por Heloísa Iaconis

Cinco faixas, sendo a quinta um cover de “Eu amo você”, canção eternizada na voz de Tim Maia: assim se fez o mais novo EP da banda Terno Rei, intitulado Acústico (2020). Divulgado em 2 de outubro nas plataformas de streaming, o trabalho traz ainda versões acústicas de quatro faixas do álbum Violeta (2019). O lançamento é resultado de um acaso deste ano já tão oscilante: o grupo quis aproveitar o estúdio onde realizou uma live para preparar um material inédito. Dessa oportunidade surgiu o EP agora apresentado ao público.

Para celebrar o projeto, Ale Sater (vocal e baixo), Bruno Paschoal (guitarra), Greg Vinha (guitarra e teclado) e Luis Cardoso (bateria) construíram uma playlist com músicas que são importantes na trajetória de cada um. Fora essa seleção (que vai de Jorge Ben Jor a Shakira), Ale e Bruno contam, na entrevista abaixo, sobre a composição do próximo disco e como o contexto pandêmico tem afetado esse processo.

Como ocorreu a formação do Terno Rei?

Bruno Paschoal: Morávamos em um bairro onde havia várias bandas. Eu, por exemplo, tinha uma de hardcore com Luis, o Lubas, baterista. Ale e Greg já eram nossos amigos. Depois de um tempo, esses grupos foram se desfazendo e quem estava a fim de trabalhar com música se reorganizou. No começo, Ale nem era vocalista: tentamos achar alguém para o vocal até que ele passou a cantar. Foi indo, indo, deixando o hardcore de lado e chegamos ao que somos hoje. Estamos há quase uma década juntos, sempre muito amigos.

O que vocês estavam planejando quando a pandemia chegou ao Brasil?

Bruno: Tínhamos terminado uma turnê no Sul do país. Estávamos com shows marcados no Brasil inteiro. No dia 13 de março, uma sexta-feira 13, veio o primeiro impacto: a indecisão se faríamos a apresentação prevista ou não. Acabamos tocando e foi a nossa despedida.

Ale Sater: Nesse período, havíamos também lançado uma dobradinha de singles com a banda Tuyo. Quanto aos shows, tivemos de cancelar todos, o que é doído.

Como foi a feitura do EP Acústico?

Bruno: O primeiro single, “São Paulo”, foi lançado em 4 de setembro. O EP completo sai em 2 de outubro. A verdade é que não tínhamos planejado esse trabalho. Caiu no nosso colo a chance de realizar uma live no estúdio onde gravamos Violeta. Aproveitamos para criar algo, pois sabíamos que por um bom tempo não conseguiríamos divulgar nada novo.

Além do EP, vocês estão trabalhando no quarto álbum, certo?

Bruno: Sim, estamos focados no disco novo. Temos nos encontrado algumas vezes no sítio do nosso técnico de som. A cada ida, fazemos todos os exames para termos certeza de que está todo mundo bem. Estamos tomando as devidas precauções. Lá, compomos de forma mais livre. No início, soltamos algumas ideias, algo embrionário, fluido. Agora, estamos deixando tudo mais com uma cara, selecionando o que vai ou não entrar no repertório. E ainda temos esse romance de banda: no momento da produção mesmo, fazemos tudo juntos.

Ale: A primeira vez que fomos para esse sítio foi uma troca enorme de ideias. Fazia semanas que não nos víamos. Já na última reunião, procuramos deixar metade do álbum produzido, pensando em uma coesão, na estética e no conceito.

O que tem sido mais difícil na quarentena?

Bruno: Para mim, o mais difícil é que, no começo da quarentena, achei que teria o disco pronto já em três meses. Porém, para criar, você precisa não só de tempo: a cabeça tem de estar boa – o que, no meio desta incerteza, fica complicado. De algum modo, direta ou indiretamente, acho que esta situação que vivemos estará refletida no álbum. Fomos afetados no nosso jeito de pensar e em nossos sentimentos.

Terno Rei | foto: Samuel Esteves

O que mais faz falta hoje?

Ale: Sinto bastante falta do palco. Uma das coisas mais legais de trabalhar com música é viver o palco, aquele momento em que você ouve tudo, sente toda a energia das pessoas. Isso é um combustível e tem feito falta para nós. Quando os shows puderem voltar, acredito que em um primeiro momento serão em casas menores, com menos gente. Talvez tenhamos de repetir as cidades, mais de uma apresentação por lugar. O contato com o público após o show deve mudar um pouco, ficar mais careta.

Gostaram de montar a playlist com músicas referenciais?

Bruno: Foi bacana mesmo. Eu tenho alternado uma postura nostálgica, me voltado para algumas faixas que não ouvia há anos. Isso aconteceu com Pies Descalzos (1995), de Shakira, um CD meio rock, excelente, o meu primeiro contato com música em espanhol. É dele uma das canções que coloquei na playlist.

Ale: O exercício de criar a lista foi interessante. Eu escolhi uma música de Jorge Ben Jor do Tábua de Esmeralda (1974), LP que me impacta muito. Gosto do jeito como ele escreve, um abstrato que não é abstrato e só. O modo como ele toca é único e “Errare humanum est”, em especial, é toda bonita para mim, uma folha em branco que acontece.

Confira as músicas escolhidas por cada integrante do Terno Rei:

Ale Sater

1. “Errare humanum est”, de Jorge Ben Jor

Forma e conteúdo incríveis. Acho que é a melhor música do disco brasileiro de que mais gosto. Os arranjos de violino, a maneira como o violão soa, a letra intrigante.

2. “Idiot wind”, de Bob Dylan

Uma das canções que mais tenho escutado e que mais me inspira. Acho bonitos os trejeitos de Dylan e a letra.

3. “Motion sickness”, Phoebe Bridges

Na semana em que montamos a lista, foi a música que mais ouvi.

4. “Colgate”, de Lupe de Lupe

Algo local, lindo, relativamente novo e que dialoga com o nosso trabalho.


Bruno Paschoal

5. “Pies descalzos, sueños blancos”, de Shakira 

Essa canção me lembra demais a minha infância. As minhas irmãs, mais velhas do que eu, tinham esse CD e eu ia para a escola ouvindo ele. Dá uma sensação boa quando ouço, além de gostar, genuinamente, da música. Aquele rockzinho clássico.

6. “Gypsy”, de Fleetwood Mac

Essa faixa era para fazer parte do álbum solo de Stevie Nicks, mas não tinha espaço e acabou ficando no disco da banda mesmo. Particularmente, acho que ficou bom, pois não gosto tanto do trabalho solo dela e, com certeza, o resultado teria sido outro. A música carrega um clima emotivo do qual gosto bastante.

7. “Passat dream”, de Pavement

Uma das bandas que mais ouvi na vida. Quando ainda escutava CDs no carro, ouvia quase todos os discos do grupo. Essa faixa, sobretudo, resume bem a banda: vocal e guitarras soltos, bateria meio travada. Trata-se de uma metáfora sobre um sujeito que gosta demais de um automóvel e busca conseguir adquiri-lo. Adoro temas assim, rotineiros.

8. “Karen revisited”, de Sonic Youth

Outra banda que está na minha enciclopédia básica. A música traz a história de uma jovem que abusou de drogas e se reencontrou com um amigo. Dias desses, voltei a ouvir o álbum inteiro, e essa canção é realmente especial.


Greg Vinha

9. “Weird fishes/Arpeggi”, de Radiohead

O álbum In Rainbows (2007), do Radiohead, marcou uma fase da minha vida. Lembro do dia em que foi lançado: eu já gostava deles, mas não os amava. Quando escutei o disco, fiquei impressionado com a qualidade, com os lugares perfeitos que eles alcançaram. Eu queria ouvir aquilo, mas até então ninguém tinha feito nada parecido. Desde a primeira audição, sabia que ia levar esse CD comigo para sempre. Na minha opinião, representa o auge da carreira do grupo e essa música foi a primeira que me conquistou, apesar de amar todas desse álbum, sem exceção.

10. “Same in the end”, de Sublime

Eu tinha 14 anos e perto de casa havia uma locadora onde se podia alugar CDs também, o que não era convencional na minha região. Eu passava horas lá, vendo as capas, imaginando como seria cada som. Alugava os que mais chamavam a minha atenção. Na arte desse álbum, Sublime (1996), há uma tatuagem gigante nas costas do vocalista, Bradley Nowell. Assim que coloquei o disco para tocar, um mundo novo se abriu para mim. “Same in the end” é uma das minhas preferidas, mas o trabalho todo é bom.

11. “Fishing the sky”, de The Appleseed Cast

Essa canção me faz recordar minha época emo, bem jovem. Até hoje, quando toco guitarra e componho, coloco essa música para tocar. Ao ouvir pela primeira vez, fiquei introspectivo, uma carga emocional e uma dorzinha de barriga. Faixas como essa me ensinaram a apreciar a solitude.

12. “Crumbling down”, de Polvo

Quando entrei na faculdade, conheci uma garota de Salvador (BA), virei amigo dela e depois namorado. Foi ela quem me mostrou essa música no meio de uma aula chata. A minha cabeça explodiu e passei a pesquisar mais bandas pesadas dos anos 1990.


Luis Cardoso

13. “True colors”, de Cindy Lauper

Os meus pais, certa vez, compraram um CD de “divas”, uma coletânea, e essa canção estava nele. Eu era criança e essa foi uma das primeiras faixas que me tocaram a ponto de me emocionar. Ouvi tanto essa música que ela marcou a minha infância.

14. “Here we go”, de Shelter

Em 1999, ganhei o CD Mantra (1995) de um amigo, que tinha ganhado do irmão mais velho e não gostou. Shelter foi a banda que me mostrou o punk, o hardcore. Com 12 anos, eu não conhecia nada além do que tocava nas rádios e ouvir um som como esse, esse tipo de energia, casava com a pré-adolescência que eu estava vivendo. Um pontapé para descobrir milhares de coisas novas.

15. “Lump”, de The Presidents of the United States of America

Em uma madrugada assistindo à MTV, conheci essa banda. Lembro de ter curtido essa música e na mesma semana fui a uma loja procurar o disco completo. Naquela época, você podia escolher um CD e ouvi-lo inteiro na loja. Foi o que eu fiz: coloquei aqueles fones gigantes e ouvi o disco de cabo a rabo. Foi o primeiro CD que comprei na minha vida.

16. “Search party”, de Wintersleep

É complicado quando você vira adulto e percebe que não é como você imaginava. A essa desilusão junta-se a amorosa e pronto. Uma frase marcante dessa música que fala assim: “Eu costumava sonhar com salvar o mundo, agora só sonho com as férias”. Na época, eu tinha um relacionamento a distância que não ia nada bem.

Veja também

O som que fez o som de Ana Cañas

A cantora e compositora comenta acerca de músicas que são, para ela, marcantes, além de falar sobre o que tem feito no período pandêmico