por Heloísa Iaconis

Sentir-se parte de uma trama, algo como “aconteceu isso comigo”, “aconteceu aquilo também”: feitiço assim é característica acentuada dos textos de Fernando Sabino. Mineiro de Belo Horizonte, ele se fez exímio contador de causos – dentro e fora das páginas. Tantas narrativas dele surgiram que não raros são os que associam seu nome à fala solta, ao papo bom que, quando transposto para o papel, mantém um ar natural, ritmo do boca a boca. Bernardo Sabino, filho do contista, lembra que seu pai queria que o leitor não percebesse que estava lendo, tão orgânico desejava que fosse o processo. Fernando Paixão, docente do Instituto de Estudos Brasileiros da Universidade de São Paulo (IEB/ USP), aponta que, diferentemente de Guimarães Rosa, um inventor da linguagem, Sabino se dava todo à história ágil, aos diálogos sagazes. Elaborava enredos como que conversando com quem o lê, técnica esperta que conquista até os mais ariscos e faz muitos conhecerem, por exemplo, Geraldo Viramundo, Comissário Serpa e Eduardo Marciano.

Marciano, aliás, assemelha-se a seu criador: os questionamentos do protagonista de O Encontro Marcado (1956) espelham as inquietações do próprio Sabino (com 30 anos à época da publicação). Jovem escritor, o personagem busca se achar na arte e na vida. Por essa razão, recorda-se de sua infância, da escola, da primeira namorada, dos amigos. Um percurso que encanta gente até hoje – em especial, aqueles que almejam ser profissionais das palavras. Caio Fernando Abreu, em sua formação, deparou-se com as aventuras de Eduardo e junto delas passou a maturar a vontade de fazer literatura. Um encontro entre um artista que está se parindo e outros que estão grávidos de si. Ou, no caso de Bernardo, um encontro com o que lhe era familiar: “Na cadeira de balanço, comigo no colo, meu pai já havia me contado todas as peripécias que, no livro, aparecem ficcionalizadas. Então, para mim, foi rápido notar, ao ler a obra, que Eduardo Marciano é, na verdade, Fernando Sabino”, explica o herdeiro, que também reconhece traços autobiográficos em romances como O Grande Mentecapto (1979) e O Menino no Espelho (1982).

Fernando Sabino | foto: Arquivo Nacional

Ainda que consiga identificar de pronto cenas reais entrelaçadas à imaginação, Bernardo compreendeu a importância de seu pai na esfera literária aos 8, 9 anos. Em sala de aula, descobriu os textos de Sabino e, com o tempo, constatou a separação entre a face paterna e a face de autor. Fernando pai, carinhoso e divertido, era quem gostava de jogar futebol de botão. Fernando autor era o sujeito que se isolava para trabalhar. “Algumas vezes, porém, ele me ligava (e não apenas para mim) porque estava empacado em uma frase e recorria às pessoas mais inesperadas para conseguir resolver o impasse”, diz o filho. E a postura cuidadosa do novelista não se restringe ao desenvolvimento das ações: como editor, procurou maneiras novas de tratar a leitura no Brasil. Ao lado de Rubem Braga e Walter Acosta, fundou em 1960 a Editora do Autor e seis anos depois, só com Braga, deu origem à Editora Sabiá – duas experiências que o levaram a entender, de ponta a ponta, a produção livreira.

E foi justamente o meio editorial que aproximou o romancista de seu xará. Fernando Paixão era editor na Ática na fase inicial da coleção Para Gostar de Ler, projeto que logo nos primeiros números traz contos e crônicas de Sabino. Mais à frente, no fim da década de 1980, Paixão ficou responsável por edições do escritor para o público juvenil. A partir daí, os dois se tornaram amigos. “Tivemos uma convivência grande, forte. Sempre que vinha a São Paulo, ele me visitava. Sempre que eu viajava para o Rio de Janeiro, ia vê-lo. Mesmo o que saía pela Record ele me mostrava, pedia opinião. Fui um pouco companheiro dele, um parceiro intelectual”, rememora o professor, que, além da atuação em sala de aula e na editora, é poeta. Por ser poeta, bem sabe dos meandros da literatura, sensibilidade essa que cativou o colega prosador de tal modo que este lhe fez uma confidência preciosa: chegou a rascunhar uma continuação de O Encontro Marcado, cujo título seria A Resposta. Quais seriam, enfim, os rumos de Eduardo Marciano?

Apesar de o ficcionista não ter deixado soluções acabadas, não falta quem construa caminhos diversos tanto para Marciano quanto para os demais personagens. Bernardo Sabino acompanha alguns desses engenhos pelo Instituto Fernando Sabino, instituição criada por ele em 2013, com o intuito de divulgar a obra de seu pai e de incentivar a leitura, em geral, entre garotos e garotas. A valer, tudo começou em 2004, após o falecimento do cronista: nesse período, um diretor de televisão procurou Bernardo para que realizassem um especial em torno do trabalho de Fernando no cinema. Terminada a tarefa, veio a sugestão ao descendente: por que você não se dedica à memória de seu pai? A dica ficou como pulga em Bernardo, que, em 2007, decidiu montar uma exposição sobre o autor, no Palácio das Artes, em Belo Horizonte. A mostra foi para Brasília e para o Rio de Janeiro – até que Muriaé, cidade pequena de Minas Gerais, também quis receber a homenagem. Feitas as adaptações por causa do espaço, a iniciativa ganhou os estudantes do local, que se debruçaram nas histórias do contista. Todos liam e adoravam Fernando Sabino.

A surpresa que tomou Bernardo em Muriaé se repetiu dali em diante: ele se dispôs a andar por escolas para, com base nos livros de Sabino, estimular educandos, educadores e famílias inteiras a refletir acerca de temas sociais e questões pertinentes à cultura brasileira. Desde então, 80 cidades já acolheram a proposta, que se expandiu: inaugurou-se o instituto propriamente dito, uma coordenação pedagógica foi arquitetada e a organização interna se solidificou para atender cada vez mais comunidades. “Chegamos aos colégios e os alunos estão lendo não por obrigação, mas para se divertir, montar uma peça ou gerar um grafite”, diz Bernardo. Vários são os frutos do contato com as narrativas de Fernando, escritor que, tendo nascido no Dia das Crianças, se manteve menino nas linhas: leve, fluído e com humor. Passados 15 anos de seu falecimento, ele permanece em diálogo, conversando como faz alguém próximo, com gerações de Marcianos e Viramundos.

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