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“Encontros com a nova literatura brasileira contemporânea”: Auritha Tabajara

Auritha Tabajara produz cordéis que desmontam os estereótipos e provocam tanto os leitores brancos quanto seus parentes

Publicado em 14/07/2022

Atualizado às 10:57 de 03/08/2022

A série Encontros com a nova literatura brasileira contemporânea apresenta o trabalho de escritores da cena literária recente, com uma seleção atenta à produção de todas as regiões do país. Neste ciclo, a curadoria e a apresentação são da pesquisadora Fabiana Carneiro da Silva.

Auritha Tabajara chorou na barriga da mãe. Sua avó, Dona Francisca, parteira, mezinheira e contadora de histórias, ouviu e traduziu aquele sinal como um presságio de que a menina viria ao mundo com o poder e a responsabilidade de fazer alada a palavra do povo Tabajara da cidade de Ipueiras, no Ceará. Assim foi e está sendo. Auritha, em 2004, publicou pela Secretaria da Educação do estado o livro Magistério indígena em verso e poesia; e, mais recentemente, em 2018, trouxe à luz a obra Coração na aldeia, pés no mundo, cuja linda edição, com xilogravuras de Regina Drozina, foi realizada pela UK’A Editorial. Como vimos na produção de outras escritoras indígenas publicadas nesta série, Auritha também constitui seu projeto estético a partir da retomada de um gênero literário em circulação nas letras brasileiras, isto é, faz de um gênero convencionalmente conhecido o seu território de existência, modificando e atualizando os seus caracteres a fim de que possa comportar o novo corpo-memória. O gênero em questão é o cordel, e a escritora sublinha a vivacidade e a abertura do discurso literário ao transgredir a estrutura métrica que tende a caracterizar essa modalidade de texto. A oralidade tão constituinte dos folhetins de cordel performa, na sua literatura, a dicção da contadora de histórias, cujo repertório é definido pela experiência de ser integrante da aldeia Serra dos Cocos e de ter crescido ouvindo os repentes cantados por seus tios, as cantigas de sua tia Maria e as rezas ritmadas da avó já mencionada. Além desses sotaques, vemos e sentimos na textualidade de Auritha a imagem de um Nordeste indígena (expressão ainda tão recalcada). Nos textos apresentados a seguir – os poemas ainda inéditos “Mestra da sabedoria” e “Eu já nasci sapatão” e um fragmento do livro Coração na aldeia, pés no mundo –, as preocupações da autora como mulher indígena e lésbica são transfiguradas em versos que nos falam sobre o desafio de ser, de se substantivar como sujeito diante das violências e das perseguições sofridas simbólica e materialmente. Aqui, a princesa – personagem que aparece reiteradamente nos cordéis em alusão ao lastro europeu do gênero – dorme na rede e domina as sabenças das estratégias, das ervas e dos feitiços que lhe possibilitam fugir dos patrões, que ainda querem escravizá-la, e dos padrões, que querem sua subjetividade mutilar. Como tantos outros escritores subalternizados pela ordem global da modernidade, em seu exercício artístico, Auritha Tabajara faz da língua do outro, uma imposição colonial, um caminho de experimentação da liberdade e do resguardo de memórias. Ela produz cordéis que desmontam os estereótipos e provocam tanto os leitores brancos quanto os seus próprios parentes. Escreve, como afirma Daniel Munduruku sobre o fazer literário do povo originário, não para deixar de ser indígena, mas para se manter como tal. 

Veja também:
>> Auritha Tabajara no podcast Mekukradjá

Na fotografia colorida, a escritora Auritha Tabajara aparece em pé, com uma blusa verde. Ela usa acessórios indígenas e sorri
Auritha Tabajara (imagem: Agência Ophelia/Itaú Cultural)

poemas selecionados

Trecho do livro Coração na aldeia, pés no mundo

Peço aqui, Mãe Natureza,
Que me dê inspiração
Pra versar essa história
Com tamanha emoção
Da princesa do Nordeste,
Nascida lá no sertão.

Quando se fala em princesa
É de reino encantado,
Nunca, jamais, do Nordeste
Ou do Ceará, o estado.
Mas mudar de opinião
Será bom aprendizado.

Num distante interior,
Tangido por vento norte,
Do balanço de uma rede
Ou como um sopro de sorte,
Nasceu uma indiazinha,
Chorando bem alto e forte.

Criou-se desde infante
No berço de sua gente,
Ouvindo belas histórias
De sentindo inteligente;
Edificando o caráter
Na fase de adolescente.
Já estando mais crescida,
Moça de sonho profundo,
Respeitadora da honra,
De Maria ou Raimundo,
Voando qual beija-flor
Nas maravilhas do mundo.

Foi a primeira netinha
Da vovó boa parteira
Contadora de história;
Também grande mezinheira
Na região, respeitada
Por ser sábia conselheira.

Uma menina saudável,
Com o nome a definir,
Vovó a chamou Auritha,
Mas, quando foi traduzir,
Um ancestral lhe contou
Aryrei” está a vir.

Mas, para se registrar,
Seguiu a modernidade
Com o nome de Francisca,
Pois, para a sociedade,
Fêmea tem nome de santa
Padroeira da cidade.

A menina foi crescendo,
Aprendeu a caminhar.
Com nove meses de vida
Tudo sabia falar.
Dizia: “Quando eu crescer,
Quero aprender a curar”.

Admirada por todos;
Para muitos, diferente.
Na escola, aos sete anos,
Taxada de rabo quente,
Feiosa bucho quebrado...
Porém muito inteligente.

Aprendeu a ler na rima.
Tudo queria rimar:
As brincadeiras e histórias
Que ouvia a vovó contar.
Com tambor e maracá,
De música foi gostar.

Conversava com espíritos,
Mas ninguém acreditava.
Conseguiu fazer remédio
Com as ervas que sonhava;
Cedinho, no outro dia,
As recolhia e plantava.

Contava para a vovó,
Que dizia: “Vá sem medo,
O tempo que vai chegar
Desvendará o segredo.
Escute, aprenda, pratique,
Vai precisar logo cedo”.

 

“Mestra da sabedoria”

Mestras da sabedoria,
Fazei-me inspiradora,
Parideira das palavras,
Talvez colaboradora,
De um rumo diferente,
Onde o amor e a gente,
Sejam como uma escritora.

Que todos olhos enxerguem,
O poder da natureza,
Um corpo nu ou vestido,
Sente amor ódio e tristeza,
Mas tu não me exterminou!
Meu direito, tu sepultou,
Com força sangue e bruteza.

Sou essência da criação,
Não queira me rotular,
Indígena tem sentimentos,
E gosta de namorar,
Ser feliz com outra mulher,
E respeito a gente quer,
Sem precisar implorar.

Todo mundo quer ser feliz,
Mas vive se importando,
Com a felicidade alheia,
Fulano tá se agarrando,
Preconceito e falação,
Contamina a população,
E tudo desconcentrando.

É muita gente apontando,
Pra eu querer ajustar,
Mas seria bem melhor,
Cada um colaborar,
Mulher é pura alegria,
Sabe escrever poesia,
Mulher é para se inspirar.

A voz da mulher guerreira
Por outras vozes, tecida,
É voz da terra, da água,
Da chuva abastecida,
De palavra e sabedoria,
Memória e não teoria,
De saberes enriquecida.

Carrega dentro de si
O mistério do sagrado,
Do urucum da medicina,
Do canto do encantado,
A mulher é resistência
Ser feliz sem violência
Ficar viva em qualquer Estado.

Na fotografia colorida, a escritora Auritha Tabajara aparece em pé, com uma blusa estampada em tons de vermelho. Ela usa acessórios indígenas e olha para cima.
Auritha Tabajara (imagem: divulgação)

“Eu já nasci sapatão”

Nasci em setenta e nove,
Antes do amanhecer,
A parteira foi me benzer,
Assim conta a minha avó,
que eu abri um olho só,
Disposta à minha missão,
Sem ter no bolso um tostão,
Sorrindo e bem satisfeita
Com um olhar de perfeita
Eu já nasci sapatão.

Quando fui para a escola,
Já me achava bonita,
Com um vestido de chita,
Desfilava bem faceira,
Corria e fazia poeira,
Para chamar atenção.
Das minas o coração,
Ganhar com facilidade,
Na aldeia ou na cidade
Eu já nasci sapatão.

Eu clamo e peço respeito,
Só queremos existir,
Direito de ir e vir,
E que assim toda mulher,
Fique onde ela quiser,
Inclusive na profissão,
Sem nenhuma opressão,
E sentar de perna aberta,
Sem ouvir, errada ou certa,
Eu já nasci sapatão. 

Sou indígena sou guerreira,
Juntando-se à resistência,
Sábia e com inteligência,
Que luta por igualdade,
De toda comunidade,
Pra um dia ser inspiração,
Violência, eu digo: não,
Pois é tempo de somar,
E tu pode acreditar,
Eu já nasci sapatão.

Que as pessoas sejam livres,
Pratique somente o bem,
Bonito não é quem tem,
Mas quem sabe dar valor,
Seja também o autor,
Da sua reflexão,
Por não atender padrão,
Eu já fui descriminada
Outras vezes rejeitada,
Eu já nasci sapatão.

Eu creio que chegue um tempo,
Que não irá precisar,
Da mulher ter que gritar,
Pra se livrar do agressor,
Que a vida seja amor,
Pra cada situação,
Que esse meu coração
Seja pra quem eu quiser,
Inclusive de outra mulher,
Eu já nasci sapatão.

Que a tal da homofobia,
Nem possa mais existir,
Que a lei possa garantir,
O todo por igualdade,
Justiça e sociedade,
Saiam da escuridão,
De salto ou de pés no chão
Que eu possa ser feliz,
Aqui ou em outro País,
Eu já nasci sapatão.

Auritha Tabajara, como é conhecida Francisca Aurilene Gomes, nasceu no Ceará e é escritora cordelista, oficineira, contadora de histórias e terapeuta holística. Publicou, além dos livros citados, o folheto A lenda do Jurecê (2020). Seu trabalho também apareceu em projetos literários como a revista Acrobata e o site p-o-e-s-i-a.org. Acompanhe a autora pelo Instagram.

Fabiana Carneiro da Silva, neta de Amada e de Quiteria, filha de Lourdes e mãe de Imani e Yeté, tece um caminho que alinhava docência, pesquisa e ações artísticas no campo dos saberes contra-hegemônicos, sobretudo a partir do eixo constituído por literatura, corpo e experiência comunitária. Doutora em teoria literária e literatura comparada pela Universidade de São Paulo (USP), atua como professora adjunta do Departamento de Letras Clássicas e Vernáculas da Universidade Federal da Paraíba (DLCV/UFPB).

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