por Laura Erber

 

“A arte me faz pensar que a sabedoria do jabuti diante da voracidade da onça é o meio mais cheio de vida para se ir indo bem dentro do mito.”

(Jaider Esbell)

“A cultura deveria definir-se como a reunião de todos os signos e de todas as formas que contribuem para fazer nascer um espectador na encruzilhada dos inúmeros olhares que partilham entre si um mundo tão detestável quanto saboroso.”

(Marie-José Mondzain)

Jaider Esbell chamava atenção pela eloquência com que se expressava, reivindicando outras formas de habitar nosso tecido artístico-cultural. Chamava também atenção pela exuberância e pela beleza das imagens que produzia. A eloquência marcava um projeto de inserção crítica, sem nunca perder de vista os desafios da autolocalização num mundo extremamente compartimentado, enquanto a exuberância do seu trabalho abria mundos no mundo e convocava o olhar a uma experiência de limiares que chamarei aqui de “imaginal”. Uma imagem que não participa do regime da representação, ainda que dê a ver figuras reconhecíveis, e que não se quer puro produto da pura imaginação.

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Antes de despontar como artista, escritor e produtor cultural indígena da etnia Makuxi, Esbell nasceu em Normandia, no estado de Roraima, e viveu até os 18 anos no que hoje é a Terra Indígena Raposa Serra do Sol. Formou-se geógrafo e trabalhou na Eletrobrás antes de se dedicar integralmente à literatura, às artes visuais e ao ativismo.

São inúmeros os caminhos possíveis para abordar seu trabalho, e eu gostaria de propor aqui um entre tantos possíveis, em que a imagem seja tomada como eloquente articulação entre o visível e o invisível, sendo este não aquilo que coincidiria com o não visto, mas um invisível denso de vocação para fazer ver.

As imagens de Esbell são imaginais porque não se oferecem como meros objetos visuais. Algo brota de um fundo escuro, produzindo com esse gesto uma visualidade diferente daquela que se constrói sobre a página ou tela em branco. Do fundo noturno irrompem seres e formas que parecem vibrar, como se impelidos a saltar sobre nós ou nos envolver. Essa sensação resulta talvez da intermitência da linha e da intensidade das cores, criando um ritmo que faz retinir a nossa visão. Atenho-me aqui à série de trabalhos intitulada A guerra dos Kanaimés, realizada entre 2019 e 2020, com caneta Posca, que permite a sobreposição de cores e, quando utilizada sobre fundo preto, produz a sensação de tênue relevo, como se estivéssemos diante de linhas costuradas.

Talvez seja possível remeter aqui ao que ele mesmo designou como a sabedoria do jabuti, um modo de “ir indo bem dentro do mito”. Podemos tentar percorrer suas obras deixando que a imagem venha vindo, bem de dentro do mito, em nossa direção, como os olhares cativantes e inapeláveis dos retratos de El Fayoum. Deixar que a imagem venha, toque nosso mundo de expectativas cruzadas e espectadores assustados e depois volte a mergulhar no coração da noite, escapando, como uma onça da armadilha. Essas imagens imaginais, para permanecerem no limiar, precisam de fato desarmar a armadilha da inteligência para entrar no reino da sabedoria vagarosa. Desarmar a armadilha da visão para relançar o destino das imagens, em que o destino dxs sujeitxs sensíveis entra em jogo. A imagem não é ponto de partida nem de chegada.

Imagens tampouco são meros objetos visíveis nem podem ser reduzidas à causa ou ao efeito da nossa capacidade de percepção óptica. São antes gestos e também operações, de uma complexidade difícil de descrever, porque articulam o tangível e o imaginado, o sensível e o inefável. Por isso dizemos que existem imagens não visuais e por isso os cegos também são dotados de olhar e convivem com imagens.

Uma pintura ou um desenho são, claro, objetos tangíveis que comportam uma história e marcas do tempo de sua fatura, mas uma imagem é sempre mais que isso, envolve uma dinâmica de gestos: de ver, dar a ver e receber. Na expressão feliz de Marie-José Mondzain, imagens são uma operação imaginante, o que chamo aqui de imaginal.

A imagem não é arte de videntes ou clarividentes, mas de seres falantes, o que significa que conseguem se deixar mover pelo empuxo da linguagem, imaginar o que não está ao alcance dos olhos e visualizar aquilo que imaginam. A imagem pensada e experimentada desse modo torna-se, ela mesma, uma arte de quem se arrisca a percorrer o chão móvel das palavras que enlevam, engatar-se em suas ficções, contra o fio mórbido da imposição de uma visão que interdita o olhar.

Numa época de produção e consumo frenético de visualidades cegantes ou letais, um trabalho que ativa nossa capacidade de religar o ver ao imaginar, remetendo o desconhecido ao mistério e o assombroso ao belo, é importante fonte de vitalidade. Retomo aqui palavras de Marie-José Mondzain em uma palestra realizada por ela no Rio de Janeiro em 2013: “As operações imagéticas só são operacionais a partir desse local de indeterminação invisível, onde são forjadas nossas ficções constitutivas. Entendo por ‘ficção constitutiva’ – em oposição às ficções de dominação destitutiva ou destrutiva – o local a partir do qual os gestos imagéticos dão forma e figura a nossa capacidade de agir e mudar o mundo. As operações imagéticas são gestos energéticos que podem se apoderar de todos os materiais e de todos os signos para nos dar a palavra e fazer de nós os insaciáveis forjadores do possível, que triunfa sobre o impossível”.

Esbell promovia uma ideia de contemporaneidade da arte indígena que merece atenção. Contra as formas de inclusão exclusivistas, que absorvem o trabalho de determinados grupos minoritários confinando-os ou dando-lhes um tratamento especial, advogava uma arte indígena contemporânea. Não aspirava a alcançar definições ontológicas e, nas vezes que tratava de defini-la, traçava linhas tortuosas, de quem sabe que há sempre armadilhas na presunção de que desarmar armadilhas seja trabalho fácil. Assim como o “índio” ou o indígena não é atributo do humano determinável por inspeção, como já alertou Viveiros de Castro em outra ocasião, a arte indígena contemporânea não deve ser reduzida a um conjunto de elementos ou atributos reconhecíveis e inspecionáveis pela crítica especializada.

Inclusive porque, se enveredássemos por essa direção, buscando atender a um desejo taxonomizante, parte da arte indígena acabaria por ser agrupada junto com a arte popular da arte naïf e do artesanato, sendo absorvida por uma classificação contra a qual Esbell parecia se insurgir. Não vou me aprofundar nesse ponto intrincado, pois exigiria debate mais longo, evitando produzir antinomias e falsas oposições.

Desculpo-me por não entrar aqui em análises do tipo caso a caso, decerto importantes, mas não são o propósito do presente texto. Aqui, limito-me a percorrer, de memória, a sensação de estar diante de seu trabalho, uma sensação que conjuga a ideia de que “somos seres olhados” (Rui Belo) e espectadores fascinados pelos gestos instituintes e instauradores, como o dos primeiros pintores/desenhistas do Paleolítico dentro das grutas. Esses gestos mostram que a imagem nunca está ancorada apenas no visível, tornando-a, portanto, bem mais difícil de ser olhada, pensada ou envolvida pelas palavras de uma língua.

Ir bem dentro do mito não é interpretar o mito em profundidade nem expressar sua verdade, mas talvez refazer o gesto fundador e saber girar em torno de dúvidas e hipóteses, dinamizando, assim, o segredo do olhar, que vai muito além da capacidade fisiológica de ver. Contra os produtos visuais feitos para seduzir detendo e retendo o olhar, essas pinturas de linhas convocavam o olhar para uma experiência de trânsito, intermitência.  

São rarxs xs artistas que conseguem articular o desejo político de intervenção no mundo a uma capacidade criativa e plástica poderosa. Não é simples avançar descortinando as tramas de legitimação do campo artístico, intervindo ativa e politicamente nos sistemas e discursos de valoração, e ainda fazer isso sem nunca deixar de desenvolver, com contundência, competência e constância, um imaginário plástico de enorme beleza.

O trabalho de Esbell convida a voltar a habitar os limiares, no ponto de instauração, da contemporaneidade dos mitos. Como artista, ele nos encantou também por não cair na falácia da exclusividade e da exclusão (arte ou ativismo? Ancestralidade ou contemporaneidade?); contrapôs aos processos de desumanização do seu povo imagens vitais, que vibram e nos assombram, imagens nas quais convivem o sombrio, o medonho, o que vibra e o que viceja.

É difícil questionar o mundo tal como é e simultaneamente inscrever nele outras formas de ver e dar a ver. O segredo desse metabolismo Esbell levou consigo, mas deixa que suas imagens nos revelem aos poucos outros mistérios, inclusive o da situação transitiva e misteriosa da própria imagem, a um tempo imanente e transcendente.

A coluna Revelação convida curadores, pesquisadores e outras pessoas interessadas nos debates que a produção de imagens pode suscitar para escrever sobre fotografia.

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