por Um Por Todos - Tulipa Ruiz

Sempre fui perdidamente apaixonada por muita gente que passou pela minha vitrola. Pegava os discos dos meus pais e mergulhava neles. Primeiramente, investigava a capa, só depois ouvia o som. Se o disco batesse, eu mergulhava na ficha técnica e nas letras. Engolia tudo. Caso me apaixonasse, imaginava que eu era da banda e inventava mil histórias e turnês. E, caso conseguisse fazer a cabeça de alguém sobre algum disco que amasse, a pessoa certamente se apaixonaria por mim. Fato.

Passei a adolescência gravando mixtapes para dar de presente para amigos e paqueras na certeza de que, se ouvissem aquela seleção de músicas, consequentemente entenderiam tudo sobre mim. Claro que ninguém nunca desvendou minha alma por conta daquelas fitas e aquilo era apenas mais um grande devaneio meu. As minhas mixtapes escancaravam as minhas subjetividades. Pense numa viagem.

Até pouco tempo, eu achava que a minha compatibilidade afetiva com amigues e crushs deveria passar por uma afinidade musical. Uma vez fui embora da casa de um boy no meio da madruga, porque ele defendia o trabalho artístico de uma banda que para mim era supercomercial. Sempre tive dificuldade em ver alma em produto. Normal. Mas depois me arrependi de ter saído fora da discussão e me vi preconceituosa. Gosto musical antropofagiza memória afetiva e isso deve ser respeitado. Na época, eu não tinha o conceito de alteridade tão desenhado em mim e não mensurava que a diferença que existe entre uma pessoa e outra é um tesouro que nos faz fascinantes.

Hoje em dia, respeito todos os gostos musicais. Como diz Hermeto Pascoal, tudo dá um som. Mas o papo, na real, nem era esse. Afe, como o contemporâneo me dispersa. Mas a cabeça é hipertextual, né, fazer o quê? Você começa a escrever um lance baseado nos seus primeiros alumbramentos com a música, daí vem Dionísio e ditadura e você perde o fio da meada. Um clássico. Terapêutico perder o fio da meada. O contemporâneo é esse emaranhado de coisas mesmo. E a arte alinha e desalinha a gente. Quer massagem melhor do que essa?

Massageada em artes, taí. Essa é minha formação. Graduada no agora e massageada em artes. Talvez seja por isso que eu tenha recebido o irresistível convite para escrever esta coluna. Coluna. Substantivo feminino que automaticamente me alinha. Libriana que sou, fiquei seduzida pelo equilíbrio da palavra. Topei.

O primeiro frame deste texto é a minha vitrola. A ideia era recortar de cada vinil as figuras que me são atemporais. Que sempre vão morar no meu agora. São várias, o quadro ficou enorme. Uma vitrola ensina a gente que o mundo é infinito. E que dentro da gente cabe Alagoas e o Clube da Esquina, Liverpool e Capão Redondo. Cabe ópera e cabe pagode. Como pode? Com Baby do Brasil aprendi que é muito legal ter uma banda. E que o lugar de uma cantora é dentro dela e não separada, ali na frente do palco. Com Joni Mitchell percebi que a música pode escorrer em outras linguagens e passei a ouvir o som das aquarelas. Ná Ozzetti me fez chorar com música pela primeira vez. Ouvir Gal me deu vontade de cantar. Joyce foi a primeira mulher que ouvi tocando violão. Zezé Motta me fez dançar.

Só no agora, esse lugar lindo, vi que fiz um quadro de mulheres. E são elas que me mostram que a música é um grande cajado cravejado de espiritualidade, ancestralidade e trabalho. O Brasil é um país respeitado por suas (maravilhosas) intérpretes. E que deve ser reconhecido também por suas autoras. Essas mulheres me enchem de coragem. As que produzem, desenham e tocam. As que cantam e gritam. As que cantarolam. Eu me sinto muito inspirada e nutrida por perceber que na minha formação existem cantoras, compositoras e instrumentistas muito poderosas e que a força delas nos leva para um caminho cheio de subjetividades. Infinitas. Nenhuma mixtape daria conta de tanta poesia.

Músicas que me passaram pela cabeça enquanto eu paria este texto e/ou afe, fiz mais uma mixtape…

Grupo Rumo “Falta Alguma Coisa
Baby Consuelo “Sonho Alegre
Maurício Pereira “Um Dia Útil
Zezé Motta “Babá Alapalá
Joni Mitchell “People's Parties
Joyce, “Mistérios

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