por William Nunes de Santana

Em setembro do ano passado, durante um show da Maglore em São Paulo, uma amiga me disse: “Espera, eu conheço essa música. Não é de Gal [Costa]?”. A música em questão era "Motor", do álbum Vamos pra Rua (2013), e a confusão é comum para quem não conhece a discografia da banda baiana radicada na capital paulista há alguns anos.

Gal Costa incluiu a canção em seu repertório de shows em 2019 – e a gravou em um ao vivo lançado logo depois –, e, como se a história já não fosse boa o bastante, praticamente ao mesmo tempo, "Motor" foi regravada por Pitty em Matriz (2019). “Foi inusitado e maravilhoso. Com certeza já ganhei meu prêmio nesse sentido”, contou Teago Oliveira, vocalista e principal compositor da Maglore, em entrevista por telefone ao Itaú Cultural (IC).

Teago iria apresentar as canções do seu primeiro disco solo, Boa Sorte (2019), no palco da Sala Itaú Cultural nesse 17 de abril, mas, assim como as demais atividades do IC, o show foi suspenso.

Nesta entrevista – que faz parte de uma série de conversas que inclui Ceumar, Ozorio Trio, Terra Celta e Rafa Castro –, o artista falou sobre o processo de composição de Boa Sorte – que, por exemplo, tem um quê de gente como Moraes Moreira, falecido no último dia 13 de abril –, a felicidade de ter suas composições gravadas por grandes nomes da música brasileira e sua forma de lidar com o distanciamento social.

O cantor e compositor Teago Oliveira (imagem: Duane Carvalho)

Para quem não conhece seu trabalho fora da Maglore, como você descreve Boa Sorte, seu primeiro disco solo?

É um disco de canção popular, que reverencia a música brasileira das décadas de 1960 e 1970. É muito baseado nas letras e na força do violão. Eu busquei deixá-lo um pouco mais lúdico, remetendo mais às influências que tenho da MPB e da música baiana, com uma pitadinha de rock. Ele foi produzido de maneira diferente dos discos que faço com a Maglore, porque a banda tem uma identidade coletiva muito grande, apesar de eu ser o compositor principal. Nesse meu disco o processo foi diferente. Cheguei ao estúdio, toquei e arranjei conforme as faixas eram gravadas – a Maglore, geralmente, já chega com a música pronta para gravar. Foi uma forma mais solta de experimentar o processo de criação.

Você estava acompanhado nesse tempo de estúdio?

Basicamente era eu tocando e o Leonardo Marques, produtor do disco, gravando violão, guitarra e voz. Depois colocamos arranjos de teclado, gravamos as percussões, também acabei gravando o baixo, além de termos feito algumas programações de samples dos anos 1950. Só depois que trouxe Felipe Continentino para tocar bateria em algumas faixas, Thiago Mello gravou o violino e Rodrigo Garcia o violoncelo. Eu fui cantando os arranjos que estavam na minha cabeça e eles coloriram o disco.

O que o motivou a explorar esse seu lado artístico e fazer desse um disco solo?

Acho que há muitas canções que eu não enxergava razão em ser da Maglore, a banda tem essa coisa mais coletiva. Essas músicas foram ficando em escanteio, e sempre tive vontade de fazer um disco solo mais no sentido de aprender e me aprimorar, sair um pouco da zona de conforto. Foi menos uma vaidade artística e mais uma experiência de tentar encontrar outras formas de desenvolver minhas músicas. Tem música que eu fiz há dez anos, coisas que fiz durante o próprio disco; na verdade, Boa Sorte é uma grande costura de várias fases da minha vida. Corações em Fúria (Meu Querido Belchior) [lançado como primeiro single] foi uma que fiz quando já estava em fase de mixagem, acabei criando música e letra na hora.

Qual é a mensagem de Boa Sorte?

Esse é um disco que reflete um pouco o nosso tempo. Fala de certa ansiedade e urgência em melhorar a gente mesmo, para podermos fazer alguma diferença no mundo de hoje. Esta ansiedade coletiva e este momento de construção que estamos vivendo são muito grandes e estão nos deixando cada vez mais confusos. Fala também sobre relação pessoal, vida adulta, separação, de ter um pouco de esperança. É um disco bem reflexivo.

Você é um dos compositores mais celebrados da sua geração. Qual é a sensação de ter suas canções gravadas por nomes como Gal Costa, Erasmo Carlos e Pitty?

Foi uma grande vitória não só para mim, mas para a banda toda. Além de serem artistas enormes, eles sempre foram referências para nós. Admiro muito a forma como Pitty conduz a sua carreira, além de ser uma compositora incrível; Gal Costa para mim é uma das maiores cantoras da história; e Erasmo, um dos maiores compositores que o Brasil já teve. Essa conquista me deixou um pouco mais confiante, de certa forma, em continuar fazendo o que eu faço, em continuar compondo e melhorando.

E como essas versões e releituras surgiram?

No caso de Erasmo, o produtor dele, Marcus Preto, fez uma grande ponte. Ele me ligou e disse que Erasmo estava fazendo um disco [que viria a ser Amor É Isso (2018)] e buscando pessoas novas para participar, então me perguntou se eu não teria uma música para mandar. Acabei enviando "Não Existe Saudade no Cosmos", que é uma música que a Maglore gravou para o Todas as Bandeiras (2017), mas que tiramos do repertório antes de o álbum ser lançado. Já a Gal foi uma surpresa. O Marcus Preto foi a um show nosso, escutou a música e mandou para ela. Gal que falou que queria tocar "Motor", depois de ouvi-la. Ela começou a tocar durante seus shows e acabou gravando. Foi uma surpresa, porque ele não tinha me avisado dessa história e por ter partido muito dela querer tocá-la. E Pitty já conhecia "Motor", já tinha gravado no disco dela antes de Gal cantar no show. Isso foi uma grande coincidência da vida, a mesma música ser gravada pelas duas, quase que ao mesmo tempo, e sem uma saber da outra. Uma loucura.

Como é a sua interação virtual com o público? Vi que você fez algumas lives.

Eu nunca tinha feito live, sempre fui meio tímido com essa questão de exposição na internet. Fiz uma recentemente e, no meio da música, comecei a ler os comentários, quando estava lendo eu simplesmente esqueci que música estava tocando, de tão distraído que fiquei. Mas tenho achado ótimo, porque as pessoas estão em casa e ansiosas; então, nós que podemos fazer algo para melhorar a vida delas, por que não? Mesmo que seja tocando e cantando, acredito que podemos fazer diferença. Como artistas, temos certo poder de comunicação, de passar uma mensagem mais de acordo com o que o mundo precisa agora. Essa função é essencial para além da nossa questão artística, de ego ou de vaidade, de tudo que existe. A missão é muito maior. Estamos em uma época em que chegou o grande momento de a humanidade demonstrar solidariedade, que é tão essencial para o futuro. E parece que o futuro chegou, e não de uma forma muito positiva em relação ao que sempre imaginávamos. Estamos trancados, nós e o planeta inteiro, por causa de um vírus. Parece enredo de filme – e, na verdade, já foi enredo de filme. Nosso papel de artista é tentar tranquilizar as pessoas, passar uma mensagem positiva, dizer que tudo vai ficar bem e fazer com que tudo fique bem.

Recentemente o Itaú Cultural me comunicou sobre o cancelamento do meu show, mas que o cachê seria mantido. Fiquei muito grato e me solidarizei muito com essa atitude, já que há pessoas que dependem de que eu cante para sobreviver. Além de pagar a equipe, vou doar minha parte para quem está precisando mais neste momento, principalmente profissionais da área cultural. Espero que seja um gesto que possa ser repetido.

Como tem sido a sua rotina?

Tenho ficado em casa me controlando e evitando ao máximo sair. Estou vendo muito filme, trocando mensagens com várias pessoas, fazendo lives, lendo um pouco, jogando videogame, tentando ocupar a cabeça. De vez em quando pego o violão para criar alguma coisa, anoto alguma canção já pensando no próximo disco da Maglore. Se ficarmos toda hora vendo os noticiários, a gente pira um pouco.

Quais são as suas indicações de séries, filmes, discos e livros?

Vou ser bem incisivo no que vou citar, porque acho que são bem importantes. A série – eu já cansei de falar sobre – se chama Years and Years, da HBO, e é incrível. Tem seis episódios e narra a história do mundo de 2017 até 2035. E nada faz mais sentido do que essa série agora, porque é basicamente o que está acontecendo – o mundo se transformando, as minorias lutando por direitos etc. Ela é meio futurista, curta e bem profunda. O livro que terminei recentemente foi O Dia do Coringa, do norueguês Jostein Gaarder, autor de O Mundo de Sofia; é uma leitura superfácil e bonita. E discos tenho escutado as coisas de sempre, as músicas antigas, mas ouvi também o recém-lançado de Letrux, Aos Prantos, e achei muito bacana.

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