por William Nunes

“Eu fui criado por um pai velho. Quando eu nasci, meu pai tinha quase 70 anos de idade; e, quando eu era adolescente, ele estava com 80. Isso era muito diferente de todos os meus amigos. Ser educado por um homem que nasceu em 1920 me fez ter um contato muito próximo com a terceira idade e com a figura do velho. E isso eu sempre quis falar enquanto cineasta. Falar sobre a velhice, o amor e o carinho, sobre um dia especial. Falar sobre memória. Então, quando a gente foi pensar no personagem do Lima, eu inconscientemente coloquei muito do meu pai ali. Meu pai veio de Pernambuco, num pau de arara; o Lima veio de Minas, num caminhão de manga. Meu pai era aquela figura, aquele brasileiro, sabe? Clássico, como o Lima é, do nosso imaginário. A gente cresceu vendo o Lima na televisão fazendo esse tipo de personagem.”

Quem fala é Diego Freitas, diretor de A Volta para Casa (2019), curta-metragem em que o ator veterano é protagonista. A história se passa em uma casa de repouso, num domingo de Páscoa. Plínio, interpretado por Lima Duarte (90), é um marceneiro aposentado à espera da visita de sua família. É quando Anselmo, um jardineiro interpretado por Guilherme Rodio – que também assina o roteiro do filme –, se oferece para levá-lo até sua antiga casa. 

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Os dois personagens criam, então, um elo de cumplicidade, com Plínio rememorando sua vida no bairro de Santana, na capital paulista.  Essa cumplicidade existe também na vida real: Diego Freitas, 30, e Guilherme Rodio, 38, possuem, ambos, histórias com entes queridos idosos. “Eu convivi muito com meus avós. Eles viveram bastante e eu sou daquelas famílias que cuidam e estão presentes. Então, foi muito gostoso [fazer o curta]. Tem um pouco dos meus avós naquele personagem”, conta Guilherme. “Para mim, era muito importante e bonito ter o Lima. Meu pai faleceu com 89 anos, que é justamente a idade que o Lima tinha quando fez o filme – hoje ele está com 90. Foi especial conseguir falar um pouco sobre o tema velhice”, completa Diego.

Desde a primeira conversa que os dois tiveram sobre A Volta para Casa, Lima já era o nome favorito para dar vida ao marceneiro aposentado – “A gente não conseguia pensar em outra pessoa”, lembra Rodio. O encontro com o ator, em uma padaria da Rua Teodoro Sampaio, foi possível graças ao intermédio do jornalista Amilton Pinheiro. O ator topou na hora. “Nós imprimimos o roteiro para dar ao Lima, e ele o usava como abanador. Nós preocupadíssimos e ele falou ‘vou fazer’”. 

Parte das filmagens aconteceram em uma casa de repouso, em São Paulo (imagem: Guilherme Raya)

A maneira com que o tema é abordado no curta incentivou o “sim”, afinal, a velhice ainda é subrepresentada nas telas. Em entrevista para o mesmo Amilton Pinheiro, publicada no jornal O Estado de S. Paulo, Lima disse:

“Falar da velhice não é fácil. Veja aí as novelas, que dificilmente conseguem retratar com decência esse estágio da vida tão sensível e difícil. […] queria contar a história de um velho como eu, que convive com o preconceito contra a velhice”.

O preconceito dá as caras, em muitos casos, na falta de oportunidade para continuar atuando profissionalmente ou para representar personagens e histórias reais e com profundidade de pessoas que ainda têm muito o que mostrar. “E eu acho que [a velhice] é um momento que, se a gente tiver sorte, vai chegar lá. O Lima também diz isso. É uma fase tão bonita da vida, porque você tem tanta experiência, já viveu tanta coisa, tem tanto para dizer. Ainda mais no nosso filme, que mostra uma pessoa que está perdendo a memória e tenta resgatar o que já teve. Mostrar pessoas velhas na tela é um dever de todos os cineastas. Temos uma parcela de idosos que cresce cada vez mais, ano a ano, e a gente tem que mostrar essas pessoas, os seus dramas e conflitos”, comenta Freitas.

“O Lima está fazendo papéis, é claro, de idosos, há muito tempo. Mas ele queria trazer justamente esse lado mais doído. Existe uma coisa que é a inexorabilidade do tempo. Todos nós vamos chegar lá e nós não vamos ficar mais burros ou carentes por causa disso. Essa visão simples que a gente deu, de alguma maneira, está focada no ser humano. Ela não está querendo trazer uma máscara, ou colocar penduricalhos”, observa Rodio. 

Tendo parte das filmagens sido feitas em uma casa de repouso, muitas cenas de Lima com os residentes surgiram de forma espontânea. Esses momentos, para Guilherme, trouxeram uma interação genuína do ator com os demais idosos, contribuindo para a fluidez daqueles dois dias de filmagens. “Todo momento na casa de repouso para mim foi muito importante. Tem uma magia do cinema ali, onde tudo funciona e corrobora. De alguma maneira, os moradores abstraíram o fato de que estava havendo uma filmagem, eles continuaram vivendo a vida deles. Conseguimos entrar, com uma equipe grande, dentro dessa vida e viver aquele momento”, diz o roteirista.

Em vídeo publicado em seu canal no YouTube, Lima Duarte, multipremiado por sua atuação em A Volta para Casa, relembra o personagem que viveu: “Se você viu o filme, presta atenção. Eu tenho um olhar para fora e outro para dentro. E ficou tão bonito. Quando ele olha para fora, aos 90 anos, é tudo assim… ‘você não sabe podar, o trânsito é muito ruim’, esses velhos ranzinzas. E quando ele olha para dentro – porque pensava que tinha lá uma casinha que era dele e de sua mulher, onde criou os filhos – é para ver onde é que estão essas crianças que não vieram buscá-lo no asilo. Onde é que está a mulher? Morreu. Onde é que está aquele tempo?”.

Lima Duarte no curta-metragem A Volta para Casa (imagem: Kauê Zilli)

O homem brasileiro

Se as primeiras lembranças dessa figura tão onipresente na dramaturgia brasileira estão em personagens de novelas como Sinhozinho Malta, em Roque Santeiro (1985), e Afonso Lambertini, em Da Cor do Pecado (2004), ou mesmo no Bispo interpretado no longa O Auto da Compadecida (2000), uma coisa é certa: Lima é um ator completo e está em tudo. E tudo se volta para o seu personagem mais celebrado: o homem brasileiro.

“Ele está muito ligado a essa identidade do homem brasileiro. Ele tem essa cara de uma pessoa do povo, uma pessoa real. Seu jeito de ser e de falar transmite uma rusticidade. E, ao mesmo tempo, talvez ele tenha alguma coisa que lembra meu avô, fisicamente. Careca, um rosto bem pronunciado”, começa a dizer Guilherme, para depois afirmar: “E o talento. O Lima é um patrimônio do cinema, do teatro e da televisão brasileiros”.

Para toda essa história, roteirista e diretor se juntam, mais uma vez, em um brinde: “Um brinde ao homem brasileiro e ao artista que melhor soube representar, para mim, até hoje, esse homem brasileiro”.

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Este texto foi publicado originalmente no site da Ocupação Lima Duarte. Lá você encontra outros materiais inéditos, além de entrevistas exclusivas e fotografias que contam a história do homenageado.

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