por Alexandre Ribeiro

Este é o último texto da coluna Da Quebrada pro Mundo em terra brasilis. Se tudo der certo, no dia 31 de julho de 2019 embarco para a Alemanha. Eu ganhei uma bolsa para fazer trabalho voluntário na Horst Koesling Schule, escola que usa da arte e do trabalho para educar crianças com diversas deficiências. Chego a solo europeu em 1o de agosto e começo com a correspondência internacional. Para quem cresceu em uma favela de Diadema (SP), esse sonho parece perfeito, né? É... Eu diria que não tanto. E é exatamente pelas imperfeições que o tema desta coluna não poderia ser outro: o medo.

Desde que vi meu nome na lista de aprovação da bolsa pensei: será que sou eu mesmo? Será que eu mereço tudo isso? Uma mistura de desconfiança e traumas ecoou na minha mente, me fez recordar do passado.

Quando você cresce em um ambiente de pobreza financeira, numa quebrada, algumas outras pobrezas ficam enraizadas no seu pensamento. Eu me lembrei que cresci sempre ouvindo: “Caramba, e esse tênis novo aí? 'Mó' coisa de boy”; e a contrapartida sempre aparecia: “Dolly Cola? Credo, que coisa de pobre”.

Percebo que esse pensamento também está incrustado em mim. Desde o meu primeiro emprego, como aprendiz – o que, na época, parecia o melhor que a vida poderia me oferecer –, até quando estive pela primeira vez em um avião na vida. Lá eu pensei: “Olhe onde você está, maior lugar de boy”.

Mas, peraí, deixe-me refletir. Quem foi que disse que existe um “lugar de boy” e um “lugar de pobre”? Quer dizer que, se você nasceu de um jeito, tem que viver pra sempre assim? Tem que se contentar? Eu não concordo. Sou teimoso e desobediente. Luto pela quebra dessas correntes. E isso até hoje me causa traumas e um medo danado. Mas é com medo mesmo que a gente tem que ir. É nisso que acredito. Se existe um lugar pra mim, esse “lugar” são meus sonhos. São eles que vou buscar.

E quem dera fosse simples assim. Sonhar, lutar e conquistar. Quem dera a realidade replicasse esse ciclo do sonho, da imaginação. Viver seria a parte mais fácil. Mas você acha? Que nada. Depois de vencer aos trancos e barrancos todos esses traumas de um “não lugar”, vem a parte pior. Quando o mundo quer te encaixar em “um lugar”.

Como é que o medo se materializa no seu corpo?

Em mim, minhas mãos ficam trêmulas, meu coração começa a pulsar fundo e forte, e minha pele clareia. Junto disso, sempre, uma incessante vontade de chorar. Eu raramente sinto isso.

Senti uns dias atrás quando fui enquadrado pela polícia, e outra vez, meio distante, lá no consulado norte-americano. Havia encontrado uma passagem baratíssima com destino à Alemanha que fazia escala em Miami e decidi comprar. Achei que o visto não seria problema. Imagina? Logo eu, um jovem exemplo para toda a nação. Ascendendo socialmente por meio do intelecto e da cultura. Só que não.

Voltei de cabeça baixa quando recebi a cartinha rosa por debaixo do vidro, ironicamente entregue por uma mexicana. Meu visto – de trânsito – fora negado. Mãos trêmulas, coração pulsando fundo e forte, e minha pele clareando. Junto disso, sempre, uma incessante vontade de chorar. Dentro do sistema, eu sou só mais um. É isso.

Nesta semana, terei uma nova entrevista, desta vez em outro consulado, em outra conjuntura. Mas o medo permanece. E se tudo der errado de novo? E se eles negarem meu visto logo de cara? Eu não sei o que vai ser de mim, eu tenho medo. E está tudo bem.

Uma pessoa que não tem medo de nada pode se machucar muito. É científico. Quem não tem medo de um penhasco vai lá e se joga. O tamanho do buraco pode levar até a morte. Mas nós também temos a escolha de ficar, de analisar os fatos. Sentir medo é se proteger, e, nestes tempos, meus amigues, se proteger é um ato heroico.

A pergunta que fica é a mesma: e se tudo der errado, Alexandre? Olha, eu sinceramente não sei a resposta. Eu só sei que não posso deixar o medo arruinar o caminho. É necessário seguir adiante.

“A utopia está lá no horizonte. Me aproximo dois passos, ela se afasta dois passos. Caminho dez passos e o horizonte corre dez passos. Por mais que eu caminhe, jamais alcançarei. Para que serve a utopia? Serve para isso: para que eu não deixe de caminhar.”

(Fernando Birri)

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