por William Nunes

“Arrigo foi um acontecimento na música de São Paulo, com uma proposta extremamente sofisticada. Ele era uma referência para nós, apesar de sermos contemporâneos. Se o Rio de Janeiro tinha o maestro soberano [Tom Jobim], nós tínhamos Arrigo Barnabé”, afirmam Wilson Souto e Chico Pardal, fundadores do Teatro Lira Paulistana. Importante espaço na capital paulista, o Lira abriu espaço para a cultura independente e se tornou célebre por reunir os artistas da chamada Vanguarda Paulista na década de 1980.

Um dos grandes nomes do movimento – ao lado de Itamar Assumpção (que completaria 72 anos nesse 13 de setembro de 2021), e que também reuniu Tetê Espíndola, Cida Moreira, Luiz Tatit, Língua de Trapo, entre outros –, o músico, compositor e cantor Arrigo Barnabé completa hoje (14) 70 anos. Paranaense de nascença, mas que fincou raízes em São Paulo desde que foi estudar na Universidade de São Paulo (USP) nos anos 1970, fez de sua obra uma plataforma para a experimentação. 

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Arrigo mostrou faixas que ninguém esperava escutar, misturando música erudita com pop e rock de maneira particular. Trouxe novas formas de composição e de estrutura musical, experimentou consonância e dissonância harmônica, padrões rítmicos e melódicos. “O que mais me impressiona é a sua poesia urbana acompanhada de uma harmonia e melodia totalmente fora de qualquer estilo musical”, afirma Riba de Castro, também fundador do Lira Paulistana e diretor do documentário que contou a história do local – filme disponível on-line neste site.

É impossível não associar o Teatro Lira Paulistana à Vanguarda Paulista. Para Riba, ocorreu uma convergência que possibilitou a construção dessa história em conjunto: “Como definiu Passoca [cantor e compositor], ‘às vezes você tem as pessoas, mas não tem o lugar. Ou tem o lugar, mas faltam as pessoas’. O Lira não teria tido a importância que teve se não fosse o surgimento da vanguarda. E, talvez, o que chamamos de Vanguarda Paulista teria se diluído e não chegaria a ter esse caráter de movimento”.

Apesar de sempre presente, Arrigo não se apresentou com o seu próprio trabalho no teatro justamente por ter um público que ultrapassava a capacidade física do local. “Ele começou a lotar shows, eram filas e filas na porta”, lembra Wilson. Ainda assim, o músico subiu ao palco, em algumas ocasiões, tocando com outros artistas. “Muito do que aconteceu lá dentro veio do Arrigo. Itamar, que tocava baixo na banda dele, as meninas que cantavam na banda Sabor de Veneno – Suzana Salles e Vânia Bastos. A ligação entre eles sempre foi muito presente, as bandas se fundiam e cada dia um tocava com o outro”, completa Chico.

A apresentação histórica de Arrigo no Lira só veio décadas depois do seu fechamento – que aconteceu em 1986 –, na comemoração dos 30 anos de inauguração do teatro, em 2009.

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Arrigo Barnabé no programa Lixo, Moda e Preconceito, do Estéreo Saci

Liberdade criativa

Em 1980, o músico lançou Clara crocodilo, seu primeiro e mais celebrado disco – e que muitos consideram o marco inicial dessa geração. A ópera pop, assim chamada, apresenta o DNA de Arrigo. A música erudita com a popular, a estranheza sonora proposital que agrada aos ouvidos e o clima urbano.

Em seu segundo álbum, Tubarões voadores, de 1984, Arrigo – que sempre dialogou com outras expressões – inspirou-se em uma história em quadrinhos criada pelo artista Luiz Gê para criar a narrativa da obra. “Ele modificou a paisagem em torno dele, trabalhou com outras linguagens, com quadrinhos, com cinema etc.”, diz Chico Pardal. “Tudo possuía referência dele, sempre muito acolhedor e criativo.”

O caráter provocador de Arrigo criou uma espécie de escola, influenciando outros artistas contemporâneos e de gerações posteriores. “O fato dele ser tão diferente musicalmente do que acontecia na época incentivou outros artistas a gravarem seus discos, a fazerem shows e se assumirem como independentes. O Lira foi importante a partir desse ponto porque era o espaço que abria portas”, completa Chico. Vale dizer que, além do teatro, o Lira também foi uma gravadora e uma editora, produzindo o material dos artistas que ali se apresentavam.  A produção independente era uma questão de identidade e de sobrevivência artística.

Para Riba de Castro, “a Vanguarda foi um momento importante da música brasileira que deixou um legado. São muitos os músicos e artistas de outras disciplinas, de uma geração posterior, que reconhecem essa influência”. Nomes como Titãs, Metá Metá, Passo Torto e Iara Rennó são influenciados pelos trabalhos de Arrigo, de Itamar e de toda a turma da Vanguarda Paulista, “assim como Itamar Assumpção também influenciou Arrigo”, faz questão de ressaltar Wilson Souto. “Não dá para dizer quem veio primeiro, eles vieram juntos. A levada que Itamar trazia no baixo era uma coisa que fazia toda a diferença na banda do Arrigo. E Arrigo abria campos para Itamar no que diz respeito a liberdade que ele provocava.”

Segundo o produtor, o principal legado de Arrigo e da Vanguada é a liberdade musical, mais do que uma sonoridade que se assemelha ao que era feito nos anos 1980. “Não dá para qualificar ou quantificar a criatividade do Arrigo e do Itamar, são pessoas impressionantes. Eles têm uma veia musical única. Então, a influência e o legado são mais nessa questão de liberdade de criação.”

Ocupação Rogério Sganzerla

Em 2010, Arrigo Barnabé foi um dos entrevistados da Ocupação Rogério Sganzerla, que homenageou a vida e a obra do cineasta. Veja os depoimentos abaixo.

Arrigo encarnou Orson Welles em Nem tudo é verdade (1986), de Rogério Sganzerla, além de ter atuado em Luz nas trevas (2010), de Helena Ignez, com roteiro de Sganzerla. Este último filme está disponível na plataforma de streaming Itaú Cultural Play.

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