por Amanda Rigamonti

“Saindo de Belo Horizonte, você pega uma estrada muito bonita, margeando o rio das Velhas. Vai pelo anel rodoviário, chega em Santa Luzia, que é uma cidade histórica, então tem um centro histórico preservado. Ali já parece que você está chegando no interior de Minas Gerais. De lá você pega uma estradinha de mais 7km, com paisagem montanhosa, e em um entroncamento no meio dessa estrada, chega em Pinhões.

É uma comunidade muito pequena, que apesar de estar circunscrita numa ideia de urbanidade, tem uma lógica de cidade de interior. Tem uma afastamento da lógica urbana – tem pouco transporte público, o que causa certo isolamento da comunidade. Todos se conhecem, muitos são familiares. Há algumas pessoas que são sitiantes, compraram sítio lá, e dos residentes identificam quem é e quem não é de lá. A comunidade não tem problema com drogas, tem alguns usuários mas não há tráfico, violência, histórico de roubo, parece mesmo interior, onde essas coisas não chegaram.

Muito católica, apesar de ter várias igrejas, em torno de oito igrejas – evangélicas e católicas. A católica é a tradição da comunidade. E lá é próximo do Mosteiro de Macaúbas, que é grande, muito antigo, talvez mais que a própria sede, e muitos dos escravizados que fizeram parte do quilombo de Pinhões fizeram parte do convento de macaúba e tinha uma fazenda lá próxima que tinha escravizados.

Pinhões é uma ‘cidade’ com cultura rural, do sertanejo, do interior.”

Pinhões é um bairro de Santa Luzia, cidade de Minas Gerais que fica a aproximadamente 17km de Belo Horizonte. É assim que Bruno Vilela, um dos contemplados no Rumos 2017-2018, descreve o local.

Ele define o projeto Área Criativa Pinhões como uma boneca russa. Ele coordena o EXA – Espaço Experimental de Arte, uma plataforma de desenvolvimento de projetos de arte, cultura e cidadania. Dentro dessa organização, um dos projetos que ele desenvolve se chama área criativa, que propõe a construção de espaços culturais comunitários. “A ideia é conseguir em vários situações conseguir construir esses espaços. E eles se nominam de formas diferentes. Então em Pinhões eles escolheram o nome EQTA (Espaço Quilombola Teto Aberto)”.

Em um desses processos conheceu Vinicius, residente de Pinhões. O jovem comentou a respeito do bairro, que passava por um momento de debates a respeito de ser reconhecido como comunidade quilombola – o reconhecimento aconteceu em 2017. O grupo foi então visitar o “bairro-cidade” e compartilhou com outros jovens da região a ideia do projeto. Eles se animaram com a ideia, e foi o momento de colocar no papel. Após encontrar um terreno para a construção, Vilela inscreveu o projeto no Rumos.

“Eu pensava então em como sair de um desejo, vontade, e realizar o que eles querem e avaliar isso. Assim, para fazer a construção, fizemos um mapeamento da comunidade, e levantamos desejos da comunidade, não só do grupo que estava participando ativamente. Inauguramos o espaço no meio do ano, porque é um processo de construção contínuo. E agora estamos terminando para receber os residentes”.

Nesse meio-tempo foram diversas oficinas: sarau, rolimã, quitutes, tambor, piscina, videogame, mobiliário, audiovisual, viagens. E no final do ano serão realizadas três residências artísticas – com Dalton de Paula, que trabalha com questões ligadas à cultura afro-brasileira; um mestre quilombola do Piauí e um sarau com três mulheres poetas que fazem parte de vários saraus de poesia em Belo Horizonte, uma cena que tem crescido na capital mineira.

Sobre o processo, Vilela diz “No fim das contas é um processo formativo. Tem alguns legados, como o espaço, o material... Mas o videogame pode queimar, a piscina esvaziar, mas o que eles vivenciaram de planejamento, conseguir sonhar, realizar, ter a ideia do planejamento, isso é importante”.

Com o fim do processo com o Rumos, Vilela conta que a intenção é se distanciar o projeto – mas aos poucos. Ainda vai frequentar e orientar os jovens a respeito da gestão e organização do espaço, mas a ideia é que a partir da metade de 2020 eles próprios passem a gerir, sem sua orientação.

“Lá a cultura está espalhada em todo lugar. Ela é vivida na casa das pessoas, no terreiro, na rua. Então, um espaço para isso é algo novo”.

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