por Amanda Rigamonti

No primeiro semestre deste ano, por causa da pandemia, muitas pessoas se viram isoladas em suas casas, às vezes só, outras acompanhadas. Algumas conseguiram seguir produzindo, ou precisaram produzir para lidar com um momento tão complexo. Aqui estão alguns ensaios que são resultado desse olhar para si e reconhecer-se, percebendo as transformações consequentes de um momento tão peculiar.

A artista visual Keila Serruya produziu Raiz e Patchuli usando instrumentos que estavam ali, à mão: “Eu tenho tantos instrumentos, objetos, ferramentas que fazem parte do meu caminhar e acreditei ser necessário utilizá-los neste momento de tensão. Eles já estavam ali, não há preparação, eu só pego e faço esse registro de terra, solidão, cuia, patchuli e fortalecimento”.

O ensaio surgiu pelo atravessamento de Keila por um pensamento da filósofa Marimba Ani, que diz “sua cultura é seu sistema imunológico”. Ela conta que, ao pensar na frase, “doente eu não fico”. E assim ela decide olhar para dentro e se munir desses materiais de proteção que registra. E se coloca em frente à câmera para falar em primeira pessoa: “Afirmar meu corpo negro em um lugar de narração e memória é ser contrafluxo. Eu falo em primeira pessoa com a minha imagem. Não negá-la é um ato decolonial. Me tiraram a autoestima e com as fotos eu a reconstruo”.

Ela conta ainda que vê a cura como uma necessidade constante, que existe desde que o mundo é mundo. Mas que alguns processos tornam essa necessidade mais latente – foi o que aconteceu na pandemia.

“A colonização e suas falas impostoras nos colocam em um lugar que reflete o material, sentimental, sensorial, psicológico etc. como coisas diferentes, mas, obviamente, tudo está ligado, trançado e entrelaçado. E em um momento de morte nada mais justo que utilizar minhas ferramentas diárias como escudo, como lembrança ritualística, afirmando minha vida e minha saúde nesta terra”, afirma Keila.

“Antes da pandemia, pensei em desistir da fotografia. Mas durante o isolamento a fotografia foi um dos meios que me fizeram manter a cabeça no lugar. Investi muito mais nos meus estudos durante este período. Produzi trabalhos de que me orgulho, revisitei meu acervo”, diz Fagner Fabrete, autor do ensaio Resistindo.

Diagnosticado com TAG (transtorno de ansiedade naturalizada), ele conta que a fotografia funciona como seus “outros olhos”. Isso porque há coisas que ele às vezes não consegue ver por causa da TAG e que ao fotografar passa a enxergar de forma diferente. “Então eu a uso como minha forma de falar, como minha voz”, completa.

Ele conta ainda que estuda há alguns anos o uso do autorretrato e que esse tipo de produção é, para ele, um grande desafio. Mas que tudo vale a pena pela satisfação de ver e sentir a obra pronta. Para Fagner, “estar na frente da câmera é disponibilizar meu corpo como suporte de algo que não consigo falar em palavras. E a cada autorretrato é um diálogo diferente. Não me vejo parando de estudar o autorretrato”.

Labirinto da Solidão, de Flavio Colker, surgiu como “autoironia”. “Na primeira foto que encenei dentro de casa, copiei a mim mesmo, pensando, na sala... Era algo engraçado e provocador. Eu trabalho brincando. A ideia era fazer uma selfie elaborada. Lembrei de uma foto do Jeff Wall e aquele limite tênue que ele evidencia entre natural e artificial, entre a displicência do selfie e a referência elaborada”, relata Flavio.

O fotógrafo conta que, no início, na chegada da pandemia ao Brasil, quando se viu em casa atento às maneiras de resistir, passou a ler bastante e organizar seu trabalho. Nesse processo, escreveu poemas e editou um livro com esses textos e suas narrativas fotográficas.

Para este ensaio, Flavio teve inspiração no livro homônimo de Octavio Paz que trata da formação do caráter mexicano. “Enquanto o livro fala do homem inserido na história e na nação, desdobrei o título para uma epopeia do isolamento, do homem na ilha deserta, inserido apenas na história da imagem. O apartamento como a ilha deserta. Meu impulso criador sempre parte da solidão e faço o trabalho para tocar os outros em sua solidão. Sempre me senti só e desgarrado.”

“Sou um artista cerebral por um lado e por outro intuitivo. O instinto garante uma relação visceral do público com as imagens. Sobre essa relação, eu nem sei falar muito, mas é algo que me emociona também e sei que, se não fosse isso, eu não poderia ser um artista. O Mapplethorpe admirava a pornografia pela relação visceral com a imagem. Quando eu li isso dele, entendi o que eu procurava. Eu conto com a resposta emocional do outro, do público, para me levar adiante. Labirinto da Solidão é feito desse paradoxo: a ligação visceral com a emoção do outro e a minha solidão fundamental.”

Flavio se define como minimalista “no sentido de trabalhar com recursos mínimos”. Assim, sobre o trabalho em autorretrato, ele diz que, se falta modelo, pousa para a foto. E que vê nessa atitude uma questão de princípio, porque entende que tudo que pede a um modelo deve ser capaz de suportar.

“Por outro lado, a ironia de copiar a mim mesmo para a câmera é sublime. Comecei copiando a mim mesmo na existência cotidiana e depois fui exagerando nos adereços e intenções, pretendendo ser Ulysses ou um bandido. Tem um aspecto de interagir com obras já emolduradas: estou olhando para as obras. [...] Essa ideia de duas camadas era nova para mim e ao mesmo tempo eu me divertia com a ironia e a teatralidade das situações. A diversão é sempre bom sinal. A liberdade maior do homem é fazer do trabalho diversão”, conclui.

Com curadoria de André Seiti e Anna Carolina Bueno, a série analisa algumas fotografias selecionadas pelo edital Arte como Respiro. Os textos são uma pequena amostra do que será apresentado na publicação que reúne todos os escolhidos na categoria Artes Visuais e que será lançada em dezembro de 2020.

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