Por Letícia de Castro

Escondida por trás dos contêineres do Porto de Mucuripe, numa região conhecida como Cais do Porto, no litoral de Fortaleza (CE), está a comunidade do Serviluz. Com uma geografia privilegiada, composta de piscinas naturais e uma das melhores praias para surfe da cidade, o bairro é também um dos mais pobres da capital cearense, conhecido pela violência e pela carência de serviços básicos de infraestrutura.

Nascida e criada no Serviluz, Priscilla Alves de Sousa é uma entre muitas moradoras que criaram uma relação afetiva com a região, que ainda guarda características de uma pacata vila de pescadores em meio aos problemas estruturais. “Lembro de passar o dia inteiro tomando banho no mar, vendo os jogos de futebol na areia, alguns surfando, outros pescando. Arriscava pescar também, era só uma brincadeira de pegar peixes e depois devolver ao mar, brincava de surfe, pegava búzios, pulava ondas”, conta ela. “Cresci brincando nas ruas, as mesmas ruas que alagam nos períodos chuvosos, as mesmas ruas em que eu via as brigas de bêbados, casais, gangues.”

Agora, Priscilla pretende documentar a história dessa comunidade no projeto Acervo Digital do Serviluz, selecionado na mais recente edição do Rumos Itaú Cultural. Para isso, ela está fazendo uma pesquisa com moradores e coletivos artísticos da região para levantar o que já foi produzido sobre o bairro: fotos, vídeos, textos e pesquisas acadêmicas. Todo esse conteúdo será reunido no acervo, que será disponibilizado na internet. “Acredito que reunir em um site pelo menos boa parte do que já foi produzido facilita aos moradores a descoberta da sua própria história e fortalece os movimentos de permanência”, diz Priscilla.

Uma das fotografias tiradas para o projeto (imagem: Coletivo Fotográfico Ser-Ver-Luz)

A localização estratégica, com grande apelo turístico – um porto de carga (o Porto de Mucuripe), um píer petroleiro e uma intensa atividade de pesca –, transformou a região em alvo preferencial da especulação imobiliária. Há quase dez anos, em 2010, a área protagonizou uma disputa acirrada entre os governos estadual e municipal, empresários e moradores em torno de um projeto para a instalação de um estaleiro de 100 hectares na praia, o Promar Ceará. A falta de licença ambiental obrigou os investidores a transferir o projeto para o estado de Pernambuco.

Os confrontos envolvendo o Poder Público e a iniciativa privada sobre o destino da região fazem a população local viver sob a constante ameaça de remoção. Para garantir seu direito ao espaço e à moradia, a comunidade passou a se organizar em movimentos sociais e associações. “O Serviluz sempre foi ameaçado, seja para a construção de um estaleiro ou de um espaço de lazer para turistas. Em nenhum momento nosso patrimônio cultural, como o surfe e a pesca, é levado em consideração”, diz Priscilla, que participa ativamente de algumas dessas iniciativas, como o coletivo Servilost, a Associação de Moradores do Titanzinho, o Coletivo Audiovisual do Titanzinho e o Conselho Popular do Serviluz, que também apoiam o projeto. Além dessas organizações, Priscilla conta com o incentivo de artistas locais, como Paloma Pajarito e Eduarda Ribeiro.

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