por William Nunes

Ouvir o duo Troá é perceber, a cada música, diversas camadas e referências sonoras: do rock ao jazz, do blues ao R&B, além da influência de artistas brasileiros como Jards Macalé e Letrux. Tudo construído principalmente a partir da sonoridade de três instrumentos: o baixo e o teclado de Carolina Mathias e a bateria de Manuella Terra. Completam essa mistura as letras escritas quase como crônicas de cotidiano e as melodias vocais de Carolina.

Com dois álbuns, Eu não morreria sem dizer (2019) e Miolo (2018), e os recentes singles “Me fudi” e “Geleia”, Troá se prepara para lançar um novo trabalho em 2022.

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Carolina e Manuella começaram a tocar ainda na infância e desenvolveram suas técnicas com estudos e na prática, fazendo parte da cena musical do Rio de Janeiro ao longo dos últimos anos. Na entrevista abaixo elas ressaltam a presença cada vez mais forte de mulheres instrumentistas:

“Uma mulher instrumentista que cria o que toca e que quebra os estereótipos de gênero de instrumento está rompendo com tudo que disseram que ela não podia ser, dando a cara a tapa e sendo sujeito da própria criação artística”.

É impossível não lembrar da história transgressora de Chiquinha Gonzaga (1847-1935) – contada na 51ª edição da Ocupação Itaú Cultural – ou de nomes como a pianista Maria Teresa Madeira, a baixista Ana Karina Sebastião e a baterista Mariá Portugal, uma pequena lista que claramente não dá conta de mencionar as tantas musicistas e instrumentistas que quebram barreiras e estereótipos na música brasileira.

Ao final da entrevista, o duo monta uma playlist comentada com algumas de suas referências.

As musicistas estão  no fundo de uma sala cor de rosa, uma carrega a outra nas costas. Ao lado delas está uma lâmpada em formato de globo que é a única fonte de luz do espaço, que de resto fica na penumbra. No primeiro plano da imagem, do lado esquerdo está uma bateria e do lado direito um piano.
A dupla Troá (imagem: Gabriel Castilho)

Podem falar um pouco da formação e da trajetória musical de vocês? 

Carolina: Comecei a tocar piano aos 8 anos, na escolinha de música; fazia show de fim de ano, essas coisas. Lá conheci as pessoas com as quais formei minha primeira banda. Comecei a cantar pela vontade de me acompanhar, depois vieram o violão, o baixo e, na adolescência, o saxofone. Hoje sou licencianda no curso de música da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (Unirio). A partir da Troá, eu me descobri compositora, arranjadora, produtora e até cantora. Muito do que faço hoje em outras áreas veio da liberdade criativa que sempre tive na banda.

Manuella: Aprendi as primeiras levadas na bateria aos 12 anos, com o meu pai, e também muito influenciada pelo meu irmão. Aos 15 entrei para uma banda dos meninos do colégio e, logo depois, formei outro projeto. Foi ensaiando e tocando com as duas bandas ao mesmo tempo por quatro anos que eu realmente aprendi e absorvi a essência do instrumento. E nunca mais larguei a imersão intensa que é ser musicista. Hoje sou um acúmulo de manias e referências, e construo as coisas mais genuínas na Troá.

Como vocês começaram a tocar juntas? E como formaram a Troá?

Nós duas tocamos há mais de dez anos e tivemos algumas bandas em comum na panelinha tijucana de grupos adolescentes em 2010. Formamos nossa primeira banda juntas em 2011 e, ao longo dos anos, essa relação profissional foi se reinventando, com bandas acabando e outras começando. Em 2015, praticamente todos os projetos em que tocávamos acabaram, mas tínhamos a certeza de que não poderíamos parar por ali. Então, nós nos juntamos na primeira formação da Troá, que era um trio e que foi se desenvolvendo até chegar à configuração que temos hoje.

Queria falar sobre a construção da sonoridade de vocês. Como ela se desenvolveu? É muito interessante esse ponto de um duo criar em cima de três sons – bateria, teclado e baixo. 

Sempre tivemos referências muito fortes relacionadas a bateria e baixo, e o teclado é a alma da coisa. Sinto que, com pequenos passos de coragem, fomos entendendo que o que realmente queríamos era uma música “groovada” e visceral ao mesmo tempo, que não precisa de outros elementos vistos como essenciais, mas que na verdade só travavam nossa criação. Quando admitimos para nós mesmas que o que mais curtíamos era essa sonoridade construída agora, encontramos o que é a Troá. Por muitos anos, ficamos numa busca incessante de referências, refletindo sempre sobre o que faltava, mas chegou um momento em que paramos, olhamos para dentro e vimos tudo que já somos e que queremos externar. 

Quais são as referências mais presentes no processo criativo da Troá? 

Pegamos muitas referências e agora estamos no processo de olhar para dentro e entender como elas nos tocaram. O que mais tem nos inspirado ultimamente são Thundercat, Remi Wolf (uma produtora e compositora absurda da Califórnia), Seu Jorge, Jards Macalé, Boogarins, Silk Sonic, Letrux, Billie Eilish, Mac Miller, Joca e Unknown Mortal Orchestra. 

Vocês também atuam, tocando ou produzindo, com outros músicos em projetos diferentes, e a colaboração é uma característica marcante desta cena atual. Como isso agrega quando vocês voltam novamente as atenções para a Troá?

Acho que acabamos trazendo um pedacinho de cada artista com que tocamos e produzimos. Uma das coisas que mais curtimos nesse processo é poder enxergar com a lente do outro. Estar numa posição criativa diferente faz com que, quando voltamos para a Troá, tenhamos uma certeza muito maior das escolhas que queremos fazer e dos caminhos que queremos trilhar. O mais divertido é quando pegamos emprestado de outras artistas um timbre, uma expressão ou uma maneira de organizar a produção. Para mim esse é o auge da beleza da colaboração; admiramos muito as pessoas com as quais trabalhamos. 

Vocês comentaram, em uma entrevista, que "existir como mulheres instrumentistas é uma decisão política e individual". Por quê?

O lugar da mulher instrumentista tem sido cada vez mais discutido no nosso meio. O movimento tem crescido no sentido de empregar e confiar. Dar foco a essas mulheres tem sido uma grande força. Nós afirmamos que existir como mulheres instrumentistas é uma decisão política porque, se dependesse do mundo, não ocuparíamos o espaço que ocupamos. Uma mulher instrumentista que cria o que toca e que quebra os estereótipos de gênero de instrumento está rompendo com tudo que disseram que ela não podia ser, dando a cara a tapa e sendo sujeito da própria criação artística.

A mulher intérprete e/ou cantora incomoda menos porque é vista como alguém que reproduz, que tem um “dom” e não uma técnica voltada para isso – é óbvio que isso é uma mentira e uma ignorância, mas é o modo como o mercado se estruturou por muito tempo. Viemos de tempos piores, mas acredito que ainda tem muita água para rolar e transformar esse panorama. 

Analisando o momento atual das mulheres na música (instrumentistas, cantoras e produtoras, entre outras funções), o que vocês consideram que já progrediu e o que ainda precisa mudar?

Vemos muito mais mulheres tendo oportunidade de trabalho, espaços voltados para essas criadoras e um entendimento do mercado de que a lógica enferrujada do passado não funciona mais. Ver tudo isso acontecendo é um fôlego muito grande. O desafio agora é ultrapassar o ideal de representatividade, que muitas vezes é “tokenista” e usa mulheres como símbolos, não como agentes.

A mudança no mercado precisa ser estrutural e um exemplo claro de que isso não tem acontecido é o seguinte: muitas vezes, em videoclipes, publicidades ou programas de TV, vemos mulheres instrumentistas em ação como símbolos, mas, se você buscar a ficha técnica desses produtos, quem grava o fonograma, constrói as linhas, mixa e masteriza ainda são os homens. Isso tem me incomodado cada vez mais. As instrumentistas não podem ser fantoches de um produto cultural que não foi criado por elas. Precisamos tomar decisões criativas e estruturais e ter voz, não só uma imagem.

Qual é a importância e o impacto de uma rede de apoio de mulheres no mundo na música?

É essencial. Se existe uma rede de apoio de mulheres, conseguimos fazer a roda girar com muito mais impacto porque somos centenas nos movimentando para que anos de apagamento e exclusão acabem. Acredito muito na criação entre mulheres como um lugar de maior conforto e desenvolvimento, no qual existe espaço e tempo para criar e se descobrir. 

Depois dos singles "Me fudi" e "Geleia", quais novidades vocês estão preparando?

No ano que vem vamos lançar nosso próximo álbum, no primeiro semestre, com participações de Letrux, Joca e Duda Brack. Para aquecer essa chegada, vamos lançar ainda dois singles, que mostram outras vertentes do disco. Essas músicas também vêm com clipes, sempre naquele esquema de colocar a mão na massa e construir do zero uma cena que um dia foi um sonho na nossa cabeça, mas que se torna audiovisual. 

Para terminar, quais novos artistas da música brasileira vocês recomendam?

Somos suspeitas para falar, mas temos curtido muito o Joca. É um dos caras que, para nós, vai fazer história no Brasil. Temos ouvido bastante a Slipmami, que tá lançando uns trabalhos muito interessantes – e nos amarramos no jeito que ela construiu o seu perfil no TikTok. Somos muito fãs da Luciane Dom, sempre com um trabalho profundo e interessantíssimo de todas as formas, e também ouvimos e curtimos muito Pluma. Imaginamos os palcos que queremos dividir com todos eles no futuro. 

Imagem colorida do duo musical Troá, formado por Manuella Terra e Carolina Mathias. As duas são mulheres jovens, de cor branca. Posam lado a lado para a foto, com Carolina um pouco à frente de Manuella.
Manuella Terra e Carolina Mathias (imagem: Gabriel Castinho)

O som que fez o som de Troá

1. “Them changes”, Thundercat
O Thundercat pensa o baixo de uma maneira tão diferenciada que é inevitável ser uma referência muito presente para nós. Ele é compositor, faz melodias vocais lindas e os baixos são quase um desafio de tocar; são lindos e essenciais para a identidade dele.

2. “Soluços”, Jards Macalé
Nessa música nós vemos a explosão e a síntese ao mesmo tempo. “Quando você me encontrar / não fale comigo / não olhe para mim / eu posso chorar” é uma frase que significa muito e que é repetida à exaustão, de tão forte e sintética. Além da referência instrumental, Jards é um dos compositores brasileiros mais sombrios e verdadeiros.

3. “I put a spell on you”, Nina Simone
Nina sempre foi uma referência muito forte para mim no piano, por todos os motivos mais do que claros. Mas acho que, nessa música, ela determina o próprio destino com tanta força e, ao mesmo tempo, vulnerabilidade que me mostra muito do que eu quero ser como instrumentista e intérprete.

4. “Um dia útil”, Maurício Pereira e Daniel Szafran
A música fala da vida do artista e só pelo tema já nos pega completamente. O jeito sincero, detalhado e cotidiano da letra tem muito a ver com o clima que buscamos para as músicas do novo disco. Além da temática, somos viciadas no piano que entra e desloca a contagem do tempo 1 da música – começamos a nos viciar nela a partir daí, pelo desafio.

5. “Piece of my heart”, Janis Joplin
Quando uma mulher começa a gostar de rock, acho que um movimento natural é buscar outras mulheres que vieram antes no gênero e abriram a porteira. Janis tem um peso histórico absurdo, mas, para além disso, sempre me tocou muito. O jeito que ela se coloca no mesmo lugar de força e vulnerabilidade me dá muito gás.

6. “Lá vem a morte, pt. 1”, Boogarins
Fritação chique e letra porrada dentro de uma melodia que se repete a vida inteira na cabeça. A sonoridade do Boogarins é um troço especial, porque eles empilham camadas de timbres incríveis e extremamente bem encaixados e mixados. Nossa admiração explodiu, aí “catamos” o Benke Ferraz, guitarrista da banda, para mixar e masterizar nosso próximo álbum.

7. “Shangrilá”, Rita Lee
Sinto que essa música é o lugar mais sincero e profundo da composição, quando compor é a única solução que existe para uma agonia maior do que se consegue trabalhar. A interpretação da Rita, a construção da letra e a solitude do arranjo são muito do que eu busco para as nossas músicas mais duras.

8. “Melhor do que parece”, O Terno
Foi um mantra para nós por meses. Acho que essa música fala muito bem do que é ser uma jovem com muitos desejos e medos, ela está sempre bamba entre uma coisa e outra. Amamos muito o arranjo e os crescendos, e a orquestração e o cânone do fim nos deixam de cara.

9. “Sound & color”, Alabama Shakes
Esse é o Rhodes [piano elétrico] das nossas vidas. O timbre mais lindo que eu já ouvi. A música é uma aula de dinâmica e preparação do ouvinte. Aprendemos muito com ela sobre baterias gostosas que combinam com teclados macios. A letra é absurda também.

10. “Photo ID”, Remi Wolf
Descobri a Remi há pouco tempo e ela tem sido um exemplo incrível de como fazer uma música muito pessoal, meio doidinha, mas que faz todo mundo querer se mexer junto. Dá um choque no corpo e você reage. Ela é sua própria produtora e tem mais ou menos a nossa idade, além de ter referências visuais maximalistas que eu amo demais.

11. “YYZ”, Rush
Essa música sempre nos conectou. Era sempre num lugar de brincadeira, com o riff em código Morse no início, mas depois fomos vendo que tem muito do virtuosismo que amamos demais. Uma vez vi um documentário do Rush em que eles diziam que, mesmo depois de anos, algumas músicas continuavam absurdamente difíceis de tocar perfeitamente. E, como sempre amamos ensaiar mais do que o necessário, percebemos que a graça de alguns dos nossos arranjos está no desafio que eles representam ao serem reproduzidos ao vivo.

12. “Changes”, Seu Jorge
Eu acho esse disco do Seu Jorge um deboche chique. O cara é tão absurdo que o Wes Anderson pediu que compusesse uma trilha sonora para um filme dele a partir de músicas do Bowie. Nesse disco todas as músicas são versões, e o jeito que ele construiu as letras em português me fez ver que se levar menos a sério e confiar no próprio taco, em vez de sentir medo, pode dar em lugares absurdamente mais incríveis. Essa música fala de mudanças, de dar tchau, de pegar o trem, de entender novos momentos e não remoer o passado. Ela me mostrou que posso ter coragem também e isso é muito do que quero passar para quem nos ouve.

13. “Casa de papelão”, Criolo
Somos piradas demais nesse arranjo: é meio teatral, sensível e tem conexão clara com a letra. “Prédios vão se erguer” é como se desse para ver. Essa música tem uma densidade bizarra, ao mesmo tempo que soa como um cansaço. É um arranjo curioso e dá vontade de desmembrar os elementos e ser amiga de cada um.

14. “Cais”, Milton Nascimento
“Invento o amor e sei a dor de me lançar.” Nessa música o grito de querer ser feliz e estar preso num emaranhado da sua própria complexidade arrebata de um jeito muito forte. Ela parece um grande quase, uma agonia em forma de música, que se reinventa quando entra o piano. Acho que a beleza dessa música é que o instrumental fala tanto quanto a letra. 

15. “I want you (she’s so heavy)”, The Beatles
A repetição da frase principal, a visceralidade e o crescente da dinâmica são tudo que queremos gritar mas não sabemos bem como. Essa música nos ensinou muito sobre como preparar as partes de um arranjo e quando liberar tudo.

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