Classificação indicativa: Livre

Um disco de amor, feito com amor – como forma de existência e resistência –, para tempos de tanto ódio. É assim que a cantora, compositora e percussionista pernambucana Alessandra Leão define o seu novo álbum, Macumbas e Catimbós, oitavo trabalho de sua carreira, que será lançado em show homônimo no palco do Auditório Ibirapuera. Acompanhada pelos músicos Maurício Badé (ilu e voz) e Abuhl Jr. (ilu e voz) e pelos convidados Mestre Sapopemba, Luiz Soliano e Terreiro Recanto Quiguiriçá, Sthe Araujo, Lívia Mattos, Isaar, Caê Rolfsen e Manu Maltez, a artista mostra as canções que compõem o álbum, entre músicas autorais e temas tradicionais da jurema, do candomblé e da umbanda.

“A apresentação no Auditório é a celebração dos encontros que aconteceram durante o processo do disco com as pessoas que fizeram parte desse trabalho”, fala Alessandra. “Ele foi feito por muitas mãos e de forma muito generosa. Cada passo foi consultado. De muitas maneiras, exigiu um tanto a mais de cuidado, de atenção, de respeito, de escuta, de presença. E todos os que estarão nesse show [com cenografia de Juliana Godoy, que ainda divide com Alessandra a direção e o roteiro] participaram da gravação do álbum. Teremos também a presença dos bailarinos Claudia Adão, Thais Ushirobira e Guinho Nascimento.”

O disco Macumbas e Catimbós, que conta com direção artística assinada por Alessandra e produção musical dela em parceria com Caê Rolfsen, é, segundo a cantora, um trabalho de música brasileira, que fala sobre o sagrado a partir da música de terreiro (umbanda, candomblé e jurema). Ela conta que na adolescência, durante suas incursões pelo interior de Pernambuco, começou a se aproximar do maracatu de baque solto, do cavalo-marinho, da ciranda, do coco e dos ilus (tambores usados nos terreiros pernambucanos), e que essas tradições trouxeram à tona outro lugar do sagrado e a ajudaram a compreender ainda mais o papel da música de terreiro na formação cultural do Brasil.  

“A partir do meu encontro com essa música, essa dança, e com o tambor, fui levada aos terreiros de candomblé e jurema, os quais frequentei durante muitos anos como simpatizante. Só quando cheguei a São Paulo comecei a me aproximar da umbanda e fiz minha iniciação. Sou ogã da casa que frequento. Tenho a função de conduzir a música, de perceber para quem e o que se canta”, explica. “A música nos rituais afro-ameríndios, nesse ‘universo das macumbas’, não é um acessório ao ritual. Ela conduz o trabalho, do início ao fim, e sustenta a energia para tudo acontecer. E a música de terreiro tem um papel profundo na formação cultural do Brasil e na estruturação da música brasileira, do que é o samba, o maracatu, o coco, entre outros gêneros. É muito improvável que alguém nunca tenha ouvido um ijexá, um aguerê, que são ritmos do candomblé mas transcendem o espaço do terreiro.”

Sobre a escolha do nome do disco e do show, a cantora fala que, ao longo dos anos, os termos macumba e catimbó foram sendo repassados de forma pejorativa e errônea, como se fossem ligados ao mal. E que, nestes tempos de crescente onda de intolerância, inclusive religiosa, são cada vez mais importantes posturas mais afirmativas de dizer que cada um pode ser aquilo que quiser – e que não existe nada de errado nisso. Segundo Alessandra, Macumbas e Catimbós é uma forma de resistir e de existir, por meio do amor, e de se conectar, saudar e agradecer a ancestralidade energética, espiritual e brasileira.

“Ainda hoje alguns acham que quem é ligado à macumba ou ao catimbó é ‘praticante do mal’. Mas nenhum dos dois termos, em suas etimologias e essências, tem esse significado”, explica. “Depois que me assumi umbandista, minha escolha por esse nome para o álbum se deu para dizer que está tudo bem com isso, que podemos ser macumbeiros e catimbozeiros e o que importa é se você pratica o amor e o respeito. E isso vale para qualquer religião, inclusive para os ateus e os agnósticos. Não precisamos nos esconder”, fala. “Ao mesmo tempo que o disco tem essa camada de resistência, o que o conduz é justamente o amor. Existe uma saudação na umbanda que diz salve as suas forças. A gente reconhece as forças dos outros e as nossas. E esse álbum me conecta a essas forças que me sustentam individualmente, mas também sustentam esse país coletivamente, além de quem é ou não da religião. Por isso, colocá-lo na rua hoje, com o país como está, com retrocessos tão acelerados e outros tão iminentes, me pareceu ainda mais urgente.”

Alessandra Leão [com interpretação em Libras]
sábado 24 de agosto de 2019
às 21h
[duração aproximada: 90 minutos]

ingressos: R$ 30 e R$ 15 (meia-entrada)

[livre para todos os públicos]

abertura da casa: 90 minutos antes do espetáculo

Os ingressos podem ser adquiridos pelo site Ingresso Rápido e em seus pontos de venda a partir das 13h do dia 9 de agosto. Também estão à venda na bilheteria do Auditório Ibirapuera, nos seguintes horários:
sexta e sábado das 13h às 22h
domingo das 13h às 20h

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