por Da Quebrada Pro Mundo com Alexandre Ribeiro

Esta deve ter sido a terceira ou quarta vez que isso acontece comigo. E eu não posso mentir. Cada vez parece que piora. E, se passar batido... juntos, nós perdemos um pedaço do nosso coração.

O ambiente estava escuro, ela falava ao telefone. Eu vim caminhando lentamente, tinha acabado de sair da sessão de cinema. Em um estacionamento a céu aberto, lotado de câmeras e seguranças, notando o meu cabelo armado ela virou o olhar e se desesperou. Na hora quem percebe é o coração. Pensei em trocar de rota, mas vi que seria pior. Eu só queria acalmá-la. Pensei até em gritar para que ela não corresse... Mas já era tarde demais. Ela se foi e a pergunta ficou.

“Mas... por que sair correndo, senhora?”

O que eu queria, na verdade, é que as coisas deixassem de ser assim. Queria poder pensar em dias melhores. Queria que a consciência racial fosse presente e nós, a camada mais pobre, parasse de sofrer por tão pouco. Eu quero ir além da vida ou morte. Eu não quero ter medo de viver.

De acordo com o último censo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), pardos, somos 46,7%. Entre 95,9 milhões de brasileiros, componho o grupo mais visado. Na hora do acontecido, minha própria construção tentou me sabotar: “Mas sua pele nem é tão escura...”. E é por isso mesmo que eu não me calo. O racismo é o nosso pior inimigo.

De um lado, uma classe média que foi ensinada a odiar pobre e a amar a “meritocracia”. De outro, uma juventude que nem sequer teve aulas decentes pra aprender alguma coisa. Só resta o sonho da nave do ano e o amor pelas notas.

Na mesma intensidade com que entendo o medo da senhora – o medo de perder o pouco que ralou pra conquistar –, não posso negar que sou o moleque sem nada a perder. Essa mistura de consciências foi o que me trouxe até aqui. Essa falta de consciência é o que nos leva até lá.

No fim, estaremos sempre juntos enquadrados em um só retrato. O povo. Essa gente que se odeia e se maltrata por celular, por tênis, por moto... Enquanto os grandes continuam brindando prisões políticas e blindados com seus milhões.

O vidro que se levanta, a arma que se aponta, toda a cadeia de violência. Nós sabemos muito bem quem é o culpado. O povo contra o povo é uma ação do Estado.

Se você tem opção, não corra. Talvez perder um “bem” será melhor pra você. Entretanto, senhora, desta vez não vai passar batido. Desta vez não vou jogar no ralo mais pedaços do meu coração.

Até mesmo as atitudes racistas nos dão combustível para vencer a desigualdade da vida. Da mesma maneira com que se foi com a pergunta, a resposta ficou no recado.

“Por que sair correndo?”

Porque nós, que não temos opção, respiramos o corre. Temos que correr pelo certo para respeitar nossos antepassados.

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