por Heloísa Iaconis

Quem está construindo um Brasil leitor? Essa pergunta é o cerne da pesquisa O Brasil que Lê, iniciativa da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-RJ), em parceria com o Itaú Cultural. O intuito é mapear projetos que promovem a leitura, estando eles em andamento ou já concluídos. Entre os que já responderam ao estudo, destacam-se, por exemplo, quatro iniciativas: Toda Hora Tem História, de Penélope Martins; Lendo Literatura Brasileira, de Álvaro Domingues; Casa de Leitura Soraya Pamplona, de Soraya Pamplona; e Biblioteca de Muro, de Jailson Cordeiro. Conheça esses trabalhos nas palavras de seus criadores.

Para participar da pesquisa O Brasil que Lê, clique aqui.

Toda Hora Tem História (@todahoratemhistoria)
por Penélope Martins, de São Paulo

Como se deu sua relação pessoal com a leitura?
Minha experiência leitora inicial aconteceu por meio da canção brasileira. Na esfera familiar, eu não tinha contato com pessoas com estudo formal nem com muitos livros em casa. No entanto, era algo cotidiano contar histórias, cantar, ouvir música, juntar todos para brincarmos no quintal. Eu me tornei leitora tendo essa percepção das vozes humanas ao meu redor, lendo, nas palavras do papel, a possibilidade de novas conversas. O livro passou a ser um lugar de encontro dentro de mim.

Qual a trajetória do Toda Hora Tem História?
Toda Hora Tem História existe há mais de dez anos. Criei o blog para “cronicar” sobre minhas experiências com leitura, ampliando o debate em prol do desenvolvimento leitor. Não se tratava de fazer um release do volume indicado, mas, sim, de misturar o contar histórias com mergulhos em obras literárias. Durante sete anos, essas colunas escritas no blog foram compartilhadas por um jornal do ABC Paulista, cujo público era predominantemente de metalúrgicos – o que enriqueceu o princípio condutor da iniciativa (ler junto, ler com a história de todos, ler escapando de armadilhas que elitizam a experiência com livros). Neste ano, depois de tanto tempo escrevendo sobre livros, o projeto ganhou a forma de podcast. Convido crianças de 0 a 137 anos, como costumo dizer, com o objetivo de trocar saberes e valorizar a escuta.

Podcast Toda Hora Tem História | foto: divulgação

Quais são os próximos passos do projeto?
O desafio agora é produzir o podcast – gravar, editar, publicar com uma arte cada novo episódio. Desde 26 de janeiro, um novo programa vai ao ar às terças-feiras, disponível em agregadores diversos. As três primeiras temporadas têm apoio da Lei Federal Aldir Blanc, financiadas pelo Fundo Municipal de Cultura de Santo André. Por esse motivo, a equipe pode ser ampliada: deixei de fazer tudo sozinha para somar forças com gente muito talentosa e comprometida, como Liora Mindrisz (divulgação e produção), Odirlei Regazzo (identidade visual) e André Martins, meu filho (edição de áudios).

Como você percebe a leitura no Brasil?
Minha conversa sobre leitura sempre começa assim: “Somos todos pessoas leitoras do mundo”. Essa percepção é maior do que a experiência com esse ou aquele objeto ou linguagem. Nossa cultura é vasta, diversa, plural, rica, e muitos são os caminhos para o desenvolvimento de cada um, para que a autonomia crítica se forme e se perpetuem indagações. Sou otimista com relação à chegança do livro na vida das pessoas, porque ele se dá em um cenário desafiador: um país que foi brutalmente colonizado, o último a romper com o ciclo da escravização do povo negro (e que, infelizmente, ainda o fez de maneira vil), jogando muita gente para as margens da sociedade, um lugar sem oportunidades para todos, com uma crise séria de identidade que massacra os seus em razão do gênero ou da orientação sexual. Apesar disso, sou otimista, porque valorizo a cultura nacional e as narrativas de cada indivíduo. Tento, como autora, mediadora e, principalmente, como leitora, mostrar que os livros estão para nós e existem a partir de nós – por isso, eles são nossos possíveis espelhos.  

Lendo Literatura Brasileira (@alvarobooks)
por Álvaro Domingues, de Minas Gerais

Como se deu sua relação pessoal com a leitura?
Não nasci em um “berço literário”. Minha paixão surgiu da curiosidade em me encontrar nos livros. Foi assim que, durante minha adolescência, pelos corredores de uma escola pública, começou minha relação com a leitura. Ler, para mim, é pesquisa, trabalho, entretenimento e, sobretudo, esperança de ressignificar meu modo de estar no mundo.

Qual a trajetória do Lendo Literatura Brasileira?
Meu amor pela literatura nacional veio também na adolescência. Em 2016, passei a compartilhar esse afeto nas redes sociais. Com o passar dos anos, essa troca foi aumentando até que, em 2018, comecei o Lendo Literatura Brasileira, grupo de leitura coletiva. Nós nos reunimos com frequência, através de videochamadas, para humanizar ainda mais nossas interações. Disponibilizo textos de apoio, faço cronograma, curadoria e mediação.

Álvaro Domingues, criador do projeto Lendo Literatura Brasileira | foto: divulgação

Quais são os próximos passos do projeto?
Hoje, o Lendo Literatura Brasileira é um clube de leitura coletiva que acontece através das redes sociais. Porém, com o apoio efetivo do projeto no Catarse, além de parcerias com organizações públicas e privadas, o projeto pode passar para o presencial.

Como você percebe a leitura no Brasil?
Meu sonho seria dizer que a leitura no Brasil é incrível, mas estaria sendo parcialmente incoerente. Sendo pedagogo, entendo que a leitura do mundo precede a leitura da palavra. Portanto, não há como promover uma prática de leitura literária libertadora enquanto enxergamos essas experiências apenas de maneira mecânica. Entretanto, o que tem me inspirado é ver vários professores e iniciativas despertando a imaginação, a curiosidade e o senso crítico de leitores.

Casa de Leitura Soraya Pamplona (@casadeleiturasoraya)
por Soraya Pamplona, do Rio de Janeiro

Como se deu sua relação pessoal com a leitura?
Minha relação com a leitura começou cedo, com minha mãe me incentivando desde pequena, me levando a bibliotecas públicas e me dando livros de aniversário quando podia financeiramente. Durante minha vida escolar, contudo, apesar de ter tido alguns professores que me estimularam, a leitura se tornou conflituosa, uma vez que me descobri disléxica quando adulta, após concluir a faculdade de design gráfico. A leitura me transformou e me transforma até agora, pois meu amor pelos livros definiu meu caminho: especializei-me em produção editorial, estudei métodos de encadernação artesanal, acabei me encantando pela literatura infantojuvenil, criei a Casa de Leitura e me tornei educadora social.

Qual a trajetória da Casa de Leitura Soraya Pamplona?
Criada em 19 de julho de 2017, a Casa de Leitura era um sonho antigo que se concretizou depois de eu ter tido contato com a iniciativa de um professor e perceber que era possível transformar a rua, o bairro, a cidade a partir da leitura, inserindo-a no dia a dia das pessoas. Quando jovem universitária, não podia comprar livros, já que só havia dinheiro para a comida. Ninguém merece ter de escolher entre livros e alimentos. E, por saber que essa crueldade continua a ocorrer na periferia, decidi fazer do meu lar um espaço onde todos podem encontrar opções de leitura, um ambiente de acolhimento.

Casa de Leitura Soraya Pamplona | foto: divulgação

Quais são os próximos passos do projeto?
Fomentar, cada vez mais, as artes, a escrita criativa, as oficinas, as rodas de conversa. Quero que a Casa de Leitura Soraya Pamplona acolha debates e saraus, ajude mais estudantes a chegar à universidade. Espero que, futuramente, seja também uma espécie de posto de atendimento social, com profissionais de psicologia e de outras áreas promovendo a importância da saúde mental. Estarei realizada quando conseguir isso.

Como você percebe a leitura no Brasil?
Percebo a leitura, ainda e infelizmente, muito pouco desenvolvida na periferia. Sendo educadora social, tenho de tirar leite de pedra. Onde moro, há poucas escolas e a biblioteca pública mais próxima é bem distante. Consegui, porém, com a Casa de Leitura, que uma avó voltasse a estudar e um rapaz de 17 anos, disléxico como eu, pegasse gosto pelos livros e não fosse discriminado por amigos e pela família. A leitura precisa aparecer na vida das pessoas de forma afetiva.

Casa de Leitura Soraya Pamplona | foto: divulgação

Biblioteca de Muro (@biblioteca.de.muro)
por Jailson Cordeiro, de Santa Catarina

Como se deu sua relação pessoal com a leitura?
Aprendi a ler muito novo: com 5 anos, já lia gibis. Na adolescência, passava as tardes em uma biblioteca pública e adorava as aventuras de Sherlock Holmes. Daí em diante, o gosto pelos livros só aumentou. Adulto, eu me interessei por poemas e literatura de cordel. Profissionalmente, a Biblioteca de Muro foi meu primeiro trabalho com leitura.

Qual a trajetória da Biblioteca de Muro?
O projeto foi posto em prática em abril de 2018, surgido de uma inquietação: como popularizar a literatura e tornar a leitura um hábito? Lembrei, então, de hortas comunitárias feitas em calçadas e disso veio a ideia: fazer uma biblioteca na calçada – ou, no meu caso, no muro. A primeira versão foi construída com materiais que eu tinha em casa. Para evitar perdas, erguemos a última versão, mais resistente. O funcionamento é simples: os livros ficam à disposição, é só pegar, ler e devolver quando terminar.

Biblioteca de Muro | foto: Jailson Cordeiro

Quais são os próximos passos do projeto?
No ano passado, conseguimos, por meio de um financiamento coletivo, verba suficiente para fazermos mais duas bibliotecas. Uma delas já está funcionando; a outra está quase pronta. Queremos transformar a Biblioteca de Muro em um negócio social, criar produtos com a marca para que possamos financiar a construção de novas unidades.

Como você percebe a leitura no Brasil?
Deixando um pouco a percepção de lado, os números estão aí para mostrar (a pesquisa Retratos da Leitura no Brasil é um exemplo): perdemos leitores a cada ano. Acredito que isso pode melhorar quando o acesso à leitura está na sua rotina. O fato de passar em frente a uma biblioteca diariamente, com certeza, desperta o interesse.

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