por William Nunes

Nos últimos anos, Goiás presenteou a cena indie e alternativa com artistas muito bem-recebidos por público e crítica: do já aclamado Boogarins até novos nomes, como Bruna Mendez e Brvnks. Quem não fica de fora da lista é Carne Doce, banda liderada por Salma Jô e Macloys Aquino, além de João Victor Santana, Aderson Maia e Fred Valle – este último, baterista recém-chegado ao grupo.

Em setembro passado, o quinteto lançou o disco de inéditas Interior e, mais recentemente, o registro ao vivo de seu show no Sesc Belenzinho, realizado em fevereiro passado – o único “show normal” feito em 2020, em tempos pré-pandemia. Lançar um novo trabalho neste ano incerto foi um ato de “continuarmos inspirados, motivados”, revela a cantora e compositora Salma.

Depois dos sucessos dos álbuns anteriores, Princesa (2016) e Tônus (2018), Interior traz um lado que não conhecíamos muito de Carne Doce: mais introspectivo, embora mais solar. O trabalho também estreita laços com a origem interiorana do grupo. Nesta entrevista, Salma Jô fala sobre o disco e como tem sido o período de distanciamento social.

Por fim, o guitarrista Macloys criou uma playlist especial de músicas que os inspiram neste momento – veja a lista comentada após a entrevista.

Quando ouvi Interior, ele me passou uma sensação de paz. Não sei dizer o motivo, mas foi o que senti. De onde vem esse “interior” retratado no álbum?

O que a gente guarda no interior, a confissão desses sentimentos interiores, o dedo na ferida interior... minhas letras, quase todas, têm esse aspecto. A isso nós juntamos a nossa percepção de que – depois de tentarmos compreender um certo rótulo de “rock goiano” – algo na nossa música realmente revelava nossa origem e nossa afinidade cultural com o imenso interior do país. Por isso, escolhemos o interior do pequi para a capa do álbum. Sua impressão de paz realmente reflete uma mudança de espírito dos outros discos que eram mais amargurados, mais sofridos, para esse, que é mais sereno, tranquilo e resiliente.

O que mais a banda buscou de diferente nesse álbum?

Além dessa diferença para um tom mais solar e mais sereno, nosso novo baterista trouxe mais ritmos e mais dinâmicas. Por isso, as músicas estão menos rock e mais suingadas.

Vocês têm rodado muitas cidades brasileiras e tocado em festivais. Como isso se reflete na composição do grupo?

De várias maneiras. Primeiro, dessa forma mais básica de ampliar nossa compreensão do Brasil, de descobrir umas coisas e confirmar outras. A experiência de fazer shows em vários palcos e para públicos com comportamentos e reações diferentes também ensina muito. No caso dos festivais, muitas vezes é a primeira oportunidade de uma banda pequena tocar com estrutura de palco, com técnicos de som e de luz e roadies. Para bandas que começam tocando em inferninhos, como nós, essa diferença de arquitetura e de estrutura impacta muito, e uma banda média precisa saber dominar os dois espaços, saber emocionar nos dois espaços, com a mesma música. Também em relação aos festivais, nós só pudemos tocar em certas cidades e estados e financiar algumas turnês por causa desse modelo. Para a nossa cena, é às vezes a única maneira de vencer os custos da logística de viajar no Brasil.

Tônus, de 2018, foi um grande sucesso, mas vocês parecem não querer descanso. Quando começou o trabalho no novo disco?

Nós seguimos uma lógica do mercado da cena independente que é baseada nos shows. Esse período de dois anos é o que conseguimos trabalhar um álbum nacionalmente, por isso, nossos álbuns foram todos lançados assim. Geralmente, as músicas do próximo trabalho começam a surgir um ano antes da gravação. Mas, num cenário como o que estamos agora, sem shows, parece que será necessário lançar mais músicas num período mais curto, ou de forma mais frequente. Estamos considerando isso.

Vocês pensaram em segurar o disco e lançar em outro momento? Por que lançá-lo agora?

Lançamos agora porque não fez sentido outra estratégia. Entendo os artistas que estão segurando seus trabalhos para um momento melhor, mas além de custar caro esperar, na pandemia ficou impossível determinar qual será esse momento melhor, se virá uma nova onda ou não, se a retomada será agora ou não. Essa ansiedade é péssima para planejar qualquer coisa. Nós precisávamos desse lançamento para continuarmos inspirados, motivados.

Como tem sido esse período de quarentena para a banda?

Neste momento, estamos muito ansiosos por uma retomada na área artística. Precisamos e queremos trabalhar, fazer shows, viajar, retomar nossa rotina e o modo como aprendemos a trabalhar nestes últimos anos. Inventar um novo modelo de trabalho no nosso cenário, que já era precário de possibilidades, não é simples. A ideia de fazer lives e de ter essa relação com o público apenas virtualmente ainda não é sustentável.

E como tem sido a comunicação com o público?

Estamos tentando não ser ansiosos nas redes sociais, porque houve um excesso de conteúdo nesta pandemia. Mas nossos canais na internet têm sido a única forma de nos comunicarmos hoje.

Sonho Feito de Brisa, por Mac

Read My Mind – Lianne La Havas
É a segunda faixa do melhor disco de 2020 para mim, também chamado Lianne La Havas. É todo delicioso, que sensações gostosas esse disco e essa faixa em especial me causam. “Read My Mind” é sobre sedução, é tão viva, jovial (só velhos usam esse termo) e elegante.

Triste – Elis e Tom
Depois da sedução, o abandono, a solidão. Eu demorei para entender a Elis Regina. Foi graças à Salma, ainda bem que isso aconteceu. Que sutileza poderosa. Escute com fone, a respiração da Elis pode emocionar até mais que o sentido da letra.

I’m The Man That Will Find You – Anna Calvi
Volta para a sedução. Anna canta num tom baixo para ela e precisa sussurrar os primeiros versos, isso me arrepia. Os timbres dessa bateria, do baixo e das guitarras dela também me arrepiam. Versão maravilhosa do Connan Mockasin.

A Caçada – Carne Doce
Não sei dizer por que essa música mexe tanto comigo. Quer dizer, é claro que me apego aos timbres, às texturas e à levada, que é uma brisa, mas a Salma abstrai tão fortemente, joga imagens muito fortes da letra no ar, ela foi genial na leitura da Lygia Fagundes Telles. Essa me pega muito forte.

Please Don’t Make Me Cry – Lianne La Havas
De volta ao melhor disco do ano. Essa me fisgou de imediato a textura da bateria, os acordes soltos da guitarra semiacústica – parece som de fita – e, mais uma vez, Lianne arrasando na interpretação. O refrão potente não basta, porque ainda vem uma parte C na música, com arranjos vocais quase sacros, que nos jogam em um túnel escuro e úmido, mas, graças a Deus, voltamos para o verso.

Só Tinha de Ser Com Você – Elis e Tom
De novo Elis e Tom, mas, aqui, o que fisga é esse ar leve e gostoso, que levadinha deliciosa, eu adoro a mixagem dessa faixa – o chimbal brilhando tímido do lado direito, contrastando com o violão à esquerda, e o Tom destruindo sutil no centro, com arranjos de órgão.

Work – Charlotte Day Wilson
Essa menina tem um peso, uma dor na voz, uma coisa de país frio, acho que é isso, ela traz a dor do gelo, me congela na introspecção, gosto disso. Descobri a Charlotte com o BADBADNOTGOOD e não deixei mais de ouvi-la.

Mountains – Charlotte Day Wilson
De novo ela, Charlotte, cortando meu coração com lascas de gelo. É muito difícil.

Soothing – Laura Marling
O gelo ainda está ali, mas já começa a derreter. Começo a me recompor, há um fio de força. Que arranjos desse baixo!

Red Clay – Charlotte dos Santos
Respiro. Acho que estou pronto para recomeçar. Não agora, agora é hora de pensar e não agir. Esse suingue me faz querer adiar, postergar, com prazer.

Sticky – Ravyn Lenae
Que groove! Quero dançar esquisito, meter a cara no mundo, o pé no acelador, amo esse jeito Kate Bush de cantar.

The Lung – Hiatus Kaiyote
É uma apoteose essa música. Outra vez não sei explicar, mas talvez não haja o quê – essa música é magnânima, é grandiosa. Quando ouvi esse disco, em 2015, e gostei, me achei inteligente (rs). Daqui a pouco tem mais Hiatus.

Chegar em Mim – Céu
Diálogo com o “Read My Mind”, lá do início. Gosto demais dessa sonoridade, é o disco da Céu de que mais gosto. É uma esperança meio triste de sedução, tão sincero isso.

Future People – Alabama Shakes
Amo a Brittany Howard. Sinto um poder ao ouvi-la, ao vê-la cantar. Ela me remete à comunhão, é gospel essa música. É uma sonzera tão absurda, essa pancada do fuzz do refrão é desconcertante. Eu queria ser crente da igreja da Brittany.

He Loves Me – Brittany Howard
Olha ela aí, agora me dizendo “Vem comigo, não precisamos da igreja”, e eu vou. De novo ela me ataca com o fuzz, essa mulher. Ave Maria. E tem mais, o batera aí é o Nate Smith, o batera de que mais gosto hoje em dia depois do Fred Valle (:D)

Laputa – Hiatus Kaiyote
Eles voltaram para te confundir. Saiu da igreja, agora aguenta.

Hermética – Ava Rocha
Eu choro com essa música. É a voz da Ava, é essa melodia tão bela e emocionante, meu Deus! Eu tive o privilégio de receber Ava Rocha em minha casa, fizemos um show juntos. É uma das maiores artistas brasileiras da atualidade.

Baltimore – Nina Simone
Essa música me leva sempre para o show do Carne Doce: é a faixa que o Renatão, um dos nossos técnicos de áudio, usa para equilibrar as frequências das PAs durante passagens de som. E Nina Simone cantando um reggae é muito especial.

Mount Hopeless – Melody’s Echo Chamber
Outra faixa que me leva para o início do Carne Doce, 2014 ou 2015, quando começamos. Boas lembranças.

Isn’t It a Pity – Nina Simone
Desculpe, eu fecho com uma para chorar muito, sem muita esperança, mas para que esperança quando se há algo tão belo? Exagero, talvez. É uma música para levar para os últimos dias. Bela, bela, bela e tão dolorida. Belíssima versão do George Harrison.

Carne Doce (imagem: Jaime Silveira)

O Som que Fez o Som é uma série publicada na primeira sexta-feira do mês e reúne as influências de diferentes artistas.

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