A segunda sequência didática da edição de 2026 do “CineAula IC Play” trabalha com o filme “Barbosa”, a história do homem que tenta impedir o gol que tirou do Brasil o título da Copa do Mundo de 1950
Publicado em 13/04/2026
Atualizado às 12:22 de 13/04/2026
CineAula IC Play – 2a edição
por Jèff Jácom’e
Sequência didática #2: De volta para o presente com Barbosa
Elenco: Abel Borba, Antônio Fagundes, Pedro Santos e Zé Victor Castel
Estado: Rio Grande do Sul
Classificação indicativa: livre
Gênero: docuficção; ficção científica
Idioma: português
Sinopse: Um homem viaja no tempo até o fatídico dia 16 de julho de 1950 para tentar impedir o gol que tirou a Copa do Mundo do Brasil. Sua missão é evitar a falha que destruiu a carreira do goleiro Barbosa e, ao mesmo tempo, curar um trauma que marcou profundamente sua relação com o próprio pai. O curta é baseado no livro Anatomia de uma derrota, de Paulo Perdigão.
I. CARTA À EDUCADORA, AO EDUCADOR – ENTRANDO EM JOGO
O curta-metragem Barbosa, produzido em 1988 por Ana Luiza Azevedo e Jorge Furtado, é uma reflexão profunda sobre memória, destino e a essência da humanidade. Com duração de apenas 13 minutos, o curta convida tanto professores quanto estudantes a uma reflexão sensível, tornando-se um recurso valioso para disciplinas como história, filosofia e sociologia.
II. PLANO-SEQUÊNCIA
A proposta deste primeiro momento é preparar o estudante para mergulhar no conflito do protagonista, gerando empatia por sua tentativa de voltar no tempo para reescrever uma memória dramática. O intuito é provocar reflexão: alterar uma atitude do passado eliminaria a dor sentida no presente? Se fosse possível mudar a história, isso resolveria nossos conflitos atuais ou apenas nos levaria a um caminho diferente?
“O homem é um ator que gagueja na sua única fala, desaparece e nunca mais é ouvido.” (Macbeth, ato V, cena 5)
Peça aos estudantes que leiam e interpretem a frase. Após as primeiras impressões, instigue-os a identificar a metáfora central: “gaguejar” na vida simboliza cometer um erro, falhar ou hesitar em um momento decisivo.
É possível utilizar as seguintes questões norteadoras para aprofundar a discussão:
- O peso da memória: por que nossa memória tende a reter muito mais as vezes em que gaguejamos (erramos) do que as inúmeras vezes em que “falamos o texto perfeitamente” (acertamos)?
- Paralisia: o medo de gaguejar (errar) novamente impede que vocês tomem atitudes novas no presente?
- Julgamento: podemos afirmar que “o passado nos condena” ou é a nossa própria autoavaliação (nossa culpa) que não nos perdoa?
Articule as respostas dos estudantes para o tema central da ficção científica e do drama histórico: a viagem no tempo. Explique à turma que, na maioria das narrativas sobre viagem no tempo, o desejo de voltar nasce da incapacidade de lidar com a dor de uma lembrança. Queremos mudar o fato para parar o sofrimento.
Finalize o debate lançando a reflexão: “Como não podemos voltar fisicamente, talvez o desafio seja aceitar e aprender. Mas e se pudéssemos voltar para o momento exato do maior erro da história do futebol brasileiro? É isso que veremos agora”.
Essa abordagem garante que os estudantes assistam a Barbosa não apenas como um filme sobre futebol, mas como uma obra sobre a angústia humana de querer reescrever a história, já que o termo “gaguejar” dialoga perfeitamente com a figura do goleiro Barbosa, condenado eternamente por uma falha em 1950.
b) Câmera – Pontapé inicial
Objetivos
Nesta etapa, os estudantes assistirão ao curta-metragem Barbosa, conectando a narrativa com as reflexões iniciais. A proposta é analisar a trajetória do protagonista sob a ótica do paradoxo temporal: ao tentar intervir no passado para evitar o gol, ele se atrapalha e acaba distraindo o goleiro, tornando-se o causador da falha histórica que pretendia corrigir.
Posteriormente, instigue os estudantes a notar a construção estética da obra, destacando como o uso de imagens reais e sons da época fundamenta essa interação trágica entre ficção e realidade. Apresente o conceito de docuficção (forma híbrida de documentário e ficção) e discuta seus elementos com a turma. O questionário proposto poderá apontar para a compreensão de que a tentativa de reparação confirma a inevitabilidade do erro.
Habilidades da BNCC
(EM13LGG103) Analisar o funcionamento das linguagens, para interpretar e produzir criticamente discursos em textos de diversas semioses (visuais, verbais, sonoras, gestuais).
(EM13LGG202) Analisar interesses, relações de poder e perspectivas de mundo nos discursos das diversas práticas de linguagem (artísticas, corporais e verbais), compreendendo criticamente o modo como circulam, constituem-se e (re)produzem significação e ideologias.
(EM13CHS101) Identificar, analisar e comparar diferentes fontes e narrativas expressas em diversas linguagens, com vistas à compreensão de ideias filosóficas e de processos e eventos históricos, geográficos, políticos, econômicos, sociais, ambientais e culturais.
(EM13CHS502) Analisar situações da vida cotidiana, estilos de vida, valores, condutas etc., desnaturalizando e problematizando formas de desigualdade, preconceito, intolerância e discriminação, e identificar ações que promovam os Direitos Humanos, a solidariedade e o respeito às diferenças e às liberdades individuais.
Mãos à obra
Exiba o curta-metragem Barbosa do início ao fim, sem interrupções, adiantando que após os créditos finais haverá elementos que completam a narrativa e que serão analisados. A frase final de Barbosa servirá para a próxima etapa desta sequência didática.
Para que possamos captar de forma abrangente a riqueza da obra, certifique-se de que a exibição tenha uma boa qualidade de som e imagem. Use a opção de legenda para facilitar o entendimento e a acessibilidade. É importante que todos consigam perceber as nuances entre as cenas documentais e as sequências ficcionais, que constroem a proposta imaginária do filme.
Após a projeção, forme uma roda de conversa com o grupo. O objetivo é compartilhar impressões, sensações e reflexões que a obra lhes provocou. Para mediar o diálogo, pode-se começar com algumas perguntas:
- De que maneira o filme articula o desejo de mudar o passado com a inevitabilidade do erro (o “gaguejar”)?
- Em quais momentos a mistura entre o ator (ficção) e as cenas reais de 1950 (documentário) mais chamou sua atenção?
- Como o desfecho irônico afetou a sua percepção sobre culpa e destino?
- Barbosa foi condenado por um erro técnico que o perseguiu durante toda a sua vida. Se não fosse negro, receberia um tratamento diferente?
“O homem é um ator que gagueja na sua única fala, desaparece e nunca mais é ouvido.”
(Macbeth, ato V, cena 5)
“Ser artista é difícil, né?”
(curta Barbosa, 13min03s)
Questione a turma sobre o que Barbosa quis dizer com essa frase final: se o “difícil” se refere a ser filmado por uma equipe de profissionais do audiovisual ou se ele está falando conforme a frase de Macbeth, em que ser artista é ser um homem.
c) Ação – Apito final
Objetivos
Após a roda de conversa, proponha uma atividade prática na qual os estudantes criem uma narrativa de viagem a um tempo passado com o objetivo de mudar o rumo das coisas, seja um erro ou uma dor. Para difundir a história criada, eles devem produzir um podcast.
Habilidades da BNCC
(EM13LGG701) Explorar tecnologias digitais da informação e comunicação (TDIC), compreendendo seus princípios e funcionalidades, e utilizá-las de modo ético, criativo, responsável e adequado a práticas de linguagem em diferentes contextos.
(EM13LGG703) Utilizar diferentes linguagens, mídias e ferramentas digitais em processos de produção coletiva, colaborativa e projetos autorais em ambientes digitais.
(EM13LP15) Planejar, produzir, revisar, editar, reescrever e avaliar textos escritos e multissemióticos, considerando sua adequação às condições de produção do texto, no que diz respeito ao lugar social a ser assumido e à imagem que se pretende passar a respeito de si mesmo, ao leitor pretendido, ao veículo e mídia em que o texto ou produção cultural vai circular, ao contexto imediato e sócio-histórico mais geral, ao gênero textual em questão e suas regularidades, à variedade linguística apropriada a esse contexto e ao uso do conhecimento dos aspectos notacionais (ortografia padrão, pontuação adequada, mecanismos de concordância nominal e verbal, regência verbal etc.), sempre que o contexto o exigir.
Habilidades da BNCC Computação
(EM13CO20) Criar conteúdos, disponibilizando-os em ambientes virtuais para publicação e compartilhamento, avaliando a confiabilidade e as consequências da disseminação dessas informações.
Mãos à obra
Agora vamos transformar a teoria do filme Barbosa em prática criativa. O objetivo é deslocar os estudantes da posição de espectadores e colocá-los no papel de narradores de viagens no tempo. Para essa atividade, sugerimos a produção de uma narrativa no formato de podcast. Fique livre para organizar os grupos: por exemplo, dois apresentadores e um entrevistado; um entrevistador e vários entrevistados. Ainda há a opção de, no podcast, uma equipe ser composta de redatores e outra de apresentadores e entrevistados.
Em relação ao podcast, adapte a produção aos recursos tecnológicos disponíveis e defina a plataforma de divulgação, reforçando que, mesmo havendo encenação, a gravação do áudio é o produto final obrigatório. Incentive formatos criativos, como entrevistas com o viajante do tempo do curta Barbosa, o pai do viajante do tempo, o próprio Barbosa ou outro personagem identificado pelo estudante. Também poderá ser uma entrevista com um dos estudantes, que se diz vir do futuro – ou que tentou mudar um evento no passado – ou diálogos entre narradores que descrevam outro evento social conhecido, como o 7 a 1 da Alemanha sobre o Brasil na Copa de 2014. Relembrando que essas são sugestões adaptáveis à dinâmica da turma.
Independentemente do produto criado, é essencial que todas as atividades respeitem o tema central da sequência didática, focando na tentativa de mudar o presente através de uma intervenção no passado. Atenção especial deve ser dada a eventos de cunho pessoal, garantindo que a narrativa não gere constrangimento ou desconforto para o público ou os envolvidos. A apresentação e a socialização final desses trabalhos servirão de instrumento crucial para a avaliação da aprendizagem construída ao longo da sequência.
III. CORTA! QUE TAL UM POUQUINHO DOS BASTIDORES?
16º Festival do Cinema Brasileiro, Gramado (RS), 1988: “Melhor montagem de curta nacional”; “Melhor roteiro de curta gaúcho”; “Melhor direção de curta gaúcho”.
21º Festival do Cinema Brasileiro, Brasília (DF), 1988: “Melhor roteiro”.
11ª Jornada de Cinema e Vídeo do Maranhão, São Luís (MA), 1988: “Melhor argumento”; “Melhor roteiro”; “Melhor montagem”; “Destaque do júri”.
10º Festival do Novo Cinema Latino-Americano, Havana (Cuba), 1988: “Melhor curta-metragem de ficção”.
- O estádio do Maracanã (Estádio Jornalista Mário Filho) foi inaugurado em 16 de junho de 1950 para sediar a Copa do Mundo daquele ano. Nasceu como o maior estádio de futebol do mundo, comportando oficialmente cerca de 155 mil pessoas (com recordes de 200 mil presentes). Hoje, por questões de segurança e logística, acomoda 78.838 torcedores sentados.
- O termo docuficção é um neologismo do início do século XXI que designa um gênero híbrido no cinema e no audiovisual. Ele combina a captura da realidade, própria do documentário, com técnicas de encenação da ficção. Essa junção terminológica é amplamente utilizada em festivais internacionais e no contexto lusófono para classificar obras que transitam entre o real e o inventado, rompendo as fronteiras tradicionais entre esses dois campos.
- Segundo Carla do Nascimento Domingues, autora de A ficção e o documentário nos curtas-metragens de Jorge Furtado, a entrevista final de Barbosa é filmada em 35 milímetros com uma luz feita e superdramatizada (super dramatized light), em contraste com as outras cenas. Isso foi feito propositalmente para denunciar a encenação ou a ficcionalidade da tomada, um artifício de ficção usado pelos diretores Ana Luiza Azevedo e Jorge Furtado.
- A música tocada ao final do curta, enquanto se passam os créditos, chama-se “O silêncio e a culpa” e é de Geraldo Flach em parceria com Ana Azevedo, composta exclusivamente para o filme Barbosa.
- Jorge Furtado inspirou-se no livro Anatomia de uma derrota, de Paulo Perdigão, para dirigir o curta-metragem Barbosa. Em entrevista ao jornalista Claudiney Ferreira no programa Jogo de ideias, no canal do Itaú Cultural (IC) no YouTube, o cineasta revelou que frequentemente busca inspiração na literatura para construir seus roteiros.
IV. REFERÊNCIAS
ANA Luiza Azevedo. In: ENCICLOPÉDIA ITAÚ CULTURAL. São Paulo: Itaú Cultural, 2025. Disponível em: enciclopedia.itaucultural.org.br/pessoas/4685-ana-luiza-azevedo. Acesso em: 8 dez. 2025.
CASA DE CINEMA DE PORTO ALEGRE. Barbosa. Porto Alegre, [s. d.]. Disponível em: casacinepoa.com.br/filmes/barbosa. Acesso em: 18 jan. 2026.
DOMINGUES, Carla do Nascimento. A ficção e o documentário nos curtas-metragens de Jorge Furtado. 2005. Trabalho de Conclusão de Curso (Graduação em Comunicação Social) – Escola de Comunicação, Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2005. Disponível em: pantheon.ufrj.br/bitstream/11422/904/1/CDomingues.pdf. Acesso em: 18 jan. 2026.
FURTADO, Jorge. Geraldo Flach. Casa de Cinema de Porto Alegre, Porto Alegre, 7 jan. 2011. Disponível em: casacinepoa.com.br/blog/2011-01-07-geraldo-flach. Acesso em: 8 dez. 2025.
JORGE Furtado. In: ENCICLOPÉDIA ITAÚ CULTURAL. São Paulo: Itaú Cultural, 2025. Disponível em: enciclopedia.itaucultural.org.br/pessoas/805-jorge-furtado. Acesso em: 8 dez. 2025.
JORGE Furtado – Jogo de ideias (2005). [S. l.: s. n.], 2012. 1 vídeo (27min54s). Publicado pelo canal do Itaú Cultural. Disponível em: youtube.com/watch?v=s3sAwqf7_3M. Acesso em: 18 jan. 2026.
PERDIGÃO, Paulo. Anatomia de uma derrota: 16 de julho de 1950 – Brasil x Uruguai. Porto Alegre: L&PM, 1986.
Minibiografia do elaborador
Jèff Jácom’e (ele/dele) é graduado em letras pela Universidade Federal de Goiás (UFG) e roteirista formado pelo Lab Cerrado Criativo – Laboratório de Roteiros de Curta-Metragem. É um dos professores selecionados no Tocantins para o projeto Mostra Tocantins na tela, realizado pela Chambari Produção Cultural em parceria com a Cerrado Criativo, que visa exibir filmes produzidos no estado para estudantes da rede pública.
O CineAula IC Play é um projeto do Itaú Cultural (IC) que consiste na publicação periódica, aqui site da instituição, de sequências didáticas baseadas em conteúdos da IC Play – plataforma de streaming gratuita do IC –, com o objetivo de promover o diálogo entre educação e cinema a partir de diferentes temáticas e da linguagem audiovisual. A iniciativa prevê o desenvolvimento de materiais educativos para subsidiar o trabalho com filmes disponíveis na IC Play em sala de aula, bem como em contextos análogos, como cineclubes, oficinas e centros culturais, buscando, assim, estimular a fruição audiovisual e valorizar o cinema brasileiro. Além disso, pretende aproximar a arte e a cultura da Educação Básica, fomentar o pensamento crítico e criativo dos estudantes e estabelecer um diálogo contínuo com professores da Educação Básica. O projeto foi criado e é coordenado por Camila Fink, Heloísa Iaconis e Tatiane Ivo.
Expediente desta sequência didática
Conselho editorial Heloísa Iaconis e Tatiane Ivo
Autoria Jèff Jácom’e (selecionado via edital)
Edição Bruna Martins (terceirizada)
Revisão Rachel Reis (terceirizada)
Confira aqui as sequências didáticas da primeira edição do CineAula IC Play.