por Ramon Vitral

Há uma infantilização crescente nos debates relacionados às histórias em quadrinhos no Brasil. Colecionismo, ostentação e consumismo são vícios cada vez mais associados à forma como as HQs são pensadas, editadas, vendidas e discutidas por aqui. A conexão feita por muitos entre quadrinhos e cultura geek é uma das principais causas desse rareamento das reflexões por parte daqueles que escrevem sobre quadrinhos e também da falta de sintonia entre editoras nacionais e a vanguarda das HQs brasileiras.

Histórias em quadrinhos são uma linguagem autônoma e plena. Uma forma de arte e expressão marcada pela diversidade de gêneros e estilos: tem para todos e para tudo. Os selos geek e nerd acabam por colocar tudo num mesmo balaio.

É raro encontrar alguém que diz não gostar de cinema ou de música, mas já ouvi por aí um ou outro dizendo que não gosta de histórias em quadrinhos. Não faz sentido. O inverso também não faz. Leio, pesquiso e escrevo sobre quadrinhos, estou aberto a experimentar os mais diversos gêneros, mas jamais terei simpatia plena por todo tipo de HQ.

Páginas de "Incidente em Tunguska", obra do quadrinista Pedro Franz (imagem: Cássia Guerra)

Limitar suas leituras apenas a obras caras, de capa dura, vendidas exclusivamente em livrarias e alardeadas ao mundo por influenciadores – por vezes pagos por editoras e lojas – é fomentar um mercado editorial que, em crise, se mostra cada vez mais conservador e nada disposto ao novo.

A vanguarda dos quadrinhos nacionais está fora do radar das principais editoras e dos espaços de maior audiência e de presença de público.

São poucos os espaços voltados para aprofundar o debate e noticiar obras e autores focados em dialogar com o mundo e em investigar as dinâmicas mais fundamentais da linguagem dos quadrinhos. Algumas exceções: os blogs Raio Laser, Balbúrdia e O Quadro e O Risco; os sites Revista O Grito! e Mina de HQ; o podcast HQ sem Roteiro; os perfis no Instagram Afro Nerd e Gibi Foda; o canal no YouTube Papo Zine – e o meu próprio blog, Vitralizado (embora eu reconheça minha suspeição nesse mérito). Não consigo ir muito além. O que há de mais interessante sendo produzido e publicado no Brasil hoje você encontra nesses espaços.

Neles você lerá sobre os trabalhos de Aline Zouvi, dona de um dos traços mais singulares dos quadrinhos nacionais, praticante de um preto e branco de alto contraste impressionante e capaz de conciliar a concisão de charges políticas e comportamentais sobre a sociedade moderna com narrativas longas, como fez no álbum Síncope.

E onde você também lê sobre Incidente em Tunguska, obra do quadrinista Pedro Franz lançada em 2015, produzida como parte de sua dissertação de mestrado para a Universidade do Estado de Santa Catarina (Udesc) e que pode ser lida tanto como uma HQ (disponível de graça no site do autor) quanto em sua versão como exposição, montada em mais de uma oportunidade e registrada em fotos no mesmo site.

Grazi Fonseca, Jéssica Groke, Alexandre Lourenço, Lalo, Amanda Paschoal Miranda, Victor Bello, Diana Salu, Fabio Vermelho, Paula Puiupo, Deborah Salles, Roger Vieira, Helô D’Ângelo, Vitorelo, Daniel Lopes, Diego Gerlach… É muita gente boa sem receber a devida atenção. É óbvio: estamos falando de um mercado; no Brasil a arte ainda é vista como luxo e poucas pessoas leem. Há espaço para todo mundo, mas não vazão. O ponto é que esses autores e seus contemporâneos estão pensando, propondo e construindo o futuro da linguagem dos quadrinhos por aqui. São exceções e deveriam ser mais noticiados do que são. 

Não dou conta de ler todas as histórias em quadrinhos que chegam às lojas especializadas nacionais. Não dou conta de ler nem o que gostaria, mas dispenso a leitura de “tudo”. Filtros são essenciais.

Influenciadores, jornalistas, críticos e produtores de conteúdo do universo dos quadrinhos deveriam estar mais atentos aos seus filtros. É fundamental o surgimento de espaços com linhas editoriais mais diversificadas e críticas, minimamente coerentes com a diversidade e a criatividade das HQ nacionais.

Daí surge a Sarjeta, coluna sobre quadrinhos que o pessoal do site do Itaú Cultural me convidou a escrever mensalmente. O foco será tudo aquilo que foge às vias oficiais e mais frequentadas. O nome faz referência a tudo que está à margem e também acena à terminologia estabelecida pelo quadrinista e pesquisador norte-americano Scott McCloud. Ele chama de sarjeta aquele espacinho em branco que separa dois quadros de uma HQ. 

O logo do selo Sapata Press, editado pela quadrinista Cecília Silveira (imagem: divulgação)

Três perguntas para… Cecília Silveira, quadrinista e editora do selo Sapata Press

Encerrarei as edições da Sarjeta com uma breve entrevista com um personagem da cena brasileira. A primeira da série é com a editora e quadrinista mineira Cecília Silveira, hoje radicada em Portugal e editora do selo Sapata Press – voltado principalmente para a publicação de trabalhos de mulheres e pessoas não binárias, sejam elas trans ou cisgênero. 

O que você vê de mais especial acontecendo na cena brasileira de quadrinhos hoje?

Sei que tenho uma perspectiva enviesada (afinal como todas) porque vivo em Lisboa há dez anos. Foi justamente conhecer mais o que se fazia no Brasil e em Portugal – e criar um possível elo de conexão entre esses dois lados do mar – que me motivou a fundar, em 2017, o projeto Sapata. Então, vejo que aquele momento de possibilidade de explosão da linguagem da HQ de que tanto ouvia falar antigamente já está acontecendo. É como ver o desabrochar de uma rosa e, se fosse possível à nossa percepção captar ambos os momentos, notaríamos que estão a florescer explosivamente: Diana Salu, Lovelove6, Desalienada, Ellie Irineu, Amanda Miranda Paschoal, Paula Puiupo, Jessica Groke, Helô D’Ângelo, Carol Ito, Vitorelo, Débora Sales, Lalo, Abajurr... Muita "minine" foda!

Como leitora, autora e editora, o que mais a interessa hoje em termos de histórias em quadrinhos?

Neste momento estou no último ano de uma pesquisa de doutorado em belas-artes, com especialização em desenho, cuja parte prática será uma HQ de longo fôlego, sobre identidade, memória e autorrepresentação de sujeitos não hegemônicos. Portanto, a autobiografia que tenta produzir uma perspectiva alternativa a partir das narrativas “oficiais” ou aquela que intersecciona e se apropria da história do mundo para partilhar uma memória íntima (ou um processo fenomenológico) são as minhas cenas eleitas. Sou fã da Alison Bechdel até o caroço!

Qual é a memória mais antiga que você tem da presença de quadrinhos na sua vida?

Eu não fui leitora de quadrinhos na infância. A minha família era pobre; comprar um quadrinho da Mônica não era algo corriqueiro. Portanto, apanhava algumas sobras de crianças mais afortunadas (?) de vez em quando...

Essa presença das HQs só se consolidou para mim já adulta (?), quando a minha grande amiga Ana Cavalo me emprestou Mort Cinder [obra de Héctor Germán Oesterheld e Alberto Breccia publicada recentemente no Brasil pela editora Figura]. Ela escolheu a melhor entrada possível para mim no universo das HQs! Senti aquele arrepio na pele e aquela vontade de pegar num lápis e desenhar um livro; também nunca mais deixei de ser leitora de HQs. Essa obra definiu muita coisa na minha vida, tanto quanto o fato de eu não ter sido leitora de HQs definiu o quão diversa eu poderia ser na abordagem dessa linguagem: como leitora, autora, editora, pesquisadora, professora.

Leio de tudo, claro que julgo, mas em geral estou aberta a experimentar e a dar sempre mais um passo.

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