por Vânia Leal

A diversidade fez parte das discussões da comissão de seleção, através de diferentes linguagens artísticas e abordagens de temas do cotidiano. A travessia da diversidade cultural provocou a relação reverenciosa com o meio ambiente inteiro. Ainda mais se levarmos em consideração as dimensões do território brasileiro e suas especificidades regionais. Acredito não se tratar de regionalizar a produção, mas de tornar as diferenças culturais conhecidas, pois elas só têm a acrescentar à arte e à cultura do nosso país.

Vânia Leal integrou a comissão de seleção do Rumos nas edições 2015-2016 e 2017-2018 (imagem: Walda Marques)

Queria me reportar à participação de artistas e produtores culturais da Região Norte. Estes reiteram os sistemas paralelos da nossa arte da Amazônia, que, em alguns momentos, se aproximam e, em outros, se mantêm desassociados do trânsito operado no centro-sul do Brasil.

Posso dizer: o quantitativo de projetos vindos de Belém (PA) na edição 2017-2018 do Rumos foi expressivo e revela uma produção menos comprometida com apelos do mercado e mais concentrada nas relações com seu lugar de origem, suas particularidades socioculturais. Esses artistas e mestres de cultura, de forma tanto individual quanto coletiva, realizam trabalhos consistentes, de grande potência. E sabe o que é mais interessante? Essa nuance tem uma unidade com todos os selecionados. Esses encontros de propostas, de lugares distantes, só a arte provoca. É fascinante. 

Pluralidade

Acredito que o Rumos ganha com a realização desse edital, configurando uma porta de acesso ao grande circuito nacional da arte e da cultura. Pluralidade de visões caracteriza a comissão de seleção. Ao fazer um recuo no processo e no resultado, percebo quantos olhares diversos e igualmente interessantes e necessários.

Os movimentos dos projetos selecionados trazem à tona trajetórias distintas – assim como os múltiplos territórios que nos envolvem. Como diz Haesbaert, geógrafo brasileiro focado em conceitos de território e região, os “territórios-rede” a conectar a humanidade inteira, parte, antes de mais nada, da territorialidade mínima. Abrigo e aconchego, condição indispensável para, ao mesmo tempo, estimular a individualidade e promover o convívio solidário das multiplicidades – de todos e de cada um de nós.

Diálogo

Nesse processo de seleção de projetos há diversas possibilidades de construção de anotações, observações e avaliações. Acredito ser fundamental perceber que o critério e as decisões implicam coragem e justeza. Pela segunda experiência como avaliadora do Rumos no edital 2017-2018, em processos de trabalhos, adoto a regra: respeito por qualquer proposta enviada. Em nenhum momento assumo a compostura de que este ou aquele trabalho é insatisfatório.

Naturalmente, as escolhas vão acontecendo por algo que vem da natureza do olhar produtivo, do ponto de atenção que toca pelos sentidos, tornando-me ciente das invenções que se apresentam, percorrendo as escolhas e o modo singular de provocar experiência, já que ela vai se tornando dona de si por me mover para ver o que antes não via.

Ao conhecer a lista de selecionados, percebi a importância das justificativas das notas. Isso me motiva e me faz constatar que foi de grande valia para a comissão de seleção. E preciso externar: todos os escolhidos na Região Norte passaram por mim, e as justificativas foram minuciosamente pensadas. 

Experiências

edição 2017-2018 do Rumos, portanto, evidencia a diversidade de linguagens artísticas e seus diferentes modos de se exprimir através delas. A construção de paisagens, a desconstrução de imagens, tempos alternados, objetos metafóricos, palavras, signos, geografia, história e a própria vida.

Os artistas reinventam o cotidiano como transmutadores da arte, colocam diante de nós a apreensão, o instável, as poéticas que surpreendem em seu fazer. Por isso, a reunião dos 109 escolhidos revela, entre outros tantos aspectos, a realidade interior de cada um dos autores e suas visões de mundo. Aqui concluímos que a experiência compartilhada com mais apreciadores se torna uma viagem repleta de surpresas, curiosidades e envolvimento para a percepção crítica e despretensiosa do dia a dia.

Sem dúvida, os projetos selecionados no Rumos 2017-2018 são um convite a entrar e mergulhar no cotidiano, em uma experiência por outros mundos, culturas e realidades distintas. Que essa concepção sem fronteira repercuta pelo país. Assim seja!

 

Vânia Leal é mestra em comunicação, linguagem e cultura. Coordena a curadoria educacional do projeto Arte Pará.

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