por Ana Luiza Aguiar 

"- Nonada. Tiros que o senhor ouviu foram de briga de homem não, Deus esteja. Alvejei mira em árvores no quintal, no baixo do córrego." Assim começa um dos maiores clássicos da literatura brasileira, Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa. A fala é do personagem Riobaldo, jagunço aposentado que inicia um diálogo com um interlocutor ao qual se sente inferior. Riobaldo se vê como “só um sertanejo, muito pobre coitado”, definindo-se quase como uma coisa sem valor, de pouca importância, uma nonada. 

A artista plástica Juliana Pessoa explica que, mais do que apenas o nome do seu projeto, nonada é o conceito por trás de toda a obra. Para ela, é da aparente simplicidade do sertanejo que nasce sua sabedoria. “Riobaldo inicia dizendo que não é nada importante, exatamente porque ele bem sabe que vai tratar de coisas sérias e grandes. Assim, nonada guarda o paradoxo de ser simultaneamente algo e também o seu oposto”, filosofa.

Foi a partir desse conceito que Juliana decidiu que a série de desenhos a ser desenvolvidos no projeto Nonada – aprovado pelo programa Rumos Itaú Cultural 2017-2018 – seria feita à mão e com os materiais mais elementares, como grafite, carvão, argila, papel e lixa. “Diante da abundante proliferação de tecnologias de produção de imagem, o desenho guarda bem essa condição de nonada, de ser uma coisinha à toa, miserável, mas capaz de concentrar uma grande potência visual”, explica.

Nonada, na verdade, é um projeto em andamento e que já deu frutos. A primeira leva de desenhos foi exibida em uma exposição na Universidade Federal Fluminense (UFF), em 2018, e também no Complexo Cultural Teatro Deodoro, em Maceió (AL). As imagens foram inspiradas em fotografias que registraram o cangaço na virada do século XIX para o XX e, em especial, a Guerra de Canudos.

Para a próxima etapa, Juliana planeja uma residência artística no Parque Estadual de Canudos (BA), onde pretende explorar imageticamente outro clássico da literatura nacional que conta a história do massacre de Belo Monte – Os Sertões, de Euclides da Cunha. “Apesar de tudo que sofreram e principalmente por terem lutado valentemente até a morte, me impressiona a paixão daquele povo pobre, miserável, que se uniu em torno do sonho proposto por Antônio Conselheiro”, explica Juliana.

Durante a residência artística em Canudos, a artista estará acompanhada do orientador do projeto, o professor Fernando Pessoa, que vai realizar uma série de entrevistas com moradores da cidade, descendentes dos fundadores do primeiro arraial, além de professores e pesquisadores. O objetivo das entrevistas é traçar um paralelo entre o passado e o presente a partir das pessoas que guardam no próprio corpo o vigor do sangue e da memória desses homens e mulheres, que viveram e morreram em nome de Antônio Conselheiro, na defesa de seu Belo Monte.

*Juliana Pessoa é formada em artes plásticas, com mestrado em filosofia, pela Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), onde atualmente também dá aula. Sua pesquisa se concentra na área do desenho, explorando iconografias do cangaço, de Belo Monte e do candomblé. Na área da filosofia, ela se dedica ao estudo de Nietzsche e Heidegger; na área da literatura brasileira, tem foco no sertão e em religiões de matriz africana.

Em 2015, realizou a sua primeira exposição, Obá: entre Deuses e Homens, no Museu Capixaba do Negro, em Vitória (ES). Em 2016, fez parte da primeira edição do projeto Cá entre Nós, na OÁ Galeria, também nessa cidade. Já no ano seguinte, participou do curso Procedência e Propriedade, ministrado pelo professor Charles Watson. Em 2018, além das duas primeiras exposições do projeto Nonada, participou da III Semana Brasileira de Sófia, na Bulgária, e da mostra 20/20, no Museu Vale, em Vila Velha (ES).

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