Por Nayra Lays e Alexandre Ribeiro*

Em junho de 2017, lancei um EP intitulado ORÍ. Um presente para mim mesma, em comemoração dos meus 20 anos de existência e reexistência neste mundo. Uso esse termo –reexistência – por estar aprendendo a reconhecer o que o processo de objetificação de corpos negros faz parecer difícil de admitir: sou humana.

Passar por crises intensas de solidão e medo, mesmo quando tudo está aparentemente em ordem, não é natural. Mas aprendemos a conviver com elas. Tomar consciência do que significa ser mulher preta passa por saber que o processo de existir nunca será linear, justamente por ser um processo e que, para nós, é ainda mais difícil. A vida nos exige sabedoria que vem de outros tempos, mas a descoberta reconfortante é que ela se manifesta de muitas formas, o tempo todo, e é o que ainda nos faz emergir, renascer depois de tempos tempestuosos. Para mim, a música tem sido um dos elos mais fortes com forças ancestrais, para manter minha energia criativa viva.

Aya, símbolo de resistência e desenvoltura

Em um dos sons do EP, chamado Fartura de Vida, eu canto que “quero viver, e não só sobreviver”. De fato, crescer na quebrada sendo menina, filha de mãe solo, jovem e preta, é um teste de sobrevivência. Hoje tenho a consciência disso e ainda sofro, mas não sem questionar as razões, e pensar estratégias de cuidado do nosso interior, que se renovam cada vez que recuamos para cuidar das feridas.

Conseguir o mínimo de segurança para falar em público e nos impor. Dizer não. Pensar em um planejamento de vida. Ter acesso a livros escritos por mulheres como nós. Nos enxergar. Foi a música, especialmente o rap cantado por mulheres pretas, que abriu meus ouvidos, minha mente e meu coração para buscar, enxergar e abraçar possibilidades novas, futuristas, eu diria.

O novo trabalho do Rimas e Melodias, grupo de RAP e R&B composto só de mulheres, foi um novo chacoalhão, um fôlego que chegou até mim em mais um momento necessário, para relembrar: “É sobre lutar, sobre conquistar, sobre fazer valer…”. E por muito tempo será.

Nós tivemos a chance de trocar uma ideia com Tássia Reis, Drik Barbosa, Alt Niss, Tatiana Bispo, Stefanie, Mayra Maldjian e Karol de Souza sobre como a música tem contribuído nos processos de cura delas também.

O disco, com todas as suas camadas e vozes, apresenta uma experiência forte de detalhes e percepções. Como foi a chegada a esse estágio? Houve muita troca de opinião?

Sim. No início do processo a gente se reuniu para conversar sobre todo o conceito do disco. Discutimos tudo nos mínimos detalhes e isso foi acontecendo também durante as gravações. Todo mundo teve voz ativa e a gente escutava umas às outras. Você consegue ver um pouco de cada uma no disco. Também escutamos bastante os produtores, que tiveram tanto cuidado e preocupação quanto nós para tudo sair do jeito que a gente queria. 

Após algumas audições, conseguimos notar rimas que aparecem como trocas de ideias e desabafos entre vocês. Lançar o disco foi um processo de cura?

Não digo cura, mas posso dizer que foi um desabafo. São letras fortes e nós mesmas que escrevemos, então são experiências que já passamos ou vimos alguém passar. Acontece também da identificação pela letra da outra. Nada do que está sendo dito tem a reprovação de alguém. Escuto trechos que não são meus, mas me emociono, quero cantar junto porque também me representam.

Em um contexto tão conturbado, como ajudar a construir narrativas de autocuidado, especialmente entre mulheres pretas?

Acredito que nossa música traduz muitas vezes o que passamos, o que sofremos, mas também o que almejamos. Pensando nisso, quando escrevemos defendendo nosso direito de existir é como um grito nosso por esse autocuidado. Acho que cada uma de nós precisa encontrar em si uma força. É uma forma de se cultivar e juntas nós celebramos isso também, o que nos fortalece.

Qual é o papel do rap que vocês fazem para as construções de vida de outras pessoas?

Em cada música que compomos existe a nossa verdade, o que acreditamos, o que sentimos e como reagimos às vivências e sentimentos. Muitas pessoas se identificam e recebem positivamente a mensagem. A música tem esse poder de fazer pensar no que está sendo dito, abrir a mente e, se você quiser, levar aquela mensagem para a vida. Nós, que fazemos música, entendemos que da mesma forma que a música nos faz bem, inspira e já nos salvou de alguma forma uma música feita por nós pode inspirar e motivar.

Há alguma música que as ajuda nos dias difíceis? Gostaríamos da indicação de cada uma de vocês.

Drik Barbosa:

"Enjoy Ya Self" (Slakah The Beatchild)
"Equilíbrio" (Kamau)

Tatiana Bispo:

"Put Your Records on" (Corinne Bailey Rae)
"Passou" (Djavan)

Alt Niss:

"Bag Lady" (Erykah Badu)
"Vida Loka Parte 2" (Racionais Mcs)

Stefanie:

"Em Teus Braços" (Laura Souguellis)
E qualquer uma do The Foreign Exchange

Tassia:

"Sozinho" (Metá Metá)
 

Mayra Maldjian:

"Sonâmbulo" (Céu)
E qualquer uma da Kelela

Karol de Souza:

"Quadro da Vida" (Brício)
E qualquer uma de Bob Marley

Rimas e Melodias, no camarim do Itaú Cultural. Foto: Luan Batista | Coletivo Estúdio Urbano

Foi Conceição Evaristo, citada por Djamila Ribeiro em um dos sons do novo álbum das minas, quem disse: "Nossa voz estilhaça a máscara do silêncio". Que nossas vozes, em prosa, poesia, rima e melodia, sigam mostrando novas possibilidades de fartura de vida às que virão.

Obrigada, mulheres negras.

*A coluna Sankofas é assinada em conjunto, mas o texto de outubro excepcionalmente foi escrito apenas por Nayra Lays. Alexandre Ribeiro auxiliou na entrevista e na edição do texto.

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