por Ramon Vitral

O quadrinista Julio Shimamoto sumiu durante 18 dias em 1969. Amigos e familiares não tiveram notícias e desconheceram o paradeiro do artista por pouco mais de duas semanas. Ele fora visto pela última vez saindo para seu horário de almoço na agência de publicidade na qual trabalhava, em São Paulo. Abordado por dois agentes federais, foi colocado em um camburão e sumiu. “Se eu desaparecesse naquele quartel, torturado e morto, ninguém no mundo ficaria sabendo”, diz o autor, hoje aos 81 anos, quando pergunto sobre o ocorrido.

Página de "O Ditador Frankenstein e Outras Histórias de Terror, Torturas e Milicos", coletânea com HQs de Julio Shimamoto sobre a ditadura (imagem: Divulgação/MMArte)

Shimamoto foi levado para a sede paulista da Operação Bandeirante (Oban). Segundo o Arquivo Nacional, a Oban tinha o “objetivo de identificar, localizar e capturar militantes considerados ‘subversivos’ pelo regime” e era composta de militares do Exército, da Marinha e da Aeronáutica, policiais federais, agentes do Serviço Nacional de Informações e policiais da Delegacia de Ordem Política e Social (Dops). “Oficialmente sem dotação orçamentária, a Oban recebeu recursos de empresas privadas brasileiras e de multinacionais para o seu funcionamento”, diz o texto do Arquivo Nacional.

Após 13 dias na Oban, o quadrinista foi transferido para a sede estadual do Dops, principal órgão de repressão e tortura da ditadura brasileira, e lá ficou por mais cinco dias. “Foi uma experiência terrível e única, igual a pesadelo desperto”, lembra Shimamoto. “Imagine ser detido no meio de seu trabalho cotidiano e ser levado preso e jogado num xadrez sujo, sem água na pia, sem leito, sem chuveiro e sem vaso na privada (apenas um buraco sobre o esgoto), e uma única refeição por dia, temperada com salitre para inibir sua libido, servida em prato encardido, mal lavado de propósito para abater sua moral e dignidade.”

Ele continua: “Tinha de dormir no chão sobre uma folha de jornal, assaltado pelas pulgas. A insônia era provocada pelos gritos lancinantes, principalmente de mulheres que estariam sendo torturadas. Isso em 1969; a Oban era dirigida por [Carlos Alberto] Brilhante Ustra, coronel carniceiro”.

A motivação por trás da prisão de Shimamoto foi a presença de seu nome em uma lista de amigos e colegas de profissão que doaram dinheiro para um publicitário exilado na Europa. As lembranças e os traumas que o quadrinista tem desse período foram representados graficamente pelo artista, por meio de materiais como pincel, bico de pena, palito de dente aerógrafo e água sanitária, nas 12 HQs impressas na coletânea O Ditador Frankenstein e Outras Histórias de Terror, Tortura e Milicos. A publicação da editora MMArte foi organizada pelo pesquisador, músico e quadrinista Márcio Paixão Júnior.

Nascido em Borborema (SP), Shimamoto é um dos grandes dos quadrinhos nacionais. Contemporâneo de Mauricio de Sousa e Jayme Cortez, publicou a tira O Gaúcho na Folha de S.Paulo nos anos 1960 e ilustrou HQs de fantasia, terror e samurais para editoras como Vecchi, Grafipar, Bloch e RGE. No final de 2019, foi o autor homenageado no espaço destinado aos quadrinistas da Comic Con Experience, convenção de cultura pop em São Paulo apontada como o maior evento desse tipo no mundo em termos de presença de público.

Apenas uma das 12 histórias que compõem as 220 páginas em preto e branco de O Ditador Frankenstein foi produzida antes do golpe militar de 1964. O Gêmeo, de 1960, é protagonizada por um presidente torturador de um pequeno país, antevendo os ares ditatoriais crescentes que cercavam a América do Sul na época.

A capa de "O Ditador Frankenstein e Outras Histórias de Terror, Torturas e Milicos", coletânea com HQs de Julio Shimamoto sobre a ditadura (imagem: Divulgação/MMArte)

Obra que dá nome ao álbum, O Ditador Frankenstein foi publicada originalmente no 26o número da revista Spektro, de 1982. Trata-se de uma parceria de Shimamoto com o roteirista Luiz Antonio Aguiar, sobre um cientista que cria um tirano a partir de partes dos corpos de três militares recém-falecidos que comandavam um país.

Com apenas duas páginas, A Maldição do AI-5 saiu encartada na 461a edição do Pasquim, do dia 28 de abril de 1978, e conta com arte de Shimamoto e roteiro do cartunista e escritor Nani e do cartunista e comediante Reinaldo. A HQ narra a investigação de um jornalista que suspeita do boato de “forças ocultas e poderosas se articulando para institucionalizar o medo e o terror em uma aldeia”.

Entre os antagonistas mais habituais dos militares que protagonizam as HQs estão jornalistas incapacitados de exercer suas atividades e revolucionários oprimidos pelas forças ditatoriais. “Havia o risco de cairmos na malha da censura, mas também era insuportável o sentimento de repulsa em relação ao regime de força a que todos estávamos submetidos. Externar essa insatisfação nos quadrinhos era a nossa forma de protestar e expurgar nossa contrariedade”, diz Shimamoto sobre o impulso por trás da produção dessas histórias. “Sinto muito orgulho de ter exercido meu papel de cidadão, servindo-me da arte como arma de protesto.”

Shimamoto não apenas externou sua repulsa à ditadura nas HQs reunidas em O Ditador Frankenstein. O livro serve de amostra do domínio narrativo e da diversidade de técnicas do autor. Seu traço varia de quadrinho para quadrinho, os designs das páginas são alternados entre cada HQ, e também fica explícita a pluralidade de materiais utilizados por ele.

“O desenhista também pode acabar virando canastrão se seguir produzindo no modo ‘piloto automático’. Ninguém gosta de repetir o mesmo prato todos os dias. Ao buscar um traço distinto para cada trabalho, sinto-me desafiado e bastante motivado”, conta-me o autor. Ele ainda se diz feliz por ver alguns de seus trabalhos de décadas atrás republicados e acessíveis a novas gerações, podendo ajudar leitores mais distraídos a “enxergar o sinal amarelo de nosso cotidiano político”.

Encerrei a minha conversa com Shimamoto perguntando se ele é otimista em relação ao nosso futuro. A resposta veio acompanhada de um balanço sobre suas oito décadas de vida e da revelação de que ele não pretende voltar a produzir histórias em quadrinhos. Mas o artista não cogita a aposentadoria e tem planos de continuar experimentando diferentes técnicas de ilustração.

“Acho maravilhoso estar vivo, apesar dos meus 81 anos de vida. As coisas que vivenciei até agora, boas e más, fazem parte desse fenômeno que é viver. Sei que não viverei muito tempo, e estou sendo muito sovina com o tempo que me resta, e não planejo mais fazer quadrinhos, salvo alguma exceção extraordinária. Estou ilustrando capas e fazendo ilustrações avulsas, mas o que prezo mesmo é lidar com ferramentas até quando eu tiver forças e lucidez. O mundo não será pior nem melhor, será sempre o que foi, com gerações se revezando em conflitos e em paz. Com pandemia ou sem pandemia.”

Duas páginas de Brisa Errada, álbum independente da quadrinista Amanda Treze (imagem: divulgação)

Três perguntas para… Amanda Treze, autora do álbum Brisa Errada

A nona edição da seção que encerra Sarjeta tem como convidada a quadrinista e ilustradora Amanda Treze, autora do álbum independente Brisa Errada.

O que você vê de mais especial acontecendo na cena brasileira de quadrinhos hoje?

Acho que está rolando certa democratização na distribuição de quadrinhos por causa das redes sociais. Isso possibilita que mais quadrinistas independentes mostrem seus trabalhos, e o efeito colateral disso é uma comunidade artística que se comunica e se apoia.

Como leitora e autora, o que mais lhe interessa hoje em termos de histórias em quadrinhos?

Faço parte de uma geração que cresceu assistindo a filmes de princesas e heróis. As histórias que mais me atraem atualmente são as que fogem da fórmula colonizadora. Narrativas que demonstram identidade de seu povo e de sua época.

Qual é a memória mais antiga que você tem da presença de quadrinhos na sua vida?

Acho que todo brasileiro foi alfabetizado com Turma da Mônica, e eu não fujo muito disso. Entretanto, minhas memórias mais antigas são lendo quadrinhos do Tio Patinhas e do Zé Carioca. Lembro de achar aquela narrativa chata e os desenhos detalhados demais, mas meu pai censurou por um bom tempo Turma da Mônica, porque tinha medo de eu crescer falando errado igual ao Cebolinha.

Veja também