por Ana Luiza Aguiar

“Era uma casa muito engraçada, não tinha teto, não tinha nada.” Essa primeira estrofe da música “A casa”, escrita por Vinicius de Moraes, parece descrever perfeitamente a Mouraria 53, um casarão no Centro Histórico de Salvador, na Bahia, em 2017. Dez anos antes, três irmãos compraram o imóvel, que estava quase em ruínas, com a ideia de reformá-lo para depois vender. A reforma nunca saiu do papel e o casarão continuou abandonado. Foi aí que um coletivo, inicialmente formado por estudantes de arquitetura, fez uma proposta ousada: eles queriam habitar e ocupar o espaço sem pagar aluguel, em troca de reformá-lo e devolvê-lo quatro anos depois em melhor estado. Foi o início de um experimento em arquitetura e habitação que se transformou também em uma investigação arquitetônica e artística.

Esse processo todo foi cuidadosamente registrado pelo fotógrafo Fernando Gomes, hoje um dos integrantes do coletivo Mouraria 53, e resultou no fotolivro cincotrês, que documenta a caminhada em meio ao caos da reforma experimental do casarão. Ali, construção e habitação acontecem simultaneamente, e os significados de habitação são múltiplos: uma clínica de psicologia se sobrepõe a festas, pequenos escritórios, moradas, ateliês, espaços de reunião, exposições, shows, um bar comunitário que vira cozinha vegana.

Um homem está andando no corredor de um casarão no Centro Histórico de Salvador, na Bahia. A casa abandona tem as paredes descascadas. O homem, de costas, está carregando materiais para a reforma.
Casarão abandonado ganha vida nova pelas mãos do coletivo Mouraria 53 (imagem: Fernando Gomes)

A obra inverte ordens da arquitetura tradicional, e a construção se inicia antes da existência de um projeto acabado. Lá dentro, carpinteiros, serralheiros e pedreiros se tornam professores de arquitetos e acadêmicos. E a reforma foi possível graças ao reúso de materiais que sobraram de mais de 70 reformas e demolições de Salvador.

O processo de edição do livro, uma parceria entre o coletivo e a Editora Gris, é apoiado pelo programa Rumos Itaú Cultural 2019-2020 e aconteceu durante a pandemia de forma remota, o que envolveu uma navegação nostálgica pelos milhares de arquivos acumulados entre 2017 e 2021. “O livro é um documento de sonhos e experiências e também um labirinto, em que nos perdemos em tempo e espaço, incerteza e trocas”, explica Lara Perl, coordenadora editorial do projeto. “A casa vira livro e o livro vira casa; ambos possibilitam o nosso encontro de diferenças, de sonhos individuais e delírios coletivos.”

Além de Lara, a publicação tem projeto gráfico de Rafa Moo e edição coletiva de Alan dos Anjos, Dário Sales, Fernando Gomes, Filipe Duarte, Iago Lobo, Lara Perl, Pedro Alban, Rafa Moo e Rodrigo Sena. A previsão de lançamento é janeiro de 2022.

Fotografia de um casarão abandonado, que passa por reformas. É possível ver entulho no chão, assim como baldes e outros materiais. Uma mulher está de pé, embaixo de que parece ser uma porta, trabalhando na reforma do espaço.
Coletivo Mouraria 53 é formado por estudantes de arquitetura (imagem: Fernando Gomes)

Histórico

A história da casa não é incomum no Centro de Salvador. Construída nas primeiras décadas do século XX, em 1938 foi doada à Santa Casa de Misericórdia. Em uma cidade cada vez menos religiosa, a instituição enfraqueceu e não conseguiu manter o imóvel habitável, e a casa passou por uma fase de abandono e ocupações informais, até que, em 2005, finalmente foi leiloada com outros “imóveis-problema”. Três irmãos, Marcus, Naia e Cláudio, adquiriram o imóvel. Um novo telhado foi feito, mas os planos para o casarão foram frustrados pelo colapso de outros negócios familiares. Sem possibilidades de investimento e sem valor de revenda, o imóvel foi abandonado em uma espécie de limbo – até a chegada do coletivo de jovens com suas ideias mirabolantes.

Duas pessoas negras estão discotecando na Casa Mouraria 53. A foto está com uma iluminação mais escura, apenas com um facho de luz iluminando o local. É possível ver uma mesa com notebook e outros equipamentos usados pelos DJs.
Espaço se tornou um lugar de habitação múltipla, com clínica de psicologia, festas, moradas, ateliês, espaços de exposições, shows e mais (imagem: Fernando Gomes)
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