por Heloísa Iaconis

Entregar-se ao arrebatamento é uma atividade de encher coração e, ao mesmo tempo, nada fácil, ainda mais quando se vive uma realidade de incertezas. Nos últimos meses, Ana Cañas encontra momentos de fascínio em brechas da rotina: ficar com a gata Portelinha, cantar Belchior e assistir à série Sense8, por exemplo, são como acalentos para a artista. São sobre essas surpresas boas, além de reflexões a respeito do futuro, que é feita a entrevista abaixo. 

Para completar a conversa, a cantora enumera e comenta algumas de suas músicas preferidas, seleção afetuosa que se transformou também em uma playlist. Aproveite para ler as impressões de Ana ao som de Gal Costa, Billie Holiday, Violeta Parra e outros nomes. 

Como criar em um período de distanciamento social?
Criar / compor eu não consegui, infelizmente. Não saiu nenhuma música na quarentena. Mas criar / gravar (o disco em homenagem ao Belchior) tem sido um alívio, um alento, um estímulo, um desafio para a cabeça e para o coração. Nós, artistas (os independentes estão em maior situação de vulnerabilidade), estamos sem trabalho há cinco meses, sem perspectivas e totalmente desassistidos. Muitos estão se reinventando para poder sobreviver.

Em julho, você fez uma live cantando Belchior e, dessa experiência, decidiu conceber um álbum revisitando canções do compositor. Como está se dando a elaboração desse projeto?
Essa live foi uma surpresa enorme. Ela fez parte dessa “reinvenção” que citei na pergunta anterior. Eis que, no meio do caos, da tristeza e angústia desse momento, aconteceu algo muito bonito. Essa ideia surgiu de forma verdadeiramente despretensiosa, partindo da admiração absoluta que tenho pela obra de Belchior. A apresentação contou ainda com a ajuda do público, financeira e afetivamente. Depois dela, recebi milhares de mensagens (milhares mesmo) pedindo para que eu gravasse um disco com esse repertório. Comecei a minha trajetória cantando na noite e tinha um certo receio de sair do escopo autoral – achava que era uma caminho “mais fácil”. Besteira – até porque cantar Belchior está entre as coisas mais difíceis que já fiz na vida. Decidi derrubar esse preconceito que carregava comigo e, desde então, tem sido um aprendizado grande e com muita poesia.

Ana Cañas | foto: Ana Alexandrino

Em maio, você adotou Portelinha, sua gata. Como ela chegou até você?
Ela chegou até mim de uma maneira muito emotiva, forte e à beira da morte. Eu a encontrei em um pedacinho de papelão jogado no chão, quase sem respirar, na favela da Portelinha, perto do Capão Redondo, na zona sul de São Paulo. Fui ajudar a entregar algumas cestas básicas na comunidade e saí com ela nos braços. De lá, fui direto para o veterinário. A expectativa de que ela sobrevivesse era mínima, mas aconteceu um milagre (pedi ajuda pra São Francisco, que amo) e ela se recuperou. Durante um mês, dava de mama para Portelinha a cada duas horas na seringa (inclusive à noite), pois ela tinha só 15 dias. Hoje, é minha companheira e, agora, são, ao todo, sete gatos aqui em casa.

Recentemente, você se deparou com algum(a) artista que não conhecia e gostou da obra?Descobri a série Sense8, criada e dirigida pelas irmãs Wachowski (as mesmas de Matrix). Foi lançada em 2015, porém ainda não tinha visto. O tema é interessantíssimo e a série foi filmada em oito cidades ao redor do planeta. A trilha sonora é ótima: através dela, ouvi diversas artistas novas, como Sharon Van Etten (“Every time the sun comes up” e “The end of the world”) e Robyn (“Dancing on my own"), entras outras faixas incríveis. Estou em looping com essas canções. 

Quem é a primeira pessoa que você quer abraçar depois da pandemia?
De verdade? O público, os fãs. Saudade imensa desse rolê! E das amigas também. Saudade do bar, da cervejinha. Aquele afeto diário e banal que dá sentido à vida.

Ana Cañas | foto: Ana Alexandrino

Você possui uma carreira de quase duas décadas. O que aprendeu nesses anos?
Continuo aprendendo e esse exercício é o que mais me encanta no meu ofício. Todo disco é um desafio, cada show é diferente. São portais existenciais, não existe rotina. Mas, se for pra tirar um aprendizado dessa jornada, fico, certamente, com a humildade. Sem ela, não há conexão possível, nem crescimento.

Quem você quer ser amanhã?
Eu mesma (risos)... Só que em uma versão melhorada. Com mais generosidade, empatia, afeto, troca, soma, partilha, aprendizado, crescimento, evolução, conexão. E desejo continuar fazendo as coisas com a verdade do coração. Sempre. ️️

Confira as músicas escolhidas por Ana Cañas: 

1. “La vie en rose” (versão da minha avó a capella / composição: Louie Guy e Edith Piaf)

Essa é a minha primeira memória afetiva e musical. A minha avó cantava essa canção e eu cresci ouvindo-a cantarolar esses versos. Dona Adelaide nasceu na Espanha e, aos sete anos de idade, viu o pai ser fuzilado em praça pública durante a ditadura franquista por ser republicano e defender a democracia. Ela fugiu para França a pé, cruzou os Pirineus, passou fome. Na Segunda Guerra Mundial, impedida de retornar à Espanha, veio para o Brasil. Sempre me perguntei como minha avó conseguia ser tão amorosa e positiva perante tudo e todos na vida. Ela carregava uma esperança no horizonte dos olhos e uma alegria que transbordava diante de coisas simples. Um dia, entendi que essa canção a ajudava a sublimar os fantasmas de suas dores e foi assim que conheci o poder da arte, da música.

2. “Lágrimas negras” (versão: Gal Costa / composição: Jorge Mautner e Nelson Jacobina)

É difícil traduzir o que sinto com essa versão específica. A letra estupenda. O silêncio como arranjo. A voz nua e cristalina de Gal atravessando tudo, despudorada e contida. “Belezas são coisas acesas por dentro / Tristezas são belezas apagadas pelo sofrimento”. Essa poesia-sentença carregarei no coração para sempre.

3. “Strange fruit” (versão: Billie Holiday / composição: Abel Meeropol)

Como já disse, comecei cantando nos bares, em São Paulo, há 18 anos. O primeiro teste que fiz foi em um hotel para interpretar canções de Ella Fitzgerald e Billie Holiday. Foram anos cantando esse repertório maravilhoso. Porém, em especial, no dia em que escutei essa canção, o meu coração parou. “Corpos negros balançando”: isso me arrepiou a espinha e fiquei absorta, imaginando que uma mulher tinha cantado isso na década de 1930. Foi algo que me marcou profundamente, uma narrativa antirracista e pelos direitos do povo preto. 

4. “Eu amo você” (versão: Tim Maia / composição: Cassiano / Sílvio Rochael)

Tim Maia é algo que não dá para viver sem. Aquela voz. Aquele trovão sincero quando todo mundo queria ser João Gilberto. O DNA da soul music brasileira está inteiro naquela voz. Tim era um gênio musical. Essa é uma canção irretocável. Amo tanto, mas tanto que, humildemente, gravei uma versão no meu último disco, Todxs (2018).

5. “Criminal” (versão e composição: Fiona Apple)

Nunca me esquecerei de quando, ainda adolescente, vi um clipe na MTV com uma mulher encolhida, iluminada somente pela luz de uma lanterna, em cima do balcão da cozinha. Feito um bicho acuado, linda e estranha, afirmando que era uma criminosa. Essa imagem e essa mensagem nunca saíram de mim. Era tudo diametralmente oposto ao que o mainstream considerava ideal. Cortante, viciante, meio mórbido até. Fiona é única e permanece assim até hoje. 

6. “Waiting in vain” (versão e composição: Bob Marley)

A minha canção favorita do meu cantor e compositor favorito. Já desisti de tentar decifrar o porquê de eu passar a vida inteira escutando essa música como se fosse a primeira vez. Todos os arranjos são perfeitos, você consegue escutar todos os instrumentos, tudo soa no lugar que lhe pertence. Existe uma “sintonia idiossincrática” e tenho um caso de amor particular e profundo com essa canção. Quando ela começa, logo nos primeiros compassos, sempre me vem uma imagem na cabeça: uma alma flutuando, indo a um lugar elevado, encontrando a paz desejada. Três acordes e fim.

7. “Alucinação” (versão e composição: Belchior)

É impossível decifrar Belchior. Acho que é por isso que sou tão apaixonada por ele. Um gigante ainda subestimado. Posso afirmar que, depois de ouvi-lo, não sou a mesma pessoa. As suas canções, a sua filosofia e a sua poesia têm esta força: mudam a rota de nossas vidas. “Alucinação” é uma “Não existe amor em SP” dos anos 1970. Uma crônica das desigualdades, da diversidade dessa babilônia (lugar que tanto amamos e/ou detestamos) e que também nos define. 

8. “Mania de você” (versão e composição: Rita Lee e Roberto de Carvalho)

Alguém imagina esse mundo sem Rita Lee? Ele seria tão diferente. Seria outro mundo – e muito chato. Escolho “Mania de você” porque é uma canção safada, tarada, desbocada, deliciosa, cheia de liberdade sexual e muito à frente do seu tempo. Quando compus “Lambe-lambe” (canção que fala abertamente sobre a sexualidade feminina), estava dialogando com essa de Rita. Ela pavimentou a estrada para todas nós, abrindo floresta com facão.

9. “Claire de lune” (versão e composição: Claude Debussy)

Entro em transe toda vez que escuto essa música. Quando era criança, a minha mãe tinha o hábito de ouvir música clássica para varrer o chão do apartamento aos sábados e eu delirava com o pó dançando nos raios de luz que entravam pelas frestas. Com “Claire de lune”, sinto a minha alma saindo do corpo, como uma vertigem no espaço-tempo com significados ultradimensionais. Como aquele caleidoscópio de cristais coloridos que a gente gira no olho.

10. “20 anos blues” (versão: Elis Regina / composição: Sueli Costa)

Elis me ensinou que a vida é infinita, que o sentimento é tudo o que importa e que a loucura faz parte da gente de forma inata. Essa canção é diferente e me toca, em particular, porque estamos acostumados a ver a Elis catártica e visceral. No entanto, nessa faixa, ela é econômica e minimalista. Há uma sensualidade outra, não sei. E, ainda por cima, é um blues escrito por outra mulher, Sueli Costa. Tudo muito, muito sensual e atípico.

11. “Volver a los 17” (versão e composição: Violeta Parra)

Violeta é uma voz tão, tão, mas tão única e essa canção tem uma dor tão genuinamente latino-americana, que, para mim, é como se fosse o hino de um continente inteiro. Imagine escrever um hino de um continente! Isso tem uma força descomunal. Conseguir traduzir o sentimento de vários povos em uma só música é um feito transcendental. Quando ouvi Milton Nascimento e Mercedes Sosa cantando juntos, outro portal se abriu para além de tudo.

O Som que Fez o Som é uma série mensal, a ser publicada na primeira sexta-feira de cada mês, reunindo as influências de diferentes artistas.

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