por Heloísa Iaconis

Italiana-africana-brasileira. Assim é Marina Colasanti, destaque do Cantinho da Leitura em fevereiro. Nascida em 1937, na Eritreia, país localizado no Chifre da África, à beira do Mar Vermelho, a escritora ainda morou na Líbia e na Itália – até completar 10 anos, época em que se estabeleceu com a família no Brasil. Filha de Manfredo Colasanti e irmã de Arduíno Colasanti, ambos atores, e sobrinha-neta de Gabriella Besanzoni, cantora lírica, Marina esteve sempre cercada por arte.

O trato com as letras, contudo, iniciou-se no Jornal do Brasil (JB), na década de 1960, após deixar o projeto de artes visuais, fosse ele pintura ou gravura em metal: entre as atividades que desempenhou no JB, salienta-se a tarefa como cronista, a partir da qual percebeu que, em um afazer híbrido, meio jornalismo, meio literatura, o seu pendor tendia para a ficção. E continua a tender. Ao longo da carreira, trabalhou em outros veículos da imprensa, apresentou programas televisivos, dedicou-se à publicidade – mas, é certo, a vertente aponta mesmo em direção às frases examinadas milimetricamente. Eis a sua maneira de olhar (e apreender) o indivíduo, o mundo, o incompreensível: redigindo, narrando, compondo histórias com esmero.

Marina Colasanti na Feria Internacional del Libro de Guadalajara, em dezembro de 2017 | foto: Emile de La Croix

 Desde Eu Sozinha, livro de estreia, publicado em 1968, Marina segue em uma doação de si para entender o próximo, um trajeto que abarca gêneros vários e mudanças estruturais internas no sujeito que se põe a formular enredos: contos, minicontos, contos maravilhosos (que vêm de longe, de Panchatantra e de As Mil e Uma Noites), crônicas, poemas. A propósito, se a poesia for para crianças, pronto: no mínimo, dois anos para que todas as estrofes se encaixem com perfeição e, juntas, resultem em uma obra, como Cada Bicho Seu Capricho (1992), um dos títulos que estão disponíveis em fevereiro no Cantinho da Leitura, mês que homenageia a criadora que se dá a conhecer na entrevista a seguir. Confira.

Para a senhora, como se estabelece a relação entre livros e memória? Um constrói, por assim dizer, o outro?
Não basta a memória para construir um livro. Mas a memória é a argamassa da construção. Nem bem a memória, ou seja, o fato como aconteceu e está gravado, e sim a percepção que aquele fato imprimiu na memória, a tatuagem oculta que aflora quando lembramos do fato. Por isso, a experiência é importante para o escritor, não pela sabedoria, que tempo algum garante, mas pelo acervo emocional interior.

Ao escrever, a senhora “pensa” no público leitor? 
Se “pensar” tem o sentido de “adequar”, não. Fiz isso quando escrevia numa revista feminina de alta tiragem, porque me dirigia a um “público-alvo”. E fiz como redatora de publicidade, porque é requisito da profissão. Mas na atividade literária, embora sabendo para que público escrevo – que pode ser adulto ou infantojuvenil –, não me pergunto se o leitor vai gostar, se vai entender, não penso em faixas etárias (mesmo porque não acredito nelas). Escrevo o que quero escrever, e como quero. Meu pensamento está focado em conteúdo, em linguagem. E naquilo que considero qualidade.
 

Marina na Feria Internacional del Libro de Guadalajara, em dezembro de 2017 | foto: Natalia Fregoso

Como a senhora avalia a produção de literatura infantojuvenil no Brasil hoje?
A resposta não me caberia, posto que faço parte dela. O que posso dizer é que temos algumas excelências, tanto no texto quanto na ilustração, mas a maioria do que se publica é de má qualidade, quando não péssima. E muitos livros estão a serviço do politicamente correto em vez de estarem a serviço da literatura. Mas esse é um panorama mercantilista que se repete em boa parte do mundo.

A sensibilidade necessária para escrever para crianças é diferente, de algum jeito, da sensibilidade requisitada para se comunicar com adultos?
Pode até ser, mas não gostaria de fazer essa afirmação. Parece-me mais uma questão de embocadura, como para tocar um instrumento. O bom escritor que sente necessidade de escrever um livro para crianças certamente escreverá um bom livro, como aconteceu, por exemplo, com Saint-Exupéry. Mas a necessidade é fundamental; obedecer apenas a convite de editor pode não ser suficiente.

Em 1994, Ana Z. Aonde Vai Você? ganhou o prêmio de Melhor Livro do Ano da Câmara Brasileira do Livro (CBL), uma categoria que não é específica para a literatura infantojuvenil. Pode-se dizer que uma obra dita para crianças e jovens consegue, na verdade, tocar adultos também, de modo que seja para todos?
Quando uma obra para crianças ou jovens não consegue tocar adultos, é sinal de que não é boa. Ou de que não é literatura. Aliás, em 2014 ganhei o mesmo prêmio, novamente com livro infantil, Breve História de um Pequeno Amor (2013).

A senhora ilustra muitos dos seus livros. Como se dá o processo de ilustração? As ideias para os desenhos são concomitantes à elaboração do texto?
É um processo meio esquizofrênico. Como se a autora do texto fosse uma e a ilustradora outra. Escrevo sem pensar em imagens. Pois uma coisa é estar dentro da história, participar dela, tendo uma visão circular. E outra, completamente distinta, é a linguagem gráfica para a qual se irá traduzir essa história. Então, primeiro escrevo, preocupada exclusivamente com a narrativa e com a linguagem. Findo o livro, entrego à minha agente. Muito tempo pode passar entre a entrega, a escolha da editora, a aquiescência, a elaboração do contrato e a localização na agenda editorial. E meses ou até um ano depois, recebo da editora o projeto gráfico e volto ao texto, agora com outro olhar, não mais circular, um olhar puramente gráfico. Não é um processo usual. Os autores ilustradores costumam entregar o livro pronto, com as artes-finais e o projeto gráfico. Mas para isso contam com o computador. Eu, até hoje, não consegui tempo para aprender a utilizar a parte gráfica do meu Mac. Quem sabe, amanhã...

Marina Colasanti no início dos anos 1960, em Ipanema. Nessa época, Marina estuda Belas Artes e deseja ser pintora | foto: Site Marina Colasanti / Arquivo pessoal

A senhora trabalha por projetos. Como decide qual projeto seguir primeiro?
Obedeço ao meu desejo. E tento não me manter demasiado ausente de cada um dos gêneros que pratico.

A senhora é uma mestra dos contos de fadas. Em sua opinião, como a criança e o adulto lidam com a magia?
A magia dos contos de fadas é metáfora da vida em si, cheia de mistérios, de fantasmas da memória, de acontecimentos que não sabemos explicar. Tudo na vida, assim como nos contos, é metamorfose: a transformação das células, o amadurecer dos frutos, a formação das nuvens. As crianças, que ainda não represaram sua fantasia, se entregam plenamente à magia literária. Os adultos se entregam em outro plano – prova disso é o sucesso de autores como Poe, Kafka, Borges e Calvino. Mas todos, adultos e crianças, necessitam dessa magia em igual medida.

Em seus livros infantojuvenis, há personagens femininas fortes (como a própria Ana Z. e a moça tecelã). O feminismo está presente, em alguma medida, nessa parcela de sua produção?
Sou feminista histórica. Fiz parte do primeiro Conselho Nacional dos Direitos da Mulher e durante 20 anos atuei com temas ligados ao feminino no mundo, trabalho do qual resultaram quatro livros. É sumamente provável que meu orgulho de ser mulher transpareça no que escrevo. Mas em momento algum pretendi fazer proselitismo feminista nos contos de fadas ou no meu trabalho para crianças e jovens.

Marina, na década de 1980, no grupo de representantes do Conselho Nacional dos Direitos da Mulher, equipe que entregou a Ulisses Guimarães, então presidente da Assembleia Nacional Constituinte, a “Carta das Mulheres Brasileiras aos Constituintes” | foto: Agência Brasil

Após tantos anos, o que a motiva a continuar a escrever?
Tudo! Há sempre um livro a mais que eu quero escrever, histórias que me chamam, poemas que aparecem. Escrever não é só escrever. É questionar a vida, debruçar-se sobre ela. E é o que farei enquanto a tiver.

A senhora acredita que a literatura é um instrumento de empatia?
Como instrumento, a literatura é muito mais que isso. É um Stradivarius cuja música funde pontos nevrálgicos de autor e leitor, construindo a pura emoção.

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