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Cinema negro brasileiro, o hoje e o amanhã – parte 1

Gabriel Martins conversa com Tatiana Carvalho Costa, presidente da Apan, sobre as lutas e o protagonismo negro no audiovisual

Publicado em 04/07/2024

Atualizado às 12:06 de 04/07/2024

Por Gabriel Martins

A luta negra brasileira é histórica, permanente, complexa e viva. Ela acompanha a história do país de olho em um futuro mais justo para quem, no solo brasileiro, sofreu um processo de escravização e exploração extremamente violento e que deixou marcas visíveis no presente. No campo das artes, o cinema talvez seja o lugar no qual mais se nota a covardia da elite branca brasileira que soube, calculadamente, manter as câmeras longe do artista negro. Ela soube filmá-lo a seu bel prazer quando o seu corpo servia para anunciar as dores de um país desigual, mas muito raramente buscou entender a visão de mundo do negro, do povo, de quem forma as bases de sustentação do país. O cinema que filmou a tragédia negra nunca quis dar passos efetivos para tentar resolvê-la.

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Essa crise não mudou, embora exista um efeito dos últimos anos que anuncia, superficialmente, que uma grande revolução se deu no Brasil. Foram dados passos significativos e importantes que podem abrir caminhos para um futuro diferente. Muita gente lutou para que cineastas como eu pudessem trabalhar agora, filmando ou mesmo escrevendo um texto como este que você está lendo. Dessa luta, surgiram instituições como a Associação de Profissionais do Audiovisual Negro (Apan), que se identifica como uma instituição de fomento, valorização e divulgação de realizações audiovisuais protagonizadas por pessoas negras, bem como promoção desses profissionais para o mercado audiovisual.

Mulher negra aparece de pé, usando roupa branca de malha, com gola rolê folgada. Ela está com as duas mãos nos bolsos da roupa e por cima usa um kimono amarelo. Ela usa também um colar e uma pulseira prateados. Seus cabelos são crespos e na altura do queixo.
Tatiana Carvalho Costa, presidente da Apan (imagem: Joyce Prado)

 

Para este texto, eu entrevistei brevemente Tatiana Carvalho Costa, atual presidente da Apan. Além da função formal, política, ela é uma pesquisadora de cinema negro que tem como projeto de doutorado a pesquisa "QuilomboCinema modulações da experiência negra com e no cinema brasileiro contemporâneo". E Tatiana também faz parte de processos importantes de curadoria, como o da Mostra de cinema de Tiradentes, cuja comissão seletiva de curtas e longas-metragens ela já integrou. A conversa explorou o presente e o futuro do cinema negro brasileiro, com base em dados, observações e diálogos no meio.

Uma das primeiras questões que levantei foi sobre o aumento da expressividade na produção e na participação de autores negros no cinema, especialmente a partir de 2016. Tatiana atribui isso à luta do movimento negro, que inclui o Estatuto de Igualdade Racial e que se refletiu em políticas públicas, muitas delas implementadas durante os governos Lula I e II e Dilma I. Essas políticas de ação afirmativa e de redução da desigualdade social permitiram o acesso à universidade pública por meio de cotas, além de facilitarem o ingresso em universidades privadas pelo Reuni [Programa de Apoio a Planos de Reestruturação e Expansão das Universidades Federais] e pelo Prouni [Programa Universidade para Todos]. Em relação às instituições particulares, é importante destacar que oferecerem cursos noturnos possibilitou que muitas pessoas que trabalham durante o dia, muitas vezes com responsabilidades no orçamento doméstico, também pudessem realizar o ensino superior com bolsa integral ou parcial.

Há também, nesse período, como aponta Tatiana, o surgimento de cursos de cinema essenciais, como o da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB), localizada em Cachoeira/BA, que tem uma presença significativa de pessoas negras em razão da região onde está inserida. Vem de lá, inclusive, uma série de trabalhos essenciais para o catálogo da produção negra contemporânea, destacando-se o trabalho em longas-metragens de Glenda Nicácio, diretora negra pela Rosza Filmes empresa da qual ela também é sócia. A oferta de cursos de cinema, inclusive, permaneceu em um processo de crescimento entre 2016 e 2020, aumentando em 111,4%, de acordo com dados do Forcine [Fórum Brasileiro de Ensino de Cinema e Audiovisual], o que demonstra um evidente progresso no setor em múltiplas frentes.

Tatiana também destaca os Pontos de Cultura, um projeto do Ministério da Cultura responsável por oferecer formações não acadêmicas, mas essenciais, em comunidades de baixa renda. Esse projeto proporciona acesso a equipamentos audiovisuais, cineclubes, formação educativa e produção audiovisual. Tatiana lembra que muitas cineastas negras, como Yasmin Thainá e Milena Manfredini, frequentemente mencionam os Pontos de Cultura como ferramentas essenciais antes ou paralelamente à universidade, permitindo o contato com o audiovisual e oportunidades para produzir, testar, praticar, cometer erros, repetir, ouvir e ver.

Junto com todas essas políticas públicas, Tatiana destaca a militância da intelectualidade negra, que pressionou por uma maior circulação de saberes negros no audiovisual e nas artes em geral. Isso inevitavelmente se refletiu em uma mudança no mercado editorial, que passou a investir na publicação de intelectuais negros brasileiros e internacionais. Nunca se leu tanto sobre o pensamento negro no Brasil como hoje. Em um shopping center próximo à minha casa, por exemplo, a livraria Leitura tem, na sua bancada mais perto da entrada o que se entende como um lugar de destaque , obras de autoras negras como Beatriz Nascimento, Conceição Evaristo, Grada Kilomba e Djamila Ribeiro. Isso demonstra que há um público consumidor menos discreto do que antes, impulsionado de maneira bastante contundente pelo movimento negro – o qual conseguiu até pressionar grandes veículos midiáticos, como a Globo, a produzir mais conteúdo com personagens negros em mente. Isso também resultou em uma maior presença de criadores negros dentro desses espaços, um aspecto que exploraremos mais à frente.

 

 

Imagem com fundo branco e gráficos em tons de azul e verde mostra dados sobre distribuição de emprego no setor audiovisual.
Gráfico mostra distribuição de emprego no setor audiovisual (imagem: Ancine)

 

Diante de um cenário positivo de mudanças, um dado ruim se destaca. Apesar de um número expressivo de novas autorias no meio, as políticas públicas não conseguiram contemplar esse aumento e percebe-se, por dados da Agência Nacional do Cinema [Ancine], que ainda há uma discrepância grande entre negros e brancos na divisão da fatia do bolo  número que vai se refletir também na minúscula presença indígena, que, neste texto, não tratarei especificamente. De acordo com Tatiana e com dados como os dos gráficos aqui mostrados, apesar do aumento de pessoas negras trabalhando com audiovisual, há uma diferença significativa na proporção entre negros e brancos, assim como disparidades salariais muito evidentes. Na TV aberta, por exemplo, a disparidade salarial revela que, enquanto esse setor tem a maior quantidade de pessoas com trabalhos regulares no audiovisual, a grande maioria não está em funções de criação.

 

Imagem branca com dados sobre a distribuição de emprego no setor audiovisual em gráfico com detalhes em cinza, azul e verde.
Remuneração média mensal por raça ou cor (imagem: Ancine)

 

Ainda sobre o problema anterior, Tatiana reflete sobre um período de dez anos, entre 2011 e 2021, com base nos dados dos gráficos da Ancine aqui colocados: o número de profissionais negros registrados na Ancine cresceu de 31,4% para 39,2%. O de profissionais brancos diminuiu de 67,4% para 59,5%. Mas ela destaca que, apesar de uma aparente diminuição na proporção, a quantidade não se altera a ponto de podermos dizer que os profissionais brancos cederam espaço, já que o setor, como um todo, cresceu 700%. No campo de projetos inscritos e aprovados em editais públicos, os números assustam ainda mais, principalmente entendendo-se que, quanto maior o orçamento, menor a participação negra na divisão. No estudo feito entre 2018 e 2021, vemos que, na faixa de orçamentos acima de 5 milhões, a proporção entre raças é de 92,8% de brancos na direção contra 4,9% de negros. Em roteiro, o número de brancos aumenta ainda para 94,2%, enquanto o de negros se mantém.

 

Imagem branca mostra gráfico com detalhes em azul, verde e cinza, em menor destaque.
Projetos contratados em chamadas públicas (imagem: Ancine)

 

 

Esses dados alarmantes nos levam a entender como a desigualdade se perpetua quando levamos em conta um setor que cresce muito, mas não reflete a proporção racial da sua sociedade. A participação de pessoas negras no acesso ao trabalho nesse setor ainda é imensamente desproporcional, um fato que não podemos mais ignorar e que deve ser trazido à discussão se desejamos uma indústria, um mercado, um ambiente de criação minimamente justo. Coloca ainda um adendo pensando em como esse movimento feito para destacar a produção negra proporcionou também uma cooptação de poucos autores para projetos maiores dentro de produtoras grandes e já consolidadas, o que, de alguma forma, reforça um aspecto de exclusão e exceção versus uma real política estruturante, algo que Tatiana destaca também como essencial para pensarmos minimamente um futuro negro para o cinema.

Imagem branca com lista apontando a participação por raça em projetos audiovisuais. Há detalhes destacados em azul e branco.
Tabela mostra a participação por raça em projetos audiovisuais (imagem: Ancine)

 

 

Deixo aqui este primeiro texto com esses dados para que, no seguinte, possamos falar mais sobre o futuro. Sinto que o cinema brasileiro vem construindo, com o tempo, uma possibilidade de unidade estrutural política com os conselhos de fóruns e grupos de discussão que, a cada dia, viabilizam uma construção de políticas efetivas menos sujeitas às inevitáveis intempéries políticas de um país e um mundo em guerra. Mas há um cinismo a ser vencido também, assim como a imobilidade diante de um assunto, a racialidade, que frequentemente é tomado como passageiro. Artistas negros resistiram à pandemia e ao governo Bolsonaro, e estão ávidos por se expressar de maneiras nunca antes vistas em nossa cultura. Isso não é simples nem rápido, mas, para entendermos a dimensão dessa revolução cultural, precisamos fazê-la acontecer. Amparando as vozes negras que surgem de diversas partes do Brasil, ampliamos a nossa perspectiva de mundo e fazemos justiça àqueles que formam a base estrutural da nossa sociedade.

 

 

Coluna escrita por:

Gabriel Martins

Gabriel Martins

Cineasta mineiro. Seu filme mais recente é Marte um.
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