por Duanne Ribeiro

Quando Dona Lia do Coco foi convidada a subir em um palco pela primeira vez, ela “ficou doidinha”: “Queria tanto! Porque eu nunca tinha subido num palco”. Disseram para ela: “A senhora não tem vergonha? Pois tem muita gente”. “Tenho vergonha não”, garantiu. Na véspera do show, quase deu tudo errado: “Bateu uma dengue, eram dois lençóis em cima de mim, eu tremendo e com dor de cabeça”. Falaram que ela não iria conseguir, ela foi de todo jeito. Cantou. Voltou alegre, alegre! E, “daí pra cá”, resumiu ela, “tô levando a vida assim, cantando. Gostei da primeira vez e vou gostar até o fim, na minha morte”.

Mestra do coco – estilo de canto e dança de origens indígena e africana, típico do sertão e do agreste –, também versada em outras manifestações da cultura popular, Maria do Prazeres Benevidios Ramos, conhecida como Lia, morreu nesta terça, 17 de agosto, em Igarassu, município da Região Metropolitana de Recife (PE), com 73 anos. Nascida em Goiana, outra cidade pernambucana, ela, seguindo os passos do pai, começou na música aos 10 anos. Logo, quis e passou a compor os seus próprios cocos. Dançou ciranda, brincou cavalo-marinho, recolheu mariscos na beira do mar.

“Lia talvez seja o exemplo máximo do artista que conhece o seu lugar”, comenta para o Itaú Cultural (IC) o letrista, compositor, instrumentista e produtor Juliano Holanda. “A vida dela demonstra aquela antiga frase ‘Seja regional para ser universal’, sua vida comprova isso. É uma pessoa que viveu seu ambiente, mas sempre como um lugar de impulso para outras possibilidades. E, quando pegava impulso e pulava, mantinha os pés no chão.”

Juliano não conheceu a musicista pessoalmente, mas acompanhou seu trabalho. Natural de Goiana, embora criado em Olinda, ele ressalta como as vivências da Zona da Mata Norte, que abrange 19 municípios no Nordeste de Pernambuco, incluindo a cidade natal de ambos, estão presentes na obra de Lia: “O coco, de maneira geral, tem muitos sotaques, e os sotaques do coco são muito definidores de um tipo de paisagem: às vezes mais da praia, às vezes mais da mata, às vezes mais do centro urbano. Há muitos desenhos de coco diferentes. E ela é dessas artistas que materializam muito bem o seu ambiente, a sua região”.

Assim, continua Juliano, “a música que ela produziu certamente é o retrato da Mata Norte”. A música desse espaço, fala ele, expõe uma experiência muito particular de Brasil: “Como são cidades muito próximas do litoral e à beira de estradas, a Mata Norte é ponto de partida e ponto de chegada, recebia muitas pessoas de fora. Naquela região a cultura se amalgamou de um jeito muito específico. O traço indígena muito forte, os engenhos, a cultura afro, os terreiros, aquilo vai se compondo. É um lugar que resolve equações da cultura brasileira. E tudo isso está, e muito forte, na música de Lia do Coco. É um caldo muito bem cozinhado, de um jeito muito específico, numa panela muito específica”.

“O coco foi quem deu tudo na minha vida e ainda está me dando”, reafirmou a mestra, sublinhando: “Só que eu sou Lia desde antes de eu nascer, porque eu cantava no bucho da minha mãe. Sei cantar e inventar do meu juízo e dobrar o mundo para a frente”. Sabia também fazer festa, brincar, e não se cansava: “O sentimento que eu tenho quando vejo vocês dançando é não terminar, só [quando] o dia amanhecer. Se eu pudesse, vocês só saíam quando o dia amanhecesse, mas não sou eu só que brinco”. Não seria ela a deixar primeiro a roda, porque “garganta e pulmão dona Lia tem para amanhecer o dia!”.

Então cantemos com ela:

Eu vou-me embora daqui
com uma saudade tão grande...

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Ativo 000000 | Responsa

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