por Rogério Felix

 

O historiador mexicano Joaquín Barriendos, no texto “A colonialidade do ver. Por um novo diálogo interepistêmico” (2011 – aqui traduzido livremente do espanhol), fornece contribuições e ferramentas importantes para a decodificação dos modos de operação/organização da percepção do mundo a partir de suas matrizes euro-ocidentais, não apenas para os estudos visuais e correlatos. Enquanto analisa um exemplo do que designa como imagens-arquivo, aborda um dos principais, mais repercutidos, estereótipos construídos para negativar a alteridade da branquitude, responsável por cooperar visualmente a racialização moderna: o canibalismo do selvagem das Índias.

Vinculado às proposições teórico-metodológicas do projeto Modernidad/colonialidad/descolonialidad, Barriendos (p. 27) compreende as imagens-arquivo “[...] como ferramentas semiótico-sociais de concatenação, isto é, como signos disparadores de múltiplos imaginários subjacentes ou iconicidades complementares [...]”. Em outras palavras, são aqueles registros cristalizados na memória coletiva, como fundos documentais, que reúnem consigo uma série de associações ensaiadas restritivas à cognição do objeto em questão. A sigla LGBTQIA+ e seus empregos poderiam ser um exemplo.

Na análise, derivada de reflexões sobre o consumo global da diversidade cultural em sociedades pós-coloniais, especialmente nas rotas do mundo atlântico, a fome europeia pelos metais das terras do ultramar (capitalismo) aparece como premissa para a invenção cartográfica imperialista, onde o que hoje é conhecido por continente americano já chegou a figurar como Canibália, para justificar legislativamente as violências físicas e epistêmicas.

Seguindo sua argumentação, que conduz às raízes dos sintomas da crise do oculocentrismo ocidental (primazia da visão na percepção da sensação), com base nas políticas econômico-raciais, vemos as ligações entre canibal, primitivo, exótico, selvagem, monstruoso, fantástico, antropófago. Alicerces da continuidade dos relatos protoetnográficos (crônicas de viagens, descrições de observação, relatórios etc.), produzidos por religiosos católicos, militares, artistas, expedicionários, cientistas, administradores coloniais, a contar de por volta do século XVI, aos métodos pelos quais a pluriversalidade é subjugada através das relações internacionais próprias do sistema-mundo moderno/colonial transatlântico. Constantemente sendo “descoberta” com a “desaparição” do corpo de enunciação “universal” patriarcal.

Assim que resulta nítido como a imagem-arquivo do canibalismo das Índias, atrelada enfaticamente aos maus selvagens – ou seja, quem refuta ontologicamente a intrusão dominadora expressa pelo contato comercial e pela conversão religiosa –, modulou o ideário medieval da Europa, espraiando-se na disseminação das iluminações (sic), tornando-se uma estratégia continuamente atualizada para incitar a desqualificação das existências indígenas. Manipulada desde a época da consolidação das invasões a esta grande porção de terra batizada como América, conforme demonstra Joaquín Barriendos, constituindo um dos fundamentos da colonialidade do ver que tem tutelado a contemporaneidade. 

Fotografia de página do livro. Está escrito As Gentes e há três torsos desenhados, dois indígenas e um negro, os três sem rosto. Ao fundo, uma caravela e água desenhados.
Página do livro de artista ¿História natural? (2016), de Rosana Paulino. Técnica mista, 28,5 x 38 cm. Fonte: site da artista (imagem: Rosana Paulino)

*Embora a imagem aqui exibida não seja diretamente mencionada no texto, longe de ser mera ilustração, ela funciona como hipertexto do ensaio que segue.

Para pontuar mais uma ocorrência, na porção batizada de África, mais próxima do nosso momento de existência, quando a prática fotográfica já estava surgida e imiscuída nos objetivos imperialistas, retomo sinteticamente o historiador da arte português Afonso Ramos (2014), que conta o caso da repercussão internacional – mormente programada pelo governo salazarista, grande fomentador da teoria do lusotropicalismo – de uma série de fotos de atrocidade, por ele consideradas estopim da guerra pela libertação angolana.

Essas imagens – feitas sob medida com a chancela do exército português para “documentar” a emblemática investida iniciada em 15 de março de 1961 por pessoas que lhe eram cúmplices – tiveram o programa narrativo desenvolvido circulado na qualidade de apelo desesperado, dentre outros locais de visibilidade pública, nos fóruns das entidades supranacionais que integram a Organização das Nações Unidas (ONU).

A intenção era comprovar a animalidade, o terrorismo, a selvageria inata dos povos africanos, simploriamente representados por militantes associados a Holden Roberto – então líder da União das Populações do Norte de Angola (UPA), que posteriormente originou a Frente Nacional de Libertação de Angola (FNLA) –, enfatizando como suas capacidades de crueldade operariam. Em favor da busca de mais apoio internacional para a manutenção do regime colonial imputado integralmente algumas décadas antes, após a independência do Brasil em 1822, para Angola, Moçambique, Guiné-Bissau, Cabo Verde e São Tomé e Príncipe. 

Não por acaso, a antropofagia foi o grande mote de ação do Modernismo produzido e irradiado via São Paulo no início dos anos 1920, cujo escritor Oswald de Andrade, na redação do Manifesto antropófago, entre outras finalidades, a compreendia como vacina “[...] Para o equilíbrio contra as religiões de meridiano. E as inquisições exteriores”, evocando a suposta devoração do primeiro bispo da [colônia] Brasil, D. Pero Sardinha, como escatologia dos confrontos-encontros entre povos.

Considerando as repetições-contínuos-atualizações de eventos assinaladas, é imprescindível recobrar que pari passu a esse devir modernista estava a modernização impulsionada pelo conjunto de normas constitutivas da política de branqueamento. Essa última componente inextricável do processo compulsório de elaboração da identidade territorial pós-colonial, profusamente dilatado em planos curatoriais. 

Resguardadas as especificidades locais, essa é uma realidade que pode ser observada, no decorrer do século XX, ao longo das terras que vêm sendo dominadas pelos governos europeus, quando, nas rubricas de mestiçagem, hibridização, sincretismo, multiculturalismo e demais adjacentes, foram feitos esforços para encarar, reinterpretar, especular o estatuto da vida social perante o acirramento das disputas entre mundos (Ocidente-Oriente; velho-novo; primeiro-segundo-terceiro; emergente-desenvolvido; norte-sul global).

No caso brasileiro, como impulso para o ponto de virada da difusão das tecnologias da informação e comunicação, vetores da globalização perversa tal como diagnosticou o geógrafo baiano Milton Santos (2000), foram fundadas instituições museais com diferentes naturezas e vinculações, designadas plataformas de exibição de perspectivas de identidade nacional, na maioria das vezes reiterando a falácia da democracia racial inerente à teoria lusotropicalista, concebida pelo sociólogo pernambucano Gilberto Freyre, em simbiose com o início da implantação jurídica do tombamento como instrumento de garantia da preservação de bens/valores históricos, artísticos e culturais.

Isso implica assumir que as medidas para a institucionalização da arte, os incentivos à imigração europeia, os critérios de patrimonialização, a gestão fundiária, os direitos trabalhistas e as agendas de projeção da imagem externa do país, junto aos eixos suplementares das políticas estatais, desempenharam um papel para alinhavar a paradoxal tentativa de reafirmação de humanidade branca, a despeito das ações objetivas, manifestada pela pretensa cordialidade das relações engendradas.

Daí, penso que, adicionalmente ao balanço de inovações estéticas e da ampla reavaliação das cenas modernistas em cada região, no ciclo de rememorações que já desponta, é preciso sopesar as atualizações consequentes das políticas de cuidado museológico, norteadas pelo branqueamento mediado com a cultura visual-material – que desembocam nos pressupostos para a formação de coleções, nas possibilidades de temáticas propostas para enquadrar os acervos estabelecidos, na disponibilização de recursos para tratar/adquirir obras e nas demais tarefas vitais dos museus, em consonância com as suas funcionalidades correntes, que sustentam a colonialidade do ver.

A coluna Revelação convida curadores, pesquisadores e outras pessoas interessadas nos debates que a produção de imagens pode suscitar para escrever sobre fotografia. Ao final de cada texto, uma recomendação de perfil do Instagram que tenha chamado a atenção do autor.

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