por William Nunes de Santana

Em Visitação: Jornada à Natureza de Si Mesmo, a presença de Eduardo Colombo se mistura com a natureza através da sua dança. O trabalho, exibido na segunda edição do Festival Arte como Respiro, aqui no site do Itaú Cultural, faz parte da série de videoperformances Visitação, selecionado pelo edital Arte como Respiro de artes cênicas, em abril passado. Além do primeiro vídeo, a série ganha dois novos capítulos nos dias 4 de outubro e 4 de novembro, às 20h, no canal do YouTube do artista. A performance exibida em primeira mão no festival pode ser vista abaixo.

Eduardo Colombo é artista de teatro e dança, preparador corporal, diretor e pesquisador das artes performativas. Desde 2015, reside com o seu companheiro, o cantor e pesquisador Victor Kinjo, e o artista plástico e permacultor Bhagavan-David no espaço Samauma Residência Artística Rural, na zona rural de Mogi das Cruzes (SP), rodeado pela Mata Atlântica da Serra do Mar. Lá, eles desenvolvem pesquisas e criações na intersecção entre as artes e a ecologia. Foi nesse espaço que surgiu Visitação. “Eu vim para cá depois de finalizar o mestrado em artes da cena na Unicamp [Universidade Estadual de Campinas], em 2014. Meu desejo era o de me dedicar a uma pesquisa continuada, ampliando meu campo de estudo no teatro para um diálogo maior com outras linguagens do corpo (dança, canto, meditação, performance) e, sobretudo, em conexão com a natureza”, explica.

Com o tempo, o artista foi elaborando o que hoje é o Programa de Pesquisa Práticas do Presente, “cujo objetivo é a investigação de qualidades de presença a partir das artes do corpo, numa abordagem integradora do comportamento do corpo-voz, da mobilização da atenção e dos fluxos de energia”.

Visitação é o resultado desse processo de pesquisa contínuo. “Ele é o processo, mas também uma obra em si. Esse trabalho revela bastante da minha busca por uma intersecção entre a espontaneidade e a sua forma manifesta, que vai sendo lapidada aos poucos”, diz Colombo. “A partir da pesquisa, a obra vai me dizendo o que ela quer ser.”

Leia a entrevista completa a seguir.

Como Visitação surgiu? O trabalho foi feito para o edital Arte como Respiro?

A ideia de realizar uma série de videoperformances vem de algum tempo, como reverberação do meu processo de pesquisa. De modo geral, a concepção parte das relações entre corpo e natureza, criando imagens poéticas que possam estimular a imaginação e os sentidos do público, conduzindo-o a um estado de quietude e contemplação.

Sou apaixonado pelo processo de criação, de pesquisa, pelo apurar dessa escuta perceptiva. Trabalhando na experimentação do movimento, da voz e das práticas performativas, a filmagem dos ensaios é um modo de poder rever o que acontece. No dia a dia das práticas, vejo em alguns materiais registrados o potencial para o desdobramento como videoperformances ou como videodança, seja na descoberta de enquadramentos, seja na relação corpo-câmera, de imagens que surgem da relação com luz e sombra, com a sala de trabalho ou com o ambiente externo. E a espontaneidade dos eventos cotidianos acaba se mostrando como parte desse terreno fértil da criação.

O processo do primeiro vídeo da série é curioso nesse sentido. É uma versão original, com edição atualizada para o Festival Arte como Respiro, de um registro feito antes da pandemia. Naquela época, o Tiago Viudes Barboza, dramaturgo e parceiro de criação em alguns dos meus espetáculos anteriores, havia passado uns dias trabalhando conosco. Ele havia coletado uns galhos secos de bambu para fazermos um espantalho para a horta. A imaginação foi fluindo solta quando fomos dar vida ao corpo, aos braços, às mãos, pernas e à cabeça do espantalho. Ali já vi esse processo abrindo espaço em mim, dançando na horta com os galhos que eram braços, mãos, chapéus, máscaras etc.

No dia seguinte, levei os galhos que restaram para a sala de ensaio e passei alguns dias experimentando com eles – cada dia trabalhando a partir dos procedimentos da pesquisa, estudos de movimento na relação com o espaço e os bambus, qualidades de movimento, canto etc.; atento às imagens que se criavam nesse ambiente novo (a sala vazia agora coabitada com os bambus). Naquela semana, deixei a câmera num mesmo local e enquadramento todos os dias. Fui observando esses registros, encantando-me em ver como a luz que entrava pelas janelas do espaço criava um contraste na relação com a câmera e fazia ver o meu corpo como uma sombra se movendo junto com os galhos de bambu.

Costumo trabalhar bastante o silêncio, uma escuta perceptiva e relacional aos sons da mata, do entorno, da sala e do meu próprio corpo, mas algumas das práticas são acompanhadas da música e do canto – ao vivo ou usando uma playlist. O procedimento que deu origem ao vídeo foi experimentando a canção “Song of the stars”, do Dead Can Dance. Após alguns dias de criação, coloquei-me a tarefa de dar o play na música, iniciar a ação com o bambu e sair do enquadramento da câmera somente quando a faixa se encerrasse. É uma música longa, com momentos diversos, de aproximadamente 12 minutos.

Foi um estudo de cena, de improvisação estruturada, a partir das células de movimento criadas nos dias anteriores, das relações com a luz natural que entra na sala, dos deslocamentos no espaço, da relação com os bambus e a câmera. E ao mesmo tempo um procedimento de síntese. E assim fiz. Depois, na edição, tendo como linha principal essa cena contínua, incluí fragmentos das filmagens dos outros dias.

O subtítulo do primeiro vídeo é Jornada à Natureza de Si Mesmo. Como essa ideia de introspecção dialoga com a presença da natureza?

Esse trecho, “Jornada à natureza de si mesmo”, é para mim a síntese do argumento da série de vídeos, uma linha que atravessa as três obras, e que dá também sentido a esse momento da minha pesquisa. Ela complementa o nome do projeto, Visitação, colaborando na concepção geral de que a arte é sempre um convite ao encontro com aquilo que somos, fomos e podemos ser: dançar é visitar a nós mesmos e nos abrir à visita daquilo que nos acontece, do que se presentifica instante a instante. É nos lançar a essa jornada na descoberta, a todo momento, de que somos natureza. O pássaro que canta, a brisa que passa, uma lembrança que aparece. É a natureza do presente. É a experimentação desse dentro-fora, sem divisão.

Existe ainda um sentido das artes performativas como caminho para a descoberta do que precisa ser dito, cantado, dançado, escutado e expressado por aquela pessoa naquele momento. E é também um convite ao público que assiste. Assistir no sentido de assistência, de dar suporte àquela ação da qual participo com olhar e sentidos. Enquanto eu assisto, como eu estou? O que se passa comigo? O que a obra me faz ver de mim?

Estamos vivendo um momento de muita informação e, por isso, olhar para si e para o próximo é sempre um desafio. Como você lida com isso?

Eu procuro me conectar com o meu coração. Procuro perceber o que sinto e o que penso, como uma testemunha do que vai se passando comigo. A perspectiva da testemunha tem sido importante para ampliar a consciência sobre os impulsos que tenho, o que sinto e o que penso, como eu ajo na relação comigo mesmo e com as pessoas. E como isso se manifesta no trabalho artístico. Ao menos para nós artistas, acredito que é uma atitude fundamental, dedicar-nos conscientemente a um movimento constante de autopercepção. A questão é o desafio diário.

Quais são as abordagens dos próximos vídeos da série?

As performances que dão origem aos próximos dois episódios da série acontecem cada uma em ambientes diferentes, em contato com a natureza da Mata Atlântica que nos envolve nos arredores da Samauma Residência Artística Rural. Uma colaboração com o Victor Kinjo estará presente na música original, com piano e elementos eletrônicos. Sigo experimentando o uso da luz natural e de suas nuances, mas incluo também elementos de iluminação artificial. O diálogo do corpo com o espaço e a relação com o bambu aparecem numa configuração diferente, mas seguindo a linha dramatúrgica que dá base e conecta todos os vídeos: a aparição de um ser que não se define em humano, bicho e planta, uma jornada poética e onírica, ao encontro da natureza de si mesmo.

O que o move a fazer arte?

A arte me move como processo de revelação do humano, uma revolução pelo sensível. Como um rito de conhecimento, transformação e celebração, na experiência da presença compartilhada com quem participa e troca, vive no encontro com o que sou naquele momento. Esse processo de encantamento em ser-estar vivo no mundo, aqui-agora, ao mesmo tempo receptivo e criativo, contemplando e permitindo ser passagem.

A arte me faz lembrar todos os dias de que sou parte de uma vida maior, plena de mistério, insondável em sua inteireza, e que, talvez justamente por assim ser, de tão curioso e aventureiro que sou, não consigo deixar de me lançar a essa aventura de buscar apreendê-la toda. A arte é como a fonte de uma água viva da qual eu bebo, agradeço e peço permissão, a todos os seres que vieram antes, agora e que virão depois, para dar sentido à existência.

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