por Isabella Candido da Silva

"Caminhar nos territórios de cegueira tem me permitido conhecer o mundo pela sola dos pés. Evocar as procissões, a caminhada do coral d’um corpo só, é um exercício de ruptura das verdades historicizadas, estilhaçando o sentido das permanências, dos processos de migração como desenraizamento histórico que precisa ser reflorestado na existência do agora.”

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Vestido branco, cachos soltos e os pés tocando a terra. Nesse andor, ela caminha pelas ruas do Ceará em procissão. Coberta inteira por água, conecta-se e revive suas raízes, finalizando o ritual. Na obra audiovisual Procissão para os Corpos que Não Morreram, a artista Maria Claudineide Macedo revisita uma parte de sua história em conexão com aspectos históricos do estado do Ceará e rememora uma migração que ocorreu – e ainda ocorre – do Nordeste para o Sudeste.

Licenciada em artes visuais pela Universidade Regional do Cariri (Urca), a artista e educadora é uma das contempladas no edital de emergência do Itaú Cultural (IC) voltado para as artes visuais. Sua obra, para além de evocar a própria história, faz uma reflexão acerca dos aspectos que marcam a vida, o desenraizamento e a existência nesse território. “Procissão para os Corpos que Não Morreram é uma retomada geográfica, histórica e espiritual de enraizamento dos corpos violentados pela promessa de riqueza que mina a nossa possibilidade de existir num tempo outro”, explica. Em entrevista concedida a este site, Maria Claudineide contou um pouco de sua vida e obra.

Maria em Procissão para os Corpos que Não Morreram (imagem: Wandeállyson Landim)

Como se deu o processo criativo do seu trabalho audiovisual Procissão para os Corpos que Não Morreram?

A criação une questões acerca dos processos de retirada, as procissões que são uma tradição pulsante aqui em Juazeiro do Norte (CE), que realizávamos mensalmente quando eu era criança, e a vivência na zona de conforto e confronto rural. Inclusive o andor que carrego foi feito pelo meu pai, Expedito Macêdo. Algumas memórias foram contadas pela minha mãe, Maria Laêide, e minha irmã Maria Beatriz me ajudou no percurso da gravação. Uma amiga, Jaque Rodrigues, emprestou a câmera, e dois amigos (Wandeállyson Landim e Francisco Luiz) emprestaram seus olhares e suporte técnico para a captação e a edição das imagens. São informações importantes para a desglamurização do entendimento do que é ser artista. Do lado de cá, o “ateliê” é o mundo, e não tem parede.

Ressignifico esses processos e os desloco para o entendimento do caminho de cura do avesso, uma volta para casa num processo de migração inverso aos males da urbe, entendendo que é esse chão que me alimenta. Onde aprendi a existir na resiliência e na resistência do umbuzeiro, e a sabedoria de armazenar vida em meio à estiagem, assim como a caatinga.

Qual foi seu primeiro contato com a arte? Por que decidiu cursar artes visuais?

Inicio no mesmo chão de onde brotei, onde o exercício de criar se dava através do desenho na terra, da composição de folhas, e da modelagem do barro no açude. A minha primeira linguagem é a do fazer cotidiano. Em 2008, minha família migrou da zona rural, distrito de Lavras da Mangabeira (CE), para a zona urbana de Juazeiro do Norte, em busca da promessa de vida que na verdade mina a perspectiva de futuro. Esse foi um processo de retirada para a zona urbana, foi um desenraizamento bastante violento. Em 2015, migramos de volta para a zona rural e, como aprendi recentemente, estou no processo de reflorestamento de mim, de nós. O mundo daqui tem sido epistemologia, tecnologia e miolo para minha criação.

A minha relação com o desenho, junto com os desejos de uma inventora da mata, me levou a cursar licenciatura em artes visuais na Universidade Regional do Cariri, o que foi fundamentalmente transgressor e violento para as coreografias do saber, do sentir e do fazer. O desenho foi grafando no tempo os caminhos que seguiria. Para além de artista, descubro-me educadora, e essas duas práticas têm dado rigidez e malemolência à armadura estrutural do meu corpo.

É possível dizer quanto o vídeo em questão põe em pauta a ancestralidade?

Pensando em aplicações do “quanto”, talvez eu saiba quantificar ou comparar essa aparição em termos amplos. Mas honrar e reconhecer minha ancestralidade viva e a que não habita fisicamente este mundo tem sido fundamental para a sustentação da minha existência, e como consequência à mobilização do meu entorno. Isso se apresenta quando carrego no andor a terra vermelha junto com o adubo que usamos para plantar, sendo esta a única possibilidade real de prosperidade para a minha travessia.

Seguir grafando o desenho dos pés no chão de terra vermelha a dança-ritual da volta para casa para existir num outro tempo, no qual as almas da barragem possam enfim descansar na correnteza misteriosa do sangrador. Vivenciar e experienciar os saberes da mata, da terra e dos açudes que as gerações da minha família habitam, e que têm nos alimentado. É esse retorno para casa, para esses saberes, que propicia o descanso dos que se foram e dignifica os que permanecem vivos, mas invisíveis. Reconhecer onde a fuga é estratégia de vida e onde é manutenção da precariedade.

Qual é a relação do vídeo com o período de isolamento social?

Gravei esse trabalho em abril. Na ocasião revisitei meu caderno de projetos em que costumo desenhar e escrever proposições para ir alimentando até tomar corpo. A ideia inicial havia sido escrita no começo de 2019, e inicialmente seria realizada com muitas pessoas em procissão. Acredito que refazer a ideia me deu mais lucidez em relação a esse caminho de volta para casa, para a terra.

Temos visto que, entre todas as desgraças que vêm ocorrendo durante este período (e que já aconteciam antes para aqueles grupos entendidos como a sub-humanidade), também temos sido alertados para a necessidade de reflexão sobre as práticas de vida “civilizada” e os adventos da modernidade. Sobre a nossa desconexão com a terra e os desastres que surgem em decorrência dos processos de destruição humana.

Esse trabalho também acontece pelo viés da cura e da reconexão com a terra, age pelo processo de retirada inverso do que foi destinado para a população rural. Evoca a necessidade de desaprendermos a violência urbana, para nos conectarmos com a natureza, com a sabedoria da terra que tem nos alimentado de inúmeras formas.

Como atenta o líder indígena Ailton Krenak, nós estamos colados no corpo da terra. Se a natureza morre, nós morremos também.

Em termos de projeto, o que você tem pensado para o futuro?

Tenho tentado dilatar o tempo para conseguir caminhar e crescer no tempo das plantas. Isso tem me dado um respiro para caminhar descalça e devagar sobre a terra vermelha. Tenho coreografado estratégias de dar continuidade a muitas coisas distintas, mas que se retroalimentam, como continuar a formação acadêmica, tocar percussão, aumentar o tamanho da roça junto com meu pai e minha mãe, e tudo isso se soma à criação artística.

Mas tenho trabalhado num projeto intitulado Língua Ferina: Artista Retirante, e a Fertilização da Imagem, no qual venho pesquisando mais profundamente alguns aspectos historiográficos, unindo-os aos saberes e às práticas ancestrais e à zona rural como campos de investigação para a elaboração de visualidades que contraponham a lógica colonial historiográfica, estabelecendo outras centralidades existentes para não morrer no seco do asfalto. O trabalho aprovado neste edital também compõe esse projeto.

Para além das coisas que desenvolvo no campo individual, integro cinco coletivos artísticos no Cariri, nas linguagens das artes visuais, de teatro, música, performance e arte-educação, nos quais temos desenvolvido ações e projetos que fomentem uma circularidade entre artistas da região, além de desenvolver, pesquisar e criar a partir dos conhecimentos gestados aqui, a exemplo dos mestres e das mestras da cultura.

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