Qual é a história de sua maior saudade?

Como um homem simples, tenho uma saudade simples: a família reunida no Natal. Quando meu pai era vivo, minha avó paterna e uma de minhas tias queridas também. Quando minha maior preocupação era se meus primos todos viriam para a gente brincar no quintal. Quando minha maior frustração foi ver meu pai chegar com uma bicicleta em casa e dizer que estava lá para esconder de minha prima até a abertura dos presentes no dia 24. De quando minha maior alegria foi descobrir que meus pais me enganaram e que a bicicleta era minha. Como eu era bobo! Eles me enganaram direitinho.

Também tenho saudades de meus amigos nerds na adolescência, reunidos para gravar filmes que nós inventávamos. Caramba, como a gente era estranho! Meu melhor amigo – que se chama Natan e liderava esses nerds, faço questão de registrar – dia desses resgatou a lembrança de que escrevi minha primeira peça lá pelos 11 anos. Nem eu me lembrava disso. Mas recomendo, sempre que possível, ter um amigo com memória de elefante. Melhor se for seu amigo desde os 7 anos. Que orgulho disso!

O que o emociona em seu dia a dia?

Hoje o que me emociona mais que tudo é ver pessoas se descobrindo e assumindo suas verdades. Reconhecer-se no gênero ao qual se pertence de fato, gritar com orgulho que é preto, sair do armário e dizer que não vai permitir que ninguém vá contra si. Deixar de ser cabeça pensante e ser um corpo completo. A doença do mundo é falta de amor próprio, medo de se conhecer e de se habitar. Insiste-se em fazer sobreviver as estruturas frágeis de um mundo falido, um mundo pestilento que já deu errado e apenas se arrasta pútrido em meio às próprias vísceras. A gente pode mais que isso. Uma vez ouvi a seguinte frase: “Quem pode lutar? Só uma pessoa que conhece a si mesma!”. É sobre isso! E não é por egoísmo, pelo contrário. Quem busca esse melhoramento entende que a engrenagem só funciona com o outro. Que somos elo. É ato revolucionário. Por isso me emociona cada mana, mano, mona e mina que põe a cara no sol e fala: “Chega!”.

Como você se imagina no amanhã?

O mal de um filho de Iemanjá é que ele sabe que o mundo é ruim que é uma desgraça, mas tem sempre uma ponta de esperança. O mundo, como está hoje, não promete nada bom para amanhã. São tempos violentos, mas eu sempre tenho esperança nos revolucionários (olha eles aí de novo!). Eu tento ser um através da arte. Certamente não consigo ir muito adiante, mas o pouco que consigo – nunca sozinho! – já é muito nesta imensidão de desassossego e dor. É se apegar no que faz respirar: a família e os amigos, a própria arte, um vinhozinho, uns amassos no Heitor, o gato amarelo de rabo quebrado que me adotou, a descoberta de um novo filme, a redescoberta de uma boa música. Tento não pensar muito adiante. Meu horizonte gira em torno de alguns meses. Até porque se planejar demais é se fechar para muitas possibilidades.

Quem é Daniel Veiga?

Sou alguém em processo e serei esse alguém até o fim. Minha transição não começou quando tomei a primeira dose de testosterona nem vai terminar enquanto eu estiver pelas bandas de cá. Sou artista. Da arte mesmo, sabe? Do sonho, da reinação e do esmero, da carpintaria, do ofício. Durante um tempo eu não chorei. Há quem diga que foi efeito do hormônio, que deixa a gente mais prático e menos emotivo quando é do masculino. Pode ser. Ou pode ser também porque, a partir daí, eu só tinha motivos para rir. Sou poeta-dramaturgo-roteirista, escrevendo para o corpo da outra, do outro, de outre. Meu maior prazer! Às vezes brinco de ator também. Há gente que até premia quem representa, veja só! Tenho um sol dourado aqui no meu quarto. Pesado. Está sempre comigo. E falo dele com orgulho porque gente como eu recebe pouco disso. Então a gente se orgulha da reconhecença. Ah, sim! Óbvio. Sou filho, irmão, sobrinho e tio, melhor amigo de alguém. Paulista e paulistano, mas de puro sangue mineiro e pernambucano. Gosto de uma boa prosa e de uma boa praia. Como disse antes, sou filho de Iemanjá, mas também sou agnóstico, sempre bom lembrar. E gosto disso porque é da contradição que se faz boa dramaturgia.

Daniel Veiga sorri para a câmera e veste roupa escura.
Daniel Veiga (imagem: divulgação)

Um Certo Alguém
Em Um Certo Alguém, coluna mantida pela redação do Itaú Cultural (IC), artistas e agentes de diferentes áreas de expressão são convidados a compartilhar pensamentos e desejos sobre tempos passados, presentes e futuros.

Os textos dos entrevistados são autorais e não refletem as opiniões institucionais.

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