e a feitura do e-book e de um vídeo, projetos relacionados ao primeiro livro, os quais serão postados no site do simpósio nas próximas semanas. Simultaneamente, já se deflagrou o processo de produção do segundo simpósio, que ocorrerá em 2019, em data e local a ser divulgados em breve. Também compomos, Maria Amélia, Bruna e eu, a organização de um encontro acadêmico sobre mercado de arte e colecionismo na Universidade Nova de Lisboa, em novembro de 2019.

Um dos eixos temáticos é o par local e global, suas conexões e seus contrapontos. Pensando nas cidades, principalmente nas de grande porte, como a arte pode ajudar nas relações entre a periferia e o centro?

É necessário entender de qual periferia e de qual centro se está falando, bem como questionar quem é periférico de quem. Na era neoliberal, essas noções estão borradas, e isso é percebido nos centros hegemônicos que estão na condição de periferias de outros mais hegemônicos ainda ou produzem periferias em si mesmos. Quando se fala em arte contemporânea, por exemplo, Porto Alegre, em relação ao interior do estado, se coloca claramente em uma posição central, mas vira periferia se comparada a São Paulo, que por sua vez ocupa papel de centralidade no Brasil e na América Latina, embora seja periférica em relação a Nova York e Londres.

A arte pode e deve ser um instrumento importante na configuração de políticas que sejam generosas na oferta de oportunidades que alterem realidades sociais, principalmente as que estão nas margens e padecem devido à falta de direitos sociais. Como políticas de Estado, os Pontos de Cultura e, mais recentemente, o Programa Cultura Viva são exemplos que buscam atender a essa questão. Vale também mencionar iniciativas que partem das comunidades e, nesse caso, observa-se que o grafite tem tido destaque como meio de expressão. Entre os inúmeros exemplos, no bairro São Mateus, na Zona Leste de São Paulo, o Projeto Favela Galeria busca produzir novos vínculos com a cidadania.  

Durante o período de realização do simpósio, ocorreu também a 11a Bienal de Artes Visuais do Mercosul – o Triângulo Atlântico. Vocês realizaram a conferência com Sabiha Keyif e ela discute o papel das bienais e a quem são destinadas hoje em dia. No seu ponto de vista, atualmente as bienais têm trazido esses questionamentos em sua concepção ou têm pensado ferramentas e dinâmicas que tentam trazer soluções para essa problemática?

De antemão, é preciso ter a compreensão de que o modelo de bienais e os corpos jurídicos que as conduzem são reprodutores das mesmas disputas de poder presentes na sociedade como um todo, assim a proposta do tema das bienais pode considerar e evidenciar, em menor ou maior grau, as relações e os conflitos do contexto no qual está inserida. Um indício, nesse sentido, é ver como o nexo conceitual da curadoria está incorporado nas práticas de condução do evento. Não seria um equívoco afirmar que uma política de gestão que permeia e se deixa permear pelo conceito curatorial concorre com mais facilidade para o sucesso do evento.

"é preciso ter a compreensão de que o modelo de bienais e os corpos jurídicos que as conduzem são reprodutores das mesmas disputas de poder presentes na sociedade como um todo, assim a proposta do tema das bienais pode considerar e evidenciar, em menor ou maior grau, as relações e os conflitos do contexto no qual está inserida."  

É oportuno a Fundação Bienal do Mercosul trazer o Triângulo Atlântico e seu poder evocativo de um contexto histórico fortemente marcado pela violência, pela exclusão e pelo silenciamento, propondo novas reflexões acerca de memórias que se repetem. Dessa forma, a proposta é mostrar como as narrativas conceituais e estéticas da arte contemporânea podem contribuir nos debates sobre as questões étnico-raciais. Os dados sobre desigualdade estrutural na questão racial no Brasil mostram urgência na definição de soluções, e é acertado uma bienal propor uma mostra em que esse assunto possa ser levantado. O Brasil é formado por uma maioria, 54,9% da população, autodeclarada preta ou parda, segundo dados recentes do IBGE. Esses dados e outros mais foram reunidos pela jornalista Tory Oliveira e publicados na Carta Capital no ano passado. Como essa realidade se processa de forma simbólica numa bienal que é sediada no estado brasileiro de maior população branca do país, 81,5%? Até pouco antes de inaugurar a edição em curso, a Fundação Bienal tinha apenas uma mulher negra no seu quadro institucional, atuando na equipe de coordenação do Programa Educativo. Não por acaso, o número só aumentou depois da contratação do grupo de mediação.

Quando a Fundação Bienal do Mercosul traz, em um momento de grave crise econômica, a 11a edição de sua bienal com o mais baixo orçamento em seus 21 anos de história, isso ficará bastante evidente na sua estratégia conceitual e operacional e no legado que deixará. Pouco antes da abertura para a imprensa, no dia 5 de abril, foi retirada a foto de Marielle Franco da instalação Non Orientable (2018), do ganês Ibrahim Mahamas, e feita a troca da série de 22 fotografias de Miguel Rio Branco, Maldicidade (2014) – com imagens de cachorros cruzando, pênis de borracha e uma estátua de mulher nua –, por uma obra da artista Romy Pocztaruk que estava no Margs [Museu de Arte do Rio Grande do Sul]. Não seria esse um caso a ser pensado a partir dessas relações?

Em dezembro de 2017, em Porto Alegre, ocorreu o lançamento do Intercena. Em entrevista ao Observatório, Alexandre Vargas comenta a importância desse projeto para o cenário teatral gaúcho e também fala sobre o Sistema de Indicadores dos Festivais de Teatro do Brasil (SIFTB). Você acha que um sistema de indicadores voltado para a área de artes visuais pode contribuir para a criação de políticas culturais que contemplem as especificidades desse setor?

Sem dúvida. A Plataforma Latitude é um exemplo dessa área. A relação entre indicadores e políticas culturais nas artes remonta ao Projeto de Internacionalização da Arte Contemporânea Brasileira, desenvolvido pela Apex-Brasil e pela Fundação Bienal de São Paulo em 2007. A Associação Brasileira de Arte Contemporânea (Abact) conduz o projeto que faz um levantamento sistemático do mercado primário de arte contemporânea desde 2011, além de promover e participar de diversos eventos de discussão do mercado de arte. É uma fonte de pesquisa que utilizo frequentemente.

Como pesquisador vejo como é difícil o acesso a determinadas informações, o que compreendo pela cultura de aferição ser uma lógica bastante recente no meio e, principalmente, pelo mercado de arte ser um setor que carece de marcos regulatórios, com operações pouco divulgadas e realizadas por agentes que preferem anonimato. Outra questão que o tema indicadores levanta é a necessidade de áreas específicas da cultura trocarem experiências com mais vigor e frequência. Tanto as artes visuais precisam incorporar práticas importantes desenvolvidas por outros setores, como o contrário também se aplica.

É fundamental o Alexandre levantar esta pauta justamente no momento em que o governo estadual está providenciando o lamentável e equivocado desmonte da Fundação de Economia e Estatística, órgão que produz dados e informações definidoras para a tomada de decisão nas políticas econômicas, inclusive com pesquisas que mostram o impacto de setores da cultura na geração de renda.

Levando em consideração alguns acontecimentos que tivemos no Brasil nos últimos anos, tais como o fechamento de exposições e outras ações bastante conservadoras: quais são os principais impactos na produção das artes visuais considerando as questões contemporâneas e o cenário de polarização mundial?

A polarização não é novidade na história; as guerras e os regimes totalitários possuem aspectos que podem ser compreendidos sob essa ótica. O que difere na atual sociedade, que vive em regime global de estetização e mercadorização das relações sociais, são as tecnologias e as metodologias utilizadas para agir dentro dessa lógica extremista. Aqui em Porto Alegre, por exemplo, as artes visuais passaram a ser usadas como plataforma de visibilidade para fins eleitoreiros, capciosamente encobertos por discursos de caráter moralista. Integrantes ligados ao Movimento Brasil Livre criaram uma situação que fez o Santander Cultural tomar a desastrosa medida de censurar a exposição Queermuseu. Censurar é inconcebível, ainda mais obras que há anos vinham sendo expostas em diversos museus do país, sem nunca terem passado por esse tipo de problematização. O fato é que esse acontecimento deflagrou o fenômeno dos ataques a exposições que perdura até hoje.

"Censurar é inconcebível, ainda mais obras que há anos vinham sendo expostas em diversos museus do país, sem nunca terem passado por esse tipo de problematização. O fato é que esse acontecimento deflagrou o fenômeno dos ataques a exposições que perdura até hoje."

Recentemente, os grafites do paulista Rafael Augustaitiz, também conhecido como Rafael Pixobomb, e do gaúcho Amaro Abreu foram vandalizados no muro do Goethe-Institut de Porto Alegre. A cabeça de um homem exposta em uma bandeja, que compunha a exposição Pixo/Grafite – Realidades Paralelas, amanheceu com a face apagada e “ele ressuscitou” escrito em cima. Os vândalos não pouparam o grafite de Amaro Abreu, composto de imagens de um universo onírico que não apresentavam, rigorosamente, nada de contestador. O episódio deriva do ataque de grupos que acusaram de blasfêmia uma cabeça cortada e exposta em uma bandeja que lembra a de Jesus. Se a decapitação de São João Batista relatada em Mateus, Marcos e Lucas não foi suficiente para pôr em dúvida o que a imagem retratava e frear interpretações definitivas, principalmente por parte de quem prega o conhecimento bíblico, seria pedir muito que conhecessem a farta representação dessa passagem em pinturas icônicas, como uma das mais famosas de Caravaggio.

Nesse cenário, é possível dizer que certos grupos radicais não têm interesse algum nas artes visuais, tampouco acreditam no que dizem quando falam sobre arte. Eles já sabem que o potencial simbólico da arte e as instâncias em que ela circula são ambientes de vazão para suas estratégias de ataque, acabando sempre na aderência de uma camada da população que padece, entre outras coisas, da atual crise de representatividade política. É nosso papel observar, analisar e discutir essas questões. O Simpósio Internacional de Relações Sistemáticas das Artes Visuais surge com essa função.  

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