por Ramon Vitral

“Havia esse sentimento de potencial e emoção”, me diz o quadrinista norte-americano Jason Lutes sobre seus primeiros anos em Seattle, onde chegou em 1991 logo após completar sua graduação na Rhode Island School of Design, no outro lado dos Estados Unidos. Ele foi buscar a sorte na capital do estado de Washington atraído pela vida cultural frenética da cidade. No começo, ele conciliou um emprego como lavador de louças em um restaurante com o cargo de diretor de arte assistente na lendária editora de histórias em quadrinhos Fantagraphics. Depois, em 1993, ele foi contratado como diretor de arte do semanário alternativo The Stranger, focado na cobertura da vida política, social e cultural da cidade.

O movimento grunge e as atividades de bandas locais como Nirvana, Pearl Jam, Soundgarden e Alice in Chains ocupavam grande parte da seção de artes do então semanário. Em meio ao noticiário da cena cultural de Seattle, o The Stranger também publicava Jar of Fools, primeira HQ de Lutes, na época com 26 anos. Cercado por artistas e membro da equipe de um dos jornais alternativos mais celebrados de seu país, ele me relata a sensação de que todos à sua volta estavam focados em fazer arte “realmente interessante”, sem se importar com crítica e público.

Jar of Fools foi aclamada pelo jornal New York Times e pela revista Wired ao narrar a história de um mágico atormentado pela morte do irmão que tenta colocar sua vida profissional e pessoal novamente nos eixos. O fim da série e sua posterior publicação em um único encadernado deu a Lutes a segurança para investidas mais ousadas na linguagem dos quadrinhos. O título é visto por ele como sua graduação no mundo das HQs e fomento para sua vontade de produzir algo “substancioso”.

Lutes encontrou o tema de seu trabalho seguinte em uma revista, na publicidade de um livro de fotos sobre a Berlim da República de Weimar, a Alemanha entre os anos de 1919 e 1933. Ele ficou impressionado com uma frase do anúncio. “A frase era algo como ‘… e o jazz tocava enquanto o mundo saía dos eixos’. Eu amei essa imagem. Parecia um negócio apocalíptico, sabe, pessoas festejando enquanto tudo vai pro inferno. E eu li isso e me lembro de ter pensado: ‘taí. Esse é meu próximo trabalho. Esse vai ser o livro. Esse é o tema’”.

Capa de Berlim, obra do quadrinista norte-americano Jason Lutes (imagem: Divulgação/Veneta)

As 592 páginas em preto e branco do álbum Berlim ganham edição em português no próximo mês de novembro, 26 anos após o lampejo criativo que impulsionou Lutes. A HQ publicada pela editora Veneta, com tradução de Alexandre Boide, reúne as 22 edições avulsas lançadas sem periodicidade pelo autor entre 1996 e 2018. A obra narra os encontros e desencontros de artistas, jornalistas, prostitutas, músicos, funcionários e clientes de cabarés e políticos em Berlim entre 1928 e 1933, ano em que o Partido Nacional-Socialista dos Trabalhadores Alemães, o Partido Nazista, chega ao poder.

Os dois protagonistas da obra são a jovem estudante de arte Marthe Müller, recém-chegada à capital, e o jornalista Kurt Severing, um profissional em crise que vê sua desilusão crescer no mesmo ritmo da ascensão dos radicais de extrema-direita na política local. Entre os coadjuvantes, estão uma família que vê pais e filhos divididos por suas ideologias, uma banda de jazz norte-americana em turnê por Berlim, repórteres dos mais de três mil jornais que existiam na cidade na época e figurões das artes berlinenses das décadas de 1920 e 1930. Todos, de diferentes formas, assombrados pela escalada do nazismo.

Lutes conta ter visto paralelos entre suas vivências na Seattle dos anos 1990 e a Berlim de Weimar que deram ainda mais fôlego para o projeto em seu início. “Havia em Seattle uma sensação de que tudo podia acontecer, tudo era possível. E acho que vi, em tudo que lia sobre Berlim, a mesma coisa acontecendo.”

Berlim foi construída a partir de várias obras e referências, todas listadas na bibliografia ao final do livro. O foco principal dos estudos de Lutes estava em obras sobre formações de cidades. Ele pesquisou os vários cenários existentes para a construção de um centro urbano até chegar à composição de uma população diversificada, aos atritos decorrentes de choques de ideias, às muitas possibilidades de interação e de criação entre esses cidadãos e aos vários frutos dessa mistura.

“Vão ocorrer atritos. É o tipo de tensão que se espera. Mas, ao mesmo tempo, você vai achar gente que é igual a você e que não ia achar em outro lugar. Os gays, os artistas, os cientistas, basicamente toda gente que cresceu isolada na sua comunidade e que calhou de se encontrar na metrópole”, reflete Lutes. “Quando comecei a criar os personagens, pensei na cidade como uma espécie de palco e deixei os personagens por lá sem um plano específico. Eu não tinha um grande plano. A estrutura é decidida pela história. Então foi mais um improviso, até onde dá para ser improviso.”

Apesar de palco da história de Jason, Berlim é tão personagem do livro quanto Marthe Müller e Kurt Severing. A transformação pela qual a cidade passa entre o início e o fim da HQ é a jornada mais chocante da obra. Ao término da leitura do quadrinho, meu maior lamento era pela Berlim que poderia ter sido e não foi. Pela cidade boêmia, vanguardista e diversificada destruída por mentes retrógradas que viriam a causar a Segunda Guerra Mundial.

“Realmente, acontece isso, mais e mais pessoas têm esse sentimento que você descreve, do que poderia ter sido”, me fala Lutes. “O que foi realizado foi realmente incrível, antes de ser literalmente queimado. Isso foi definitivamente uma motivação para entrar nessa história, esse senso de possibilidade. E uma das razões pelas quais eu não li nada depois de 1933 é porque eu queria estar apenas naquele espaço e acreditar que aquilo iria continuar, que as coisas iriam continuar a melhorar... Todo mundo lá, muita gente, acreditava nisso, os comunistas acreditavam que iam alcançar seus objetivos, os líderes nazistas também.”

A trama caótica do álbum, com seus personagens à mercê de forças maiores e fadados a um destino trágico com a chegada de Adolf Hitler ao poder, faz contraponto ao formalismo estético da obra. Os designs de páginas blocados de Lutes amplificam os ares documentais da HQ. Mas não se deixe enganar por essa rigidez superficial: li poucos quadrinhos com narrativa tão suave e elegante como Berlim. Também me impressiona a consistência no traço do autor em uma obra construída ao longo de mais de 20 anos.

Hoje aos 57 anos e professor do Center for Cartoon Studies, um dos mais prestigiosos centros de estudos sobre quadrinhos nos Estados Unidos, Lutes explica a lógica aplicada por ele em suas obras e ensinada aos seus alunos: “O principal para mim, o que mais me esforço para passar nas aulas, é clareza. Insisto muito nisso. Não que os seus quadrinhos devam ser desenhados com clareza, mas qualquer que seja sua intenção, o que quer que você esteja tentando comunicar, clareza é o que vai te ajudar a chegar lá”.

Não lembro de muitas obras tão claras em suas mensagens e visualmente belas quanto Berlim. Em uma sequência ambientada em um espetáculo dos músicos norte-americanos do conjunto Cocoa Kids em uma casa de show berlinense, Jason brinca com os tamanhos e a disposição dos quadros das páginas a ponto de quase me permitir ouvir o som da canção apresentada por eles. “Esse era um objetivo, dar ritmo ao livro. Era um experimento. Ouvi aquela música, lembro de me sentar num café e ficar ouvindo aquela música várias, várias vezes, e a decupei. No início acho que decupei apenas em quadros. Tentei transformar aquela música numa série de quadros de várias larguras diferentes. Fui pensando página a página, com os momentos da música em que faria a transição para a página seguinte, e só depois fiz os desenhos. É muito bom saber que teve esse efeito.”

Um dos aspectos mais ousados do livro de Lutes está em sua opção por não retratar a suástica, símbolo do Partido Nazista, durante a maior parte da obra. O quadrinista diz ter sido motivado pela representação caricata e estereotipada do nazismo e seus partidários nos filmes e desenhos aos quais ele teve acesso durante a juventude, o oposto da representação humana que ele queria desenvolver no quadrinho. Ele temia que essas percepções caricatas em relação aos nazistas viessem à tona durante a leitura de Berlim caso a suástica tivesse presença constante. A escolha foi sábia: quando o símbolo é finalmente mostrado, já no final do livro, seu peso é ainda maior.

Ansioso por saber as impressões dos leitores brasileiros de Berlim, Lutes lembra de seu nervosismo inicial e de sua satisfação ao participar de uma turnê do lançamento da obra na Alemanha, no início de 2019, quando passou por sete cidades. Ele disse ter sido pego desprevenido pela sensação de gratidão por parte de seus leitores alemães. “As pessoas me agradeciam, e elas me agradeciam por terem vivido em uma geração alemã que cresceu sem poder falar sobre essas coisas, os pais delas não falavam sobre isso, assim como os avós delas não tratavam desses temas. Era uma vergonha imensa e todos preferiam não falar. Elas estavam me agradecendo por chamar a atenção e mostrar que vale a pena falar sobre esses temas. Tenho certeza que essa resposta vem do conteúdo e da história do livro, mas principalmente da escolha de ter esses temas como foco. Elas se sentiram legitimadas.”

Ainda na República de Weimar

Aproveito a deixa sobre Berlim para recomendar o lançamento do primeiro volume de Recado a Adolf, clássico do autor japonês Osamu Tezuka (1928-1989) recém-publicado pela editora Pipoca & Nanquim, com tradução de Drik Sada. Também sobre a ascensão do Partido Nazista na República de Weimar, aprofunda muitos dos temas tratados por Lutes em sua HQ. Uma coincidência muito bem-vinda a publicação de duas obras com temáticas semelhantes e propositivas de reflexões tão necessárias no Brasil de 2020.

O HQ Sem Roteiro Podcast é produzido e apresentado por Pedro PJ Brandão (imagem: divulgação)

Três perguntas para… Pedro PJ Brandão, professor, pesquisador da área de quadrinhos e host do podcast HQ Sem Roteiro

Na entrevista que fecha a 13ª Sarjeta, uma conversa com Pedro PJ Brandão, responsável pelo HQ sem Roteiro, o melhor podcast sobre quadrinhos produzido no Brasil.

O que você vê de mais especial acontecendo na cena brasileira de quadrinhos hoje?

Sem dúvida a consolidação produtiva de movimentos periféricos, em todas as suas facetas, tanto geográficas quanto sociais. Sempre se produziu quadrinhos em todos os locais do Brasil e por pessoas das mais variadas cores, sexualidades, credos, classes etc. Hoje, para quem acompanha o mercado brasileiro, é muito mais fácil apontar nomes que trabalhem nos mais diversos formatos de publicação, sobre os mais diversos temas, sem precisar, necessariamente, de uma pesquisa muito aprofundada. Isso para mim é resultado de anos de esforços, tanto individuais quanto coletivos, para se demonstrar que há coisas sendo produzidas além do homem, branco, hétero cis, vivente do eixo Rio-SP. Nós, como país, somos interseções ambulantes de várias questões sociais e culturais, e acredito que nosso quadrinho se direciona para ser também essa interseção de mil grupos. A cara do quadrinho brasileiro é ter muitas caras.

O que mais o interessa hoje em termos de histórias em quadrinhos?

A cada dia que passa me interessam mais as narrativas sobre o banal. Costumo até dizer em aula que grandes conflitos e batalhas me deixam arrepiado, mas cada vez mais me interesso por quadrinhos que mostram um personagem atravessando a rua para comprar pão. Fazer quadrinhos é um trabalho enorme, artistas dedicam muito tempo, cada página é um quebra-cabeça a ser montado. De certa forma, se um quadrinista dedica horas ou dias para contar uma história de um encontro banal entre pessoas conhecidas em um supermercado simples ou aquela troca de olhares entre duas pessoas que nunca se viram antes, sinto que a própria materialização da história é uma valorização dessa banalidade que vivemos na maior parte de nossas vidas. Muito me encanta ver o banal envolto nessa aura poética.

Qual é a memória mais antiga que você tem da presença de quadrinhos na sua vida?

Meu pai comprando para mim uma edição dos X-Men. Eu devia ter uns 10 anos e, como quase toda HQ de super-heróis vendida em banca, aquela era uma compilação de várias tramas, alguns capítulos no meio de uma história que devia ser acompanhada. Confesso que não entendi quase nada do que li, não fui atrás do que veio antes e muito menos do que veio depois, mas os desenhos me encantaram, aquelas pessoinhas brancas, negras, azuis, verdes, todas conversando entre si. Era uma edição que, pelo que me lembro, tinha muito diálogo e pouca ação. Nem faço ideia de quantas vezes li e reli aquela edição, também não me lembro de nenhuma das tramas, mas sei que se eu procurar nas caixas daqui de casa, encontrarei a revista, velha, empoeirada e cheia de afeto.

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