por Alexandre Ribeiro

Recentemente aconteceram casos de a polícia “aleatoriamente” me parar aqui na Alemanha. De certo modo, expressando o pensamento de que estou errado ao andar pelas ruas, sendo quem eu sou. Por causa disso, comecei a sentir um aperto no peito e a me questionar: “Será que sou culpado?”. E eu acho que a gente precisa falar sobre isso.

Zoll (Alfândega) (imagem: divulgação)

Comecei perguntando para os meus amigos pretos (no Brasil e na Alemanha) a simples questão:

“Você se sente confortável na presença da polícia?”.

A resposta foi unânime: não. Nenhum deles se sente confortável. Mas preste atenção, “confortável”. Não é com medo, não é com desrespeito, não é com apreço. Simplesmente confortável.

Quando eu era criança, meu maior medo eram as aranhas. Sei lá, talvez a feição alienígena delas me horrorizasse. Às vezes tenho medo do que é desumano. É engraçado, anos se passaram e hoje em dia sou eu mesmo que faço minhas aranhas. No banho, vou desembaraçando meus cabelos crespos e em um amontoado de nós se forma uma imagem no canto do piso. Os nós dos meus cabelos se parecem com pequeninas aranhas. Eu carrego meus medos em mim.

Eu estava parado no terminal de ônibus de Hamburgo, olhando uma placa que dizia “Berlin”, enquanto aguardava meu amigo. Foi repentino, chegaram dois oficiais à paisana e me disseram: “Nós somos o Zoll, queremos ver o seu passaporte” (em alemão). No primeiro momento eu não entendi muito bem o que estava acontecendo. Achei até que fosse engano.

Mas aí eu me lembrei das aranhas que carrego na cabeça. Foi aí que tudo fez sentido. Eu senti um desconforto.

No exato momento, eu me lembrei dos “enquadros” que já tomei no Brasil e repeti a postura. Só responda o que foi perguntado e torça para que tudo acabe logo. Eles me pediram para acompanhá-los e eu fui levado para uma sala. Eles me revistaram e sentiram coisas pesadas nos meus bolsos, então me mandaram colocar na mesa. Minhas armas: um guarda-chuva e um livro. Insatisfeitos, pediram para tirar a camiseta e finalizaram a revista chateados. Parecia que torciam para que eu tivesse algo.

A cada segundo, a cada frase respondida naquela sala, eu me questionava. Meu maior pesadelo da vida é ser forjado. “Será que sou culpado?” “O que será que fiz para estar aqui?” “E se eu perguntar por que ele me parou?”

Mas eu sinto que essas respostas nunca irão surgir. Com medo, não tive coragem de quebrar o protocolo de perguntas e respostas. A única resposta que se sabe é: quanto mais escura é sua pele, mais suspeito você se torna. Esse padrão é igual em qualquer canto do mundo.

Eles sempre terão a desculpa de que a guerra é contra as drogas, a violência. Mas, no final das contas, quem vai tomar enquadro, ser preso, ser morto, somos nós. Na guerra contra as drogas, os brancos ficam com as drogas e os pretos ficam com as guerras.

Veja também

A hora e a vez das mulheres negras

Ao lado de uma equipe de docentes, a diretora do documentário Mulheres Negras: Projetos de Mundo, a cineasta Day Rodrigues, estimula jovens da periferia de São Paulo a pensar o cinema como ato de resistência