por Heloísa Iaconis

Ainda menina, coisa de infância mesmo, Ana Cristina Cesar já era tomada pelas palavras. Insistir na maldade de escrever é, portanto, obstinação antiga da poeta: apesar de ser um processo penoso, Ana C. não abandona a escrita. Com rigor e paixão (rigor de quem esculpe letras e paixão como um caminho até a outra pessoa), ela cria um lugar de intimidade para onde conduz seus leitores. E, sendo íntimo (um íntimo criado), esse espaço de versos deixa que se sinta tudo: encantamento, inquietação, estranheza, angústia. Perguntas, que se sintam perguntas contínuas (e que dispensam pontos de interrogação), a exemplo das que Angélica Freitas, também poeta, acaba por fazer quando descobre Ana C. em 1989 (seis anos depois da morte da escritora marginal):


quem é ela
o que é isto
quem sou eu¹


No caso de Mariana Cobuci, vem primeiro certa irritação: que poemas são esses? Porém, com o tempo, Mariana, doutoranda em letras na Universidade de São Paulo (USP), acha na artista um arroubo de vida. Autora de Sob o signo da paixão: a poética de Ana Cristina Cesar (2021), livro resultante de sua dissertação de mestrado, a pesquisadora conversa com o site do Itaú Cultural (IC) graças a uma dupla celebração: 2022 marca 70 anos do nascimento de Ana C. e 40 da publicação A teus pés (1982), a única obra que a poeta lança por uma editora. Os 70 anos, aliás, são coisa de hoje, hoje mesmo, 2 de junho, e correspondem mais a um convite (como os que a homenageada compõe em seus textos): vamos ler, estar com, encontrar Ana C.?

Edições de Poética (reunião de poemas) e A teus pés | foto: Heloísa Iaconis

Quando você teve o primeiro contato com a obra de Ana Cristina Cesar? E o que a levou a estudá-la?
O meu primeiro contato com a poesia de Ana Cristina Cesar foi durante a graduação em letras, na USP, em uma disciplina que tratava da poesia marginal dos anos 1970, ministrada pela professora Viviana Bosi. Os poemas dela me irritaram – aquela fragmentação toda, aquela agitação, aqueles convites. Mais tarde, quando comecei a pensar em fazer mestrado, lembrei dessa obra que me provocava, e me pareceu uma boa ideia investigar essa irritação.

Em um manuscrito de 1981, Ana C. traz a questão: escrever para quem? O que essa pergunta revela sobre a produção da poeta?
Em Ana C., questões são lançadas não com o objetivo de encontrarem a verdade, nada em seus textos carrega esse desejo de explicação, de resposta exata. É bem o contrário: os seus poemas preferem a dúvida, os desvios, o blefe. A pergunta “escrever para quem?”, que ela formula em um manuscrito datado de 1981 (um ano antes da publicação de A teus pés) e que ressurge em uma fala proferida na Faculdade da Cidade em 1983, vem de um desejo de interlocução que, de certo modo, orienta a sua poética. Ao formular uma questão desse tipo, Ana Cristina reflete sobre que leitor é esse que lê poesia e no que ele poderia se diferenciar ou se aproximar do “leitor preciso” (como o destinatário determinado de uma carta) ou do “leitor indiscreto” (aquele que rompe o fecho do diário de alguém). Trata-se, então, de uma questão a respeito do funcionamento, como ela mesma disse, meio louco da poesia, e do drama e da delícia que acompanham esse gesto de escrever para não se sabe quem. Um questionamento cujas respostas são os próprios poemas (a sua forma tensa, o seu ritmo sobressaltado, a sua montagem), que não cessam de jogar com o problema da interlocução e da destinação do poema. Mas o que essa questão também nos diz acerca da produção da poeta, e talvez seja isso o mais importante, é o seu investimento no exercício de fazer perguntas (vi recentemente uma publicação do poeta Carlito Azevedo em que ele diz que, em A teus pés, há 70 delas!) – interrogações que não querem um ponto-final, porque desejam outras e outras e outras interrogações.

A paixão é um dos grandes motivos dos versos de Ana C. Como ela mobiliza essa tópica como tema e método?
A paixão, como desejo alucinado de mobilizar o outro, atravessa a produção da poeta e se formaliza, de maneira complexa, no ritmo truncado, acelerado dos poemas, nas suas várias elipses, nas interrogações, nos travessões que os abrem para várias vozes, nas inúmeras citações sem aspas, no insistente chamamento ao outro e no descentramento da voz poética. É por meio dessas várias técnicas (em Ana C., há uma paixão pela técnica e uma técnica apaixonada – o poema é “jazz do coração”) que o drama da interlocução e do endereçamento do texto poético, que compõem a sua ideia de paixão, se apresenta. Se pensarmos, por exemplo, o ritmo veloz e truncado de muitos dos seus poemas, vemos que, se por um lado ele dificulta a sua apreensão, por outro, a favorece. O ritmo rápido dado pela sequência de orações curtas e/ou pelo recurso do enjambement nos poemas coloca o leitor na mesma vibração acelerada desses textos. Assim, Ana Cristina realiza a passagem de um dizer a para um estar com, técnica apaixonada que almeja a experiência da mobilização do outro pela leitura, formalização que anseia por um encontro – sem perder, contudo, a consciência dos limites da linguagem. 

Ana C. trabalha com a literatura também a partir da tradução e da crítica. Como esses outros ofícios influenciam o fazer poético da artista?
Ana C. era poeta-crítica, poeta-tradutora, poeta-pesquisadora, poeta-professora, sempre em constante atualização. Essas atividades, para ela, não eram “pano de fundo”, coisas distantes, que forneciam apenas “abordagens, defesas e opções temáticas”, mas “material de composição” para o seu fazer poético. Nesse sentido, Ana Cristina não era poeta e outras coisas: ela misturava, incorporava, porque a realidade, como ela mesmo pontuou, não chega “em níveis hierarquizados, em instâncias”. Dessa forma, na sua poesia, tradução e crítica estão entranhadas (e vice-versa) e esse é um dos aspectos mais impressionantes da sua produção, algo que a diferencia dos seus colegas da Geração Marginal. Em A teus pés, vemos, com espanto, a articulação de todos esses fazeres – poemas que se constroem a partir da tradução de um outro poema de um outro autor, poemas atravessados por outras línguas, poemas que formalizam as suas reflexões a respeito do ato tradutório (a tradução não como um exercício de fidelidade, mas como um arroubo de paixão, uma confusão entre vozes), além das suas reflexões (que podemos encontrar também na sua pesquisa de mestrado, da qual se origina o livro Literatura não é documento) sobre os limites entre verdade e ficção, interioridade e exterioridade e outras tantas questões críticas.

70 anos depois, Ana C. fala com a sensibilidade deste tempo? Por quê?
Não saberia dizer aqui o que é a sensibilidade do nosso tempo. Mas sei que há muitos, e cada vez mais, leitores de Ana Cristina Cesar. Vários são poetas e críticos (penso, por exemplo, em Marcos Siscar), que reconhecem haver em Ana Cristina questões fundamentais para a poesia (como o drama da destinação e o problema da interlocução, os quais mencionei antes). Acredito que a sua poética ansiosa por contato, mas que joga com o “teatro da intimidade”, arranca os leitores da passividade (ao provocá-los, irritá-los) e os convida a seguir pensando.

Quem é Ana C. para você?
Sempre que falamos de um poeta, dos seus textos, estamos falando do que eles são “para mim”. Para mim, Ana C. é um arroubo de vida. Desconheço outro texto que tenha me desejado tanto. Ainda que a sua obra problematize a ideia de sujeito, ou talvez por isso mesmo, existe nela um traço forte de que, embora não seja possível nem interessante afirmar quem é esse alguém que escreve e que lê, é impossível esquecer de que há alguém. Os seus textos trazem a marca de um pensamento vivo, urgente, de alta dimensão crítica. Sem temer “o ridículo de passar bilhetes pela porta”, Ana C., porque recusa “ninharia”, lança-se como ninguém para que o leitor enfie a carapuça e cante e responda aos seus textos. A poesia de Ana Cristina, para mim, é uma poesia que tenta de todo modo escapar da indiferença, que forja brechas, que faz furos para que os textos se rocem, se movimentem. Uma poesia que deseja, apaixonadamente, que algo aconteça.

Quem é Mariana Cobuci enquanto leitora de Ana C.?
O texto de Ana C. é também um convite ao descentramento. Logo, com os seus poemas, podemos aprender o exercício de abandonar o nome próprio (e o sobrenome!) para experimentarmos essa confusão produtiva de vozes que a poeta defende e propõe a todo momento. Tento fazer isso. Digo sim (há alguns anos) aos seus convites (que nem sempre são gentis: há também bastante agressividade nos seus textos). Tento responder a eles criando outros textos (que, por sua vez, igualmente desejam outras vozes). Acho que ser leitora de Ana C. é inventar fôlego, ser desdobrável, reconhecer a leitura como uma atividade criativa, experimentar, jogar com os textos próprios e alheios e, sobretudo, desconfiar do que é próprio e alheio.

¹ Trecho do poema “ana c.”, de Angélica Freitas.

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