por Amanda Rigamonti

Samuel Samuca, vocalista da big band paulistana Samuca e a Selva, conversou com o Itaú Cultural (IC) sobre a formação do grupo, contou algumas histórias da banda e falou de como tem sido o período de distanciamento social para eles – de que maneira essa realidade afeta a produtividade e o que o grupo tem feito.

Ele ainda compartilhou uma poesia que produziu quando criança – o formato foi seu canal de entrada para a música. Por fim, todos falaram qual é o seu lugar favorito em São Paulo: os dez conseguiram concordar e citar apenas um lugar!

Ao final da entrevista, uma lista de 11 canções que foram importantes na construção da identidade musical da grande banda – duas delas escolhidas por Samuel, o Samuca, e o restante uma por cada integrante da Selva. Eles comentam ainda como cada música fez parte de sua produção. Aproveite e salve a playlist que montamos com as dicas do grupo no Spotify.

Como se formou Samuca e a Selva?

Samuca e a Selva começa no meu encontro e minha amizade com o Rodolfo Lacerda, que hoje é nosso produtor-executivo. Nós nos conhecemos em 2012, nas noites de quinta-feira na Vila Mariana, bairro de São Paulo [SP] que tinha uma cena de cantautores universitários se formando. Todo mundo levava suas coisas para cantar nas rodas e eu levava as minhas, o “Rodox” as dele etc. Pouco a pouco passamos a escrever coisas juntos. Em paralelo, eu, que nessa época tinha uma banda de forró em Guaratinguetá [SP], minha cidade natal, já tinha na cabeça o projeto da Selva: uma banda grande e versátil, de sonoridade marcante para um repertório que fosse eclético, dançante, em que poderíamos experimentar multilinguagens e desaguar algumas pesquisas que eu já vinha fazendo.

Eu não conhecia muita gente da música em São Paulo e vivia enchendo o saco do Rodox para que me ajudasse a montar essa banda. Até que um belo dia ele me apresentou ao Victor Fão, nosso trombonista. Apresentei a ele o projeto, algumas canções, e ele topou vir junto e montar um time para esse projeto. Aí ele trouxe uma galera em que já confiava, quase todos vindos de bandas do ABC: de um lado o núcleo que já trabalhava junto havia anos no Ba-Boom – Allan, Kiko e Pipeta – e de outro a galera que tocava com ele na Nômade Orquestra – Fábio, Bio e, posteriormente, o Gui. Mais tarde entraram Lucas e Léo.

Resumindo a ópera, acho que a Selva é o produto do encontro desse cantor caipira que queria cantar e dançar livremente com toda a fertilidade e excelência musical dos meus irmãos do ABC, que me possibilitam e me dão confiança para isso. Deu liga logo no primeiro ensaio e nunca mais paramos de nos encontrar. Virou uma imensa amizade. Parece clichê, mas é um senso de família muito grande. O resto é história.

Samuca, você disse em entrevista ao Scream & Yell que sua história na música se inicia pelo contato com a poesia. Pode compartilhar algum poema desses escritos na infância ou algum favorito de outro autor?

Que pergunta legal! Por sorte estou passando o período de isolamento social na casa da minha mãe, em Guará, e ela tem uma caixa de “relíquias” com coisas marcantes e memórias minhas e do meu irmão. Aqui vão versos que escrevi em 1998, com 10 anos:

Seria eu feliz?

Não sei
Talvez sim.

Talvez não.
Pois se todos têm sentimentos

Acho que não tenho coração.

Seria eu feliz?

Se meu grito foi além da montanha

E sabe-se lá do que foi feito

Se de tristeza, alegria ou de manha

Mas veio do fundo do peito.

Seria eu feliz?

Talvez.

Posso me esforçar

Posso gritar

Posso chorar

Porque um dia

Eu sei

Todos irão me escutar.

Qual é o maior desafio de ter uma big band?

Acho que, para além da coisa de acertar todas as agendas e priorizar sempre tocar com a banda completa, a logística aparece como uma questão sensível para o nosso trabalho. Viajamos em 12 pessoas, entre músicos, produção e técnica, e isso por vezes acaba atrapalhando um pouco a circulação do nosso trabalho. Por outro lado, a gente já sabia disso desde o começo, e mesmo assim optamos por seguir fiéis à raiz do projeto e à potência sonora que tanto queríamos. Nós somos uma banda de apresentações ao vivo, dez músicos no palco é a nossa essência, e pouco a pouco vamos aumentando a percepção de valor sobre o nosso trabalho. É preciso paciência e persistência.

E uma história especial do grupo?

Eu contaria duas. A primeira é de 2017, quando fomos indicados ao Prêmio da Música Brasileira já no primeiro disco (Madurar, 2016, YbMusic). Imagina: a gente jamais esperava a indicação! A banda tinha acabado de se lançar oficialmente para o mundo, eu tinha pouquíssima experiência em estúdio e o disco, apesar de lançado pela Yb – que ouviu, gostou e apostou na gente –, foi todo autogerido, com todas as limitações que isso implica. Sem grana, sem tempo, mas com a ajuda fundamental de Marcos Maurício (produtor do álbum) e do Luis Lopes, do C4 Studio, que pegaram o projeto no colo e foram fundamentais para o sucesso da coisa. Era a primeira indicação a prêmio de todo mundo da banda. Consegue imaginar a nossa reação e qual foi a sensação que isso gerou no coletivo? O resultado disso é que: juntamos dinheiro, alugamos uma van e foi simplesmente toda a equipe para a cerimônia de premiação no [Theatro] Municipal do Rio de Janeiro. Não ganhamos o prêmio, mas a experiência daqueles 12 caras pisando naquele teatro recheado de estrelas da nossa música e ídolos nossos em cada canto foi impagável. A gente se olhava e pensava no que estava fazendo ali. Divertido relembrar.

A segunda foi em janeiro de 2018, quando, voltando de um show lindo e lotado no Sesc São José dos Campos [SP], fomos surpreendidos na estrada por quatro caras armados, que nos levaram mais de 30 mil reais em equipamentos. Detalhe: no dia seguinte tínhamos um show no Sesc Interlagos [SP]. E aí houve uma experiência de solidariedade que nos tocou. Primeiro de musicistas amigos e amigas que nos cederam instrumentos para que pudéssemos realizar o show de Interlagos, mesmo após o trauma. Dois dias depois os fãs e amigos da banda haviam aberto uma campanha de financiamento coletivo na internet para que pudéssemos adquirir nossos equipamentos de volta e seguir com nossos shows. Deu certo. Fizemos um show beneficente também com a participação de artistas amigos, como As Bahias e a Cozinha Mineira, Ekena e Coco de Oyá, e no fim conseguimos recuperar tudo. A gente deve muito a essa galera e não esquece disso jamais.

Como fica a criação durante o distanciamento social?

Eu me sinto bastante sensível nesses dias e tenho escrito muitas canções desde que o isolamento começou. Ao todo já são oito. E os meninos também têm produzido bastante coisa, entre novos temas para a Selva e composições para seus projetos paralelos. Para além disso, estamos tentando angariar recursos a fim de suprir algumas necessidades técnicas e seguir produzindo coisas novas, já que 2020 era um ano de lançamentos para a gente.

Vocês vinham ou vêm trabalhando em algo novo?

Sim. Como mencionei, 2020 era um ano em que nosso cronograma estava todo voltado para o lançamento de um novo álbum. Já havíamos lançado um single, “Passeando em Mim”, dias antes do Carnaval, e a estratégia previa a produção de mais alguns singles antes de desaguar em um álbum.

Com o distanciamento social, ficou muito difícil prosseguir da forma planejada e, diante de tantas incertezas, a primeira atitude foi interromper as atividades. No entanto, com as perspectivas não animadoras do avanço da pandemia e a consciência da necessidade de nos manter isolados, estamos nos organizando, mapeando a coisa e buscando recursos para retomar essa produção, mesmo que a distância. Essa busca por apoio se dá principalmente porque nossa principal fonte de renda, que eram os shows, foi interrompida. Mas estamos tentando lidar com a situação de forma calma e efetiva. Existem algumas conversas em andamento e, se tudo der certo, teremos novidades em breve.

Qual é o seu lugar favorito em São Paulo?

Resposta consensual da banda: são inúmeros lugares em São Paulo para chamar de favoritos, e achamos que nada mais justo para uma banda do que eleger um palco. Nesse quesito, são muitos os espaços icônicos em que tivemos o privilégio de nos apresentar e também viver histórias marcantes com o público: Auditório Ibirapuera, Sesc Pompeia, Pinheiros e Belenzinho, o CCSP [Centro Cultural São Paulo], entre outros.

Mas o Mundo Pensante tem um lugar especial na nossa vida. A gente deve muito a essa casa e construiu uma relação de parceria e intimidade muito grande com o pessoal de lá. Foi lá que nossa história começou e que nosso público se formou. De tempos em tempos, seguimos fazendo nossos shows lá, que na verdade são grandes bailes, e o clima é diferente, especial. A gente sente. O público também. Já virou uma grande tradição. Quem já foi sabe.

A banda Samuca e a Selva (imagem: Guilherme Froes)

Confira as músicas indicadas por Samuca e a Selva – Samuca selecionou duas canções, e os outros integrantes da Selva escolheram uma cada um:

1. "Water No Get Enemy", de Fela Kuti (indicação de Samuel Sholl)

Conhecer a obra de Fela Kuti, em 2010, foi das coisas mais potentes culturalmente que fiz na vida adulta. Suas músicas colaboraram diretamente na minha musicalização, politização e na construção dos meus valores. A porta de entrada foi "Zombie", que me chamou atenção, mas "Water No Get Enemy", posta na sequência, me emocionou profundamente à primeira audição. O tema marcante dos metais, aquele ritmo que eu não conhecia, a extensão das músicas que valorizavam a voz de cada instrumento, os instrumentistas e seus improvisos, a forma reta e potente com que aquele homem cantava aquelas palavras, os coros e, principalmente, o texto me atravessaram; embora não entendesse as partes em iorubá, entendia o inglês. Tudo ali me fascinou.

Por dias eu ouvia aquilo ao acordar e lembro que naquele ano criei uma tradição que se repete até hoje: todo dia 6 de dezembro, meu aniversário, essa é a primeira música que ouço. E ouço por dois motivos: para ser forte e sagaz como a água, que não discute e contorna todos os seus obstáculos, e para não esquecer da realidade que me cerca, pensando sempre para além do meu umbigo. Essa música influenciou muito na formação da Selva e também na nossa sonoridade.

2. "Let's Groove", de Earth Wind & Fire (indicação de Samuel Sholl)

"Let's Groove" foi minha primeira música favorita da vida. A música que eu dançava já na primeira infância. Ela me traz um turbilhão de emoções em termos de memória afetiva e me faz cantar e dançar até hoje. EW&F é a banda de que eu mais gosto e grande referência em termos de formação, sonoridade e experiência ao vivo para mim, o que, inevitavelmente, se reflete no trabalho de Samuca e a Selva.

3. “Nanã”, de Moacir Santos e Mário Telles (indicação de Bio Bonato)

Essa é uma das canções mais perfeitas que eu já conheci. Ela começa no ostinato bem pesado com arranjos graves – nota-se que Moacir tocava saxofone barítono, e acredito que justamente por isso o grave era bem presente nos arranjos dele – e vai se desenvolvendo até entrarem as vozes de Moacir Santos e Sheila Wilkinson, equilibrando-se entre o grave e o agudo juntamente com a flauta de Don Menza, costurando com muita beleza e astúcia entre as vozes e os arranjos de metais.

Os motivos rítmicos dessa música são tão surpreendentes quanto as ideias contrapontísticas dos sopros em relação às vozes. Perguntas e respostas o tempo todo. O solo de flauta transversal é maravilhoso, pois, enquanto ele está acontecendo, há um suporte de background de vozes e do naipe de metais dando um cenário para essa melodia maravilhosa e sutil da flauta.

4. “Always Shine”, de Robert Glasper (indicação de Lucas Brito Coimbra)

Uma das músicas que compõem o álbum Robert Glasper Experiment, “Always Shine” mistura jazz, hip-hop e pop. Um amigo me mostrou alguns anos atrás, e não só a música, mas também o disco foram divisores de águas na minha forma de pensar musicalmente, tocar, arranjar etc. Harmonia e solos refinados, misturados com malandragem.

5. “Som Africano”, de Martinho da Vila (indicação de Fabio Prior)

Quando criança, tive contato com o disco Origens, do Martinho da Vila. O disco por inteiro me fascinava! Tanto pela capa (feita por Elifas Andretto), que tinha um poder hipnótico com todas aquelas cores, quanto pelas histórias das músicas, que me faziam passear em outros mundos. “Som Africano” foi a música arrebatadora, ela trazia a magia e o mistério do desconhecido. O dialeto kimbundu soava longínquo e fantástico, unido ao som dos tambores e ao frenesi do ritmo que me transportava e impulsionava ao "batuque", me fazendo personagem daquele contexto. E até hoje minha vida é batucar.

6. “Burrice”, de Tom Zé (indicação de Allan Spirandelli)

Em meados de 2000, fui convidado por um amigo para uma peça de teatro do colégio chamada Defeito de Fabricação. A peça era um musical baseado no disco homônimo do Tom Zé, até então desconhecido por mim. Naquele tempo, eu estava envolvido em ativismo político e mergulhado na cena punk do ABC e, apesar de haver tantas bandas nacionais desse gênero, não tinha forte contato com a música brasileira.

Saí de lá encantado pelas letras, pela música, querendo saber quem era esse sujeito que tanto havia me tocado. Foi um caminho sem volta. Além do presente da curiosidade de conhecer a fundo a obra de Tom Zé, me fez olhar para outros tantos artistas incríveis da nossa música brasileira.

7. “Pacutiguibê Iaô”, de Marku Ribas (indicação de Guilherme Nakata)

A primeira vez que ouvi Marku foi uma explosão. A voz grave, e tão percussiva quanto um tambor, transporta você para um tempo-espaço fora daqui. Desde então sou devoto de sua obra. Infelizmente Marku é mais um grande artista da música brasileira que se foi sem seu devido reconhecimento. Escolhi essa música em especial porque a transa entre bateria e percussão é magnífica. Cada um em seu lugar, preenchendo os espaços do outro, formando uma massa rítmica quente, dançante, que muito me inspira nas composições na Selva.

8. “54-46 Was My Number”, de Toots and The Maytals (indicação de Kiko Bonato)

Quando ouvi essa música pela primeira vez, eu não era fã de reggae e não conhecia os diversos gêneros jamaicanos; ela me cativou pela sua atmosfera gospel e para cima, ouvi e arrepiei na hora, foi a deixa para entrar em um universo muito rico que é o da música jamaicana, saber da sua cronologia, compreender as suas células e o seu modo de produção, rico e popular.

9. “Nigel”, de Hepcat (indicação de Felippe Freire)

Como amante da música jamaicana, e principalmente do ska, a banda Hepcat é na minha opinião a banda fora da Jamaica que mais acrescentou ao som da ilha. “Nigel”, do álbum Right on Time, é uma música que sempre mexe comigo quando a escuto, porque tem a tensão das ruas da Jamaica dos anos 1960 e 1970. A linha de baixo é sisuda e cria esse clima tenso; por outro lado, os metais são tropicais e caribenhos, nos lembrando da praia, das lindas paisagens da Jamaica. Eles trazem também uma suavidade que contrapõe a parte tensa da música. No meio da música tem um “burru”, batida da música jamaicana com um solo de trompete; o diálogo da batida com o solo é como uma batalha das ruas da Jamaica de que a própria letra da música fala. Além de tudo, a música é dançante e instigante. Tive o prazer de ver a banda ao vivo duas vezes, e a experiência vai além de escutar no disco. É emocionante!

10. “Estamos Adorando Tokio”, de Karnak (indicação de Victor Fão)

Essa banda me influenciou e influencia muito até hoje, uma banda grande como a Selva, com arranjos lindos de metais, mistura todo tipo de música. Escolhi também por causa de um episódio em especial: quando eu tinha 11 anos, meus pais me levaram a um show deles, fiquei maluco e falei para o meu pai: "Quando eu crescer, quero fazer isso, tocar". Aí foi só pisar no palco pela primeira vez e descobrir que ali é meu lugar.

11. “Bluishmen”, de Moacir Santos (indicação de Léo Malagrino)

Da obra inteira do maestro Moacir Santos, que vale muito a pena ser estudada e revisitada, e que por isso mesmo é consagrada por tantos artistas, essa música representa bem a genialidade do maestro, a riqueza de contrastes, de timbres, e a escrita musical exímia de um artista que nos ensina, “apenas” por meio de sons dos instrumentos musicais, valores e simplicidade que estão presentes tanto na sua personalidade quanto na sua criação. Sua obra me inspirou tanto durante a minha graduação em música popular para compor quanto no mestrado em etnomusicologia, em que fui estudar os toques dos terreiros de candomblé.

O Som que Fez o Som é uma série mensal, a ser publicada na primeira sexta-feira de cada mês, reunindo as influências de diferentes artistas.

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