por Amanda Rigamonti

Os convidados da vez para falar das músicas que fizeram parte de suas trajetórias e foram importantes na busca pela criação de um som próprio são os integrantes da banda Abacaxepa. Em entrevista, eles falam de seus processos de composição e rituais e comentam o momento atual – como o isolamento tem influenciado o grupo criativamente e as novas dinâmicas da banda. Eles ainda dão dicas do que fazer para chacoalhar o estresse e a ansiedade estando em casa.

Ao final da entrevista, uma lista de 15 canções que foram importantes na construção da identidade musical da banda. Eles comentam ainda como cada música fez parte de sua produção. Aproveite e salve a playlist que montamos com as dicas do grupo no Spotify.

Vocês são vários – sete, para ser mais específica. Podem me dizer quem é cada um dentro da banda?

B-onita
R-ainha
U-nica
N-adadora
A-tenciosa

R-ei
O-rgânico
D-iferente
R-isonho
I-nimigo do fim
G-ay
Ó-timo amigo

I-nteligente
V-alioso
A-migo verdadeiro
N-atural

C-arinhosa
A-trasada
R-ainha
O-limpica
L-inda

J-usto
U-nico
L-indo
I-ntuitivo
A-nfitrião
N-atural
O-cupado

S-audoso
H-iperativo
E-xcelente amigo
I-ndeciso
L-indo
O-riginal

V-aidoso
I-ntenso
N-adador
I-ncrivel
C-hef de cozinha
I-nquieto
U-nico
S-ensacional

Como é o processo de composição de vocês?
Gostamos de dizer que é um processo muito coletivo. Geralmente acontece quando alguém traz alguma primeira proposta – tanto de letra, quanto de harmonia, ou até de levada –, e a banda faz outras propostas em cima, tirando e colocando, até que chegamos a um denominador comum que agrade a todos. Também acontece de alguma coisa interessante surgir a partir de uma improvisação, ou às vezes de alguém chegar com uma música praticamente pronta e a banda só colocar elementos característicos, a fim de se apropriar melhor da obra.

Vocês têm algum ritual pré-palco? E pós?
Antes do show, costumamos nos juntar em roda para falar sobre o setlist, alinhar as intenções, transições, e nos lembrar de coisas que poderiam passar batido. Passamos de música em música, falamos rapidamente sobre elas, e depois nos falamos palavras de afeto, instaurando ainda mais uma conexão. Por fim, o momento Hebe Camargo se instaura e a gente dá selinho uns nos outros. Isso acontece desde sempre, eu acho.

Depois do show não temos exatamente um ritual, mas tentamos ajudar para que tudo seja tirado do palco o quanto antes, para logo ser guardado, para que possamos comentar sobre o show ou ir curtir o clima de festa.

“Olhos da Cidade” parece quase um prenúncio desse isolamento forçado. Como tem sido este momento para vocês? Ele tem movimentado ou inibido, criativamente falando?
Tem sido um momento de muitas fases. Não é sempre criativo, mas também não é sempre estéril. O desafio, além de nós nos mantermos ativos em relação à arte, é manter a banda interessante mesmo sem poder fazer shows. Nós fazemos lives, produzimos vídeos, nos incentivamos a conhecer coisas novas e tentamos manter uma frequência de post nas redes sociais. Tanto em momentos de inibição criativa, quanto em movimentação criativa a produtividade não é uma obrigação, principalmente agora.

A banda tem, neste momento, alguma dinâmica – como ensaios por vídeo?
Estamos nos encontrando, virtualmente, pelo menos uma vez por semana para darmos seguimento a alguns projetos que estavam em andamento antes desta quarentena, e que são possíveis de finalizar estando em isolamento, como o clipe de “Picadinho”, que saiu em junho. Também nos encontramos para discutir toda a nossa conjuntura atual e as maneiras como gostaríamos de continuar produzindo, sem pressões e cobranças, visto que todes foram pegues de surpresa.

Qual a melhor forma de desanuviar, chacoalhar o estresse ou a ansiedade, estando em casa?
Carol Cavesso  Colocar alguma música que te faça querer dançar. E apagar as luzes, e dançar! De qualquer jeito, por quanto tempo quiser.

Fernando Sheila Tentar manter a cabeça e o corpo ocupados. Fazer exercícios, trabalhar, tocar, ver filmes, cozinhar. Não parar é importante, assim como se cuidar e cuidar dos outros. “Saudade até que é bom” .

Rodrigo Mancusi  Tenho buscado seguir algumas pequenas rotinas que me ajudam a focar de fato nas coisas que estou fazendo. Tento estar a maior parte do tempo fora do celular, que é algo que sei que me consome muito e que acho extremamente tentador. Às vezes falho na minha tentativa, mas tem sido um objetivo presente deixá-lo de lado. Tenho lido bastante, visto alguns filmes e séries também, mas os livros têm sido uma grande companhia, além de ser algo que gosto e que me ajuda com o controle da ansiedade.

Vinicius Furquim  Tento fazer aquilo que me agrada, que me faria sentir melhor naquele momento. É muito fácil se deixar levar pela ansiedade e pelo desespero. Por isso tento me escutar ao máximo e respeitar minhas vontades. Estudar, cozinhar, consumir o máximo de arte dentro do nosso alcance e no cenário atual. A arte tem mantido minha sanidade mental. Seja na literatura, seja nos filmes, séries e álbuns que tanto amo.

Bruna Alimonda  Tenho um histórico com ansiedade, está sendo um grande desafio. Acabei tendo de me reconectar comigo mesma e aprender que às vezes a melhor coisa é parar um pouco tudo o que estou fazendo – a gente tende a querer ocupar demais a cabeça como se fosse essa uma grande solução – e respirar por alguns minutos. Pegar sol é algo muito bom, separo um tempinho da manhã para receber aquela dose de vitamina D na janela.

Acho que não tem muita regra, cada pessoa tem uma relação diferente com o corpo e com seus pensamentos. Me distanciar de ver notícias a toda hora, não me obrigar a ser uma pessoa criativa, entender que é comum se sentir anestesiado nestes momentos. E repetir como um mantra os privilégios e agradecer por ter saúde e conforto. Ah, e o violão tem sido meu maior companheiro.

Juliano – Tenho tentado estar presente comigo mesmo nestes tempos. Lendo bastante, praticando a cabeça e o corpo. Sempre ouvindo música, ou pensando em música. Tenho me interessado bastante por documentários de muitos assuntos e isso tem me feito ver as realidades que temos neste mundo.

Ivan  Me cobrar de estudar todo dia desde a manhã até o início da noite está sendo ótimo para mim. No começo eu estava bem desanimado, mas me botei na linha e estou me disciplinando quanto a isso, o que tem me ajudado bastante, seja tocando, seja escutando música.

(imagem: Amanda Rigamonti)

Confira as músicas indicadas pelo Abacaxepa:

1. “Mora na filosofia”, de Caetano Veloso
O álbum Transa, gravado em 1971 quase como um show ao vivo, é uma grande referência para nós. A organicidade e leveza, ao mesmo tempo com temas tão impactantes e importantes... Arranjo excepcional de Jards Macalé. Uma preciosidade sem tamanho! Gravado em Londres por conta do seu exílio, Caetano chamou seus amigos e fizeram a versão de “Mora na filosofia”. No começo do Abaca, a gente se identificou muito com tudo isso. Inclusive, tocamos uma versão dessa música desde o começo da banda. Pela descontração da gravação até parece que foi feita na sala da casa dele... Orgânico e único!

“Eu vou lhe dar a decisão / botei na balança / você não pesou / botei peneira e você não passou / mora na filosofia/ pra que rimar / amor e dor.” Essa música de certa forma nos faz lembrar que a arte existe pois a vida não basta.

2. “Panis et circenses”, de Os Mutantes
A psicodelia roqueira brasileira na mais pura seiva. Mutantes é inspiração para todes, mesmo que não saibam. Caetano e Gil, como sempre, transmutando a ideia de composição com letras que nos surpreendem sempre como se fosse a primeira vez. Os arranjos de Duprat e as vozes oníricas dos Mutantes em um perfeito caos ordenado. Questiona a ideia da tradição conservadora dos indivíduos, que infelizmente ainda nos assombra aqui no Brasil. Entre nós, é forte inspiração na hora de compor as nossas canções e no nosso jeito de ver o mundo. Para muito além disso, ela nos acompanha num pensamento coletivo sobre o modo como construímos a história do show de cada dia e como podemos nos alimentar dela mesma e não nos tornarmos as fatídicas “pessoas da sala de jantar”.

3. “Soluços”, de Jards Macalé
Jards por si só já oferece referências aos montes para nós. Não só como compositor, mas como produtor, como pessoa etc. “Soluços” traz a simplicidade da poesia como um tiro certo no que diz respeito ao que se quer dizer. Traz a noção de que não são necessários grandes rebuscamentos para se dizer o que quer. É uma escolha estética e poética. Provoca a interpretação, usando palavras tão cotidianas quanto os sentimentos colocados.

4. “Bárbaro”, de Trupe Chá de Boldo
Foi uma das primeiras músicas com a qual nos identificamos à primeira vista. Costumávamos tocar todas as vezes quando ainda tínhamos a formação acústica. Ela traz um senso de liberdade figurada no melhor dos humores no coração cego de apaixonado. Também é uma referência muito forte por ter dinâmicas diferentes ao longo da música (coisa que fazemos muito) e divisão de vozes divertidas juntamente com interpretações também divertidas.

5. “Mar morro”, de Trupe Chá de Boldo
Nós nos apaixonamos por essa música num momento de divisão de águas na história da banda. Ela marca o momento em que decidimos o rumo que iríamos tomar, a mensagem que iríamos passar, o lugar aonde queríamos chegar. Ela traz a sonoridade que o tempo teria se tivesse uma. De algo que passa, emociona e muitas vezes te faz querer ficar nele por mais tempo. É uma obra dos nossos queridos amigues da Trupe Chá de Boldo, grupo que nos inspira muito desde o começo e nos acompanha no cenário independente da música paulistana.

6. “Seu Waldir”, de Ave Sangria
Ave Sangria é um conjunto musical brasileiro de rock psicodélico, um dos principais expoentes da cena musical psicodélica pernambucana dos anos 1970. “Seu Waldir” faz parte do disco Ave Sangria, lançado em 1974, que nos inspirou tanto na música quanto nas atitudes.

“Seu Waldir, o senhor magoou meu coração... Seu Waldir, isso não se faz, não. Eu trago dentro do peito um coração apaixonado batendo pelo senhor”. Os versos românticos da música “Seu Waldir” foram considerados indevidos pelos censores do regime militar. A canção cantada pelo vocalista da banda Marco Polo foi reprovada por ter “teor homossexual”. Para nós, sempre foi muito importante nos posicionarmos como corpos políticos e falar sobre liberdades de nossas vontades. Essa música, além de incentivar nossa expressão como pessoas livres, nos proporcionou uma discussão sobre o rock brasileiro e suas diferentes facetas apresentadas nesse disco de rock psicodélico pernambucano.

7. “Jimmy, renda-se”, de Tom Zé
Experimentar. A partir disso, talvez, nascem-se as novidades. Novidades sonoras, novidades poéticas, novidades antigas. Copiar e colar, recortar, mastigar e cuspir, degustar. Como criar algo novo num mundo onde quase tudo já foi feito? Esse é o grande ensinamento de Tom Zé. Escutar qualquer música dele é provocar seu ouvido e imaginação para algo genuíno e ousado, sem muita preocupação com a perfeição, com o belo (apesar da sua beleza inegável), mas, sim, com a intenção de fincar uma lança no espectador e provocar a ideia de que tudo é infinito, até mesmo o que já se findou. “Jimmy, renda-se” é isto: polifonia, polirritmia, polipoesia. Essa música, em especial, tem um lugar em nosso coração, já tocamos diversas vezes em nossos shows e também com nossos amigues da Trupe Chá de Boldo.

8. “Língua”, de Caetano Veloso
Um dos principais tropicalistas, movimento que influenciou a pesquisa do Abaca, principalmente no começo da trajetória da banda, Caetano com seu amor e conhecimento pela língua portuguesa abriu infinitos caminhos e possibilidades para nós, principalmente no quesito composição de canções. “Poesia concreta, prosa caótica”. Escutar essa música pela primeira vez realmente é algo que muda tudo. Repetições, brincadeiras, paralelismos, citações, prosódias, paródias, tudo e mais um pouco nessa canção que é um verdadeiro tratado da língua portuguesa.

9. “Amor”, de Secos & Molhados
Lançada em 1973, foi de grande inspiração para nós. Eu me lembro bem de tocarmos no começo da banda, em 2016, no palco externo do Parlapatões, na Praça Roosevelt. E sempre tínhamos um resultado positivo com essa canção, mesmo numa versão simples e acústica. Parece que rolava uma identificação e empatia de quem ouvia, pela levada fluida que o baixo e a bateria trazem logo no começo e com a linda abertura de vozes em dó maior nos refrões. É incrível como apenas quatro versos numa canção de menos de três minutos podem dizer tanto sobre nossos sentimentos e vontades.

10. “Arrombou a festa”, de Rita Lee
Rita Lee é com certeza uma das nossas maiores inspirações e referências. Não é à toa que fizemos uma paródia de um trecho de “Mania de Você” em “Abacaxi Azedo”, primeira faixa do nosso álbum Caroço. “Arrombou a Festa” foi lançada em 1977. Já fizemos uma versão dela com uma pegada mais atual para apresentar em shows anteriores. Essa música traz um tom sarcástico, descontraído e divertido, cheio de diferentes interpretações, mudanças de levadas e camadas ao longo da canção, algo com que gostamos muito de trabalhar e que nos faz refletir sempre: o que de fato aconteceu e acontece com a música popular brasileira?

11. “Tião”, de Gudicarmas
Gudicarmas foi uma banda importante no início do Abaca. A Bruna (vocal) nos apresentou o primeiro e único álbum da banda, Dharma, logo que nos conhecemos e de primeira rolou uma paixão coletiva pelo trabalho. Gudicarmas é uma banda independente surgida em 2011 no Recife, cidade de Bruna, que encerrou os trabalhos em 2016, ano em que nascia o Abacaxepa. As composições do disco Dharma, assim como as nossas, permeiam assuntos como política, loucura, amor e cotidiano, além de ritmos variados, mas sempre com uma pitada de rock progressivo.

12. “Mergulho interior”, de Anelis Assumpção
A poesia de Anelis carrega um ar cotidiano que sempre nos inspirou e agradou. Essa é uma música de várias camadas e convenções, os timbres e linhas de teclado e guitarra são muito presentes e juntos complementam essa sonoridade latino-americanizada trazida nas percussões. Escolhemos essa faixa porque essas são características presentes em nosso trabalho e por Anelis ser uma das artistas contemporâneas, desta nossa mesma cena, que mais nos inspira, desde sua obra até seus posicionamentos.

13. “Jogo de calçada”, de Os Mutantes
Mutantes com certeza é uma das nossas principais influências. Temos essa interpretação na manga nos shows. “Jogo de Calçada” traz a veia rock'n'roll-canção que nos fascina, ela é dinâmica e elástica no seu instrumental e linda e malandra nos vocais. O conjunto é perfeito, tem tudo a ver com o jeito que procuramos compor.

14. “Primavera nos dentes”, de Secos & Molhados
Esse blues à la brasileira sempre foi admirado por todos nós. É o ponto de encontro dos diversos gostos da banda e a paixão pela música brasileira dos anos 1970. Solos improvisados longos, a atmosfera viajante que te leva a uma viagem espacial, a letra misteriosa, as vozes cortantes, tudo nela nos encanta e nos influencia em todos os detalhes. Pode-se perceber uma amostra dessa influência em “Olhos da Cidade”, faixa presente em nosso álbum Caroço.

15. “Sônia”, de Bolerinho
Bolerinho é uma banda formada por amigas nossas, Luisa Toller, Marina Bastos e Maria Beraldo. A banda tem uma pegada experimental e nos inspira muito por seus arranjos vocais.
“Sonia” é uma música que tem um aspecto de sonho, e o que chama bastante a atenção é a poética que faz referência à insônia e nos leva a imaginar a falta de sono por motivos concretos. Traz alguns fatores que contribuem para essa psicodelia, como a abertura de voz, que é algo que nos interessa muito. A letra é de Luisa, parceira que fez os arranjos vocais de algumas das nossas músicas. Marina, outra integrante da banda, também participou tocando flauta no nosso disco e consequentemente da nossa história.

O Som que Fez o Som passa a ser uma série mensal, que será publicada na primeira sexta-feira de cada mês, reunindo as influências de diferentes artistas.

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