O Som que Fez o Som foi uma série musical integrante do Álbum, site do Itaú Cultural dedicado à música. Tal série reunia indicações, feitas por diferentes artistas, de músicas que fizeram parte de suas trajetórias e foram importantes na busca pela criação de um som próprio. O Álbum saiu do ar, mas o IC decidiu retomar a série – a princípio, publicando textos que haviam sido postados no site e alimentando nosso Spotify com playlists compostas por essas indicações. O original foi publicado em 2013.

Autointitulada “a terceira menor big band do mundo”, a dupla Os Mulheres Negras é formada por André Abujamra e Mauricio Pereira. De 1985, ano de seu nascimento, até 1991, quando se separou amigavelmente, lançou apenas dois discos de carreira – Música e Ciência (1988) e Música Serve pra Isso (1990), mas suficientes para destacá-los no cenário pop paulistano dos anos 1980. Desse repertório destaque para os hits autorais “Sub”, “Purquá Mecê”, “Xarope a Levada”, “Imbarueri” e “Monstros Japoneses”.

De volta ao palco, Os Mulheres Negras seguem a receita que os credenciam como uma espécie alternativa de Alvarenga & Ranchinho, com uma mistura de humor e aspectos cênicos às vozes de ambos em meio à música produzida pelos sintetizadores e à guitarra de Abujamra e ao saxofone de Pereira. Para a série O Som que Fez o Som, a dupla apresenta uma rica variedade de referências, que vão dede Os Beatles até o hip-hop do grupo norte-americano De la Soul, da música instrumental de Hermeto Pascoal e Paulo Moura ao erudito Villa-Lobos. Aproveite e salve a playlist que montamos com as dicas no Spotify.

1. “Os meninos da mangueira”, por Ataulfo Alves Jr.

MAURICIO PEREIRA – O André (Abujamra) era todo ZZ Top, Rush, ogro, grito, o escambau, e na hora do “vamo ver” um dia cantarolou essa música, delicada, singela. Fiquei meio espantado, mas tinha tudo a ver… Ele disse que essa música tava no inconsciente dele.

2. “Cala a boca menino”, por João Donato

ANDRÉ ABUJAMRA – O que me pegou foi o arranjo de metal, e a pegada lembra funky maluco, tipo Sly Stone. MP – Nos anos 1970, meu pai comprou esse disco e eu fiquei meio hipnotizado, não soube dizer bem o que era, acho que o disco tinha muita cor, um certo sossego no andamento.

3. “La grange”, por ZZ Top

AA – Morei em Oklahoma e ouvia ZZ Top o dia inteiro. Descobri que isso aí era um puteiro no Texas: dizem os especialistas que o Billy Gibbons me imita… [Músico, ator e produtor, William Frederick é o vocalista da banda norte-americana de blues rock ZZ Top, surgida em 1969.] MP – Pergunta pro André…

4. “Espinha de bacalhau”, por Paulo Moura

OS MULHERES NEGRAS – O Paulo Moura foi importante pra nós por causa duma oficina que fizemos com ele, bem quando a gente tava começando. É a memória disso, o começo do Mulheres. Ele jogou a gente pra dentro da música.

5. “I was Kaiser Bill’s Batman”, por Whistling Jack Smith

OMN – A gente sempre ouviu isso por aí e nunca sabia o que era. Botamos ela dentro de algumas canções do Mulheres vez por outra. Até que veio a internet e a gente descobriu tudo…

6. “Yellow submarine”, por The Beatles

OMN – A gente tava no laboratório de Santa Cecília, adorava essa música. AA – Aí eu pedi pro Mau fazer uma versão. MP – Eu fiz, joguei na mão do André, ele editou e metemos na base.

7. “Summertime”, por Janis Joplin & The Holding Company

MP – Uma vez conversei com o Carlos Fernando, do Nouvelle Cousine, banda contemporânea da gente na cena paulistana ali dos 1980. Ele pesquisava e ia atrás de tudo que fosse lado B. A gente no Mulheres não. Pegava justo os clássicos, pro povo ter noção de que tipo de viagem a gente tava tendo em cima do original.

8. “Bachianas brasileiras nº 2 – O trenzinho do caipira”, por Quinteto Villa-lobos

OMN – A gente sempre achou que o Villa-Lobos tinha a ver com o Mulheres: muita informação, procedimentos eruditos misturados com a música da rua, de gente simples, da cultura popular. 

9. “Vem quente que eu estou fervendo”, por Erasmo Carlos

OMN – A gente fazia o baixo nasal com essa, o Mauricio punha o captador no nariz e fazia o solo. E o Eduardo Araújo deu uma bronca no Mauricio por causa dessa música: a gente só dava o crédito pro Erasmo, que cantava… Corrigimos.

10. “Música das nuvens e do chão”, por Hermeto Pascoal

OMN – Mais pra dizer que a gente tem muito a ver com o Hermeto nessa coisa de se dar a liberdade de quebrar a música em pedaços e subverter o uso dos instrumentos, além de usar objetos como instrumentos.

11. “Chico mineiro”, por Tonico e Tinoco

AA – A gente escuta essa desde que nasceu, tem a ver com dupla: Abbott e Costello, Gordo e Magro, Pernalonga e Patolino. MP – E tem a ver com a irmandade da gente, a gente canta bem em terça, e ainda com esse universo paulista que uma dupla caipira tem.

12. “Me, myself and I”, por De la Soul

OMN – Tem a ver com a negrice do Mulheres. A – Ninguém vê, mas a gente é preto mesmo. M – Podicrê…

13. “Mãoscolorida”, por Os Mulheres Negras

OMN – Climática, instrumental, repousada, não conta nenhuma história maluca, ela é bem OMN meditando sozinhos no laboratório de Santa Cecília, onde eles nasceram e se criaram, ou seja: dois músicos com uma liga muito forte entre si e alguma liberdade na cabeça, respirando juntos no pulso dum looping de seu bom e velho pedal de sampler de dois segundos…

14. “Purquá mecê”, por Os Mulheres Negras

OMN – O outro lado da moeda OMN: uma célula rítmica africana, uma letra meio louca, looping, ópera, ruídos, polifonias, efeitos colaterais, citações, duas vozes cantando juntas à moda caipira do Sudeste, outros idiomas, música italiana, rock’n’roll, eletrônica barata, batidas clássicas do pop, algum senso de humor, alguma esquisitice, algum lirismo. Ou seja: dois músicos com uma liga muito forte entre si e alguma liberdade na cabeça, pirando no meio dum liquidificador de poesia, influências e possibilidades técnicas infinitas…

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