por William Nunes de Santana

Cocão Avoz, rapper e poeta do Jardim São Luiz, na Zona Sul de São Paulo, se apresenta no Itaú Cultural como parte da programação musical do instituto em fevereiro. O show celebra o lançamento do livro Pra Não Dizer que Não Falei das Ruas (2019), misturando rap e poesia. A obra é uma coletânea de um material produzido ao longo de 20 anos de carreira.

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Participante do coletivo Cooperifa, o artista é um dos mobilizadores do sarau criado pelo escritor e poeta Sérgio Vaz. Em entrevista, ele fala sobre a sua relação com a comunidade, a escrita e o seu trabalho na música. Os locais escolhidos pelo artista para o ensaio de fotos foram o Mirante 9 de Julho e o Vão do Masp, em São Paulo.

Do trabalho em grupo à carreira solo

“Minha carreira solo surgiu em 2015, mas participo do Versão Popular [grupo que nasceu na Cohab do Jardim São Luiz] há 21 anos. Somos um grupo bairrista, que fala sobre as pessoas que moram na comunidade e suas necessidades. Com a oportunidade de participar do Sarau da Cooperifa, fomos agregando novos elementos à nossa escrita e ao nosso rap. Isso mudou a forma de pensar o trabalho como artistas-cidadãos. A carreira solo me dá um pouco mais de liberdade de fazer um show, por exemplo, com rap e poesias. Quando comecei a trabalhar algumas músicas pensando nessa fase, a primeira que nasceu foi 'Diaristas'. Fiz essa e outras músicas, além de poesias para somar no meu trabalho.”

O diálogo com pessoas do dia a dia

“Gosto muito da minha quebrada e de falar de pessoas simples. Gosto de conversar com o dono do bar, o cara da padaria, a mulher cabeleireira para entender qual é o mundo dessas pessoas. Eu escrevo sobre elas, convivo com elas, falo delas fora da minha quebrada. São pessoas simples que não têm como passar batidas nas minhas escritas, por isso faço questão de estar perto. Existem oportunidades através da arte e do rap. Eu conheci o rap com uns 15 anos [hoje ele tem 40] e, se estou dando continuidade ao meu trabalho agora, sei que as pessoas da minha comunidade têm influência nisso.”

Rap e poesia

“O rap é ritmo e poesia, os dois dialogam entre si. A força da poesia está na palavra. Ela já tem um ritmo próprio, mesmo sem som. A palavra perpetua, chega mais rápido ao entendimento da pessoa. Comecei a escrever quando entrei no rap e comecei a entender que meu rap era poesia a partir do momento em que conheci a Cooperifa e pessoas como o Sérgio Vaz e a dona Edite. A poesia é a alma do negócio. No meu show há um momento sem música para valorizar a palavra.”

Anos de Cooperifa

“Faz 17 anos que participo da Cooperifa [que, por sua vez, vai completar 19 anos]. Eu digo que a Cooperifa é a solução da minha vida. Você imagina morar em um bairro no qual o índice de violência é altíssimo, onde é cada um por si em uma comunidade gigantesca e não se sentir inserido em nada? Quando um amigo me convidou, eu nem sabia o que era sarau. De lá para cá nunca mais deixei de frequentar. A Cooperifa foi a minha afirmação como pessoa na sociedade, me deu voz. Um lugar onde falar é sagrado, mas ouvir é mais sagrado ainda.”

Pra Não Dizer que Não Falei das Ruas

“O livro foi uma forma positiva de as letras chegarem às pessoas. Ele surgiu em um bom momento, no qual me sinto maduro. Esse livro conversa comigo. Fui organizando as coisas na minha cabeça, trabalhei algumas poesias e letras de rap, valorizando frases. No fim tinha mais ou menos 70 títulos. A ideia do nome veio inspirada na música Pra Não Dizer que Não Falei das Flores, do Geraldo Vandré. Meu rap fala de rua, é a rua que me inspira. Por isso o nome Pra Não Dizer que Não Falei das Ruas. O Sérgio Vaz fez o prefácio e o KL Jay, dos Racionais MC’s, topou escrever o posfácio. Com ele pronto, quis levar esse trabalho para os palcos e montar um espetáculo.”

Cocão Avoz [com interpretação em Libras]

sexta 7 de fevereiro de 2020
às 20h
[duração aproximada: 80 minutos]
Sala Itaú Cultural – 224 lugares

Entrada gratuita
[livre para todos os públicos]

distribuição de ingressos
público preferencial: uma hora antes do espetáculo, com direito a um acompanhante – ingressos liberados apenas na presença do preferencial e do acompanhante
público não preferencial: uma hora antes do espetáculo, um ingresso por pessoa

Clique aqui para saber mais sobre a distribuição de ingressos.

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