Qual é a história da sua maior saudade?

A história de que sinto saudade está situada em outro território, em Buenos Aires. Uma das coisas da qual eu mais sinto falta é caminhar pelas ruas porteñas. Acho que a parte bonita dessa nostalgia tem a ver com a qualidade da caminhada. Buenos Aires me ensinou a acessar minha capacidade de observação e entrega durante um trajeto a ser percorrido. No começo foi difícil desapegar dos meus passos ágeis, típicos de uma paulistana. Mas as pessoas, o clima e o céu de Buenos Aires me ensinaram, misteriosamente, que não era sobre saber chegar ao destino final ou chegar rápido. Caminhar naquela cidade também era sobre se perder. E se perder também significa ocupar seu lugar no mundo.

A cidade estava sempre tomada pelos seus habitantes. Os porteños se apropriam das praças, das ruas, dos cafés e dos parques com muita naturalidade, como se todos esses espaços fossem uma extensão de suas casas.

O ritmo dos meus passos anunciava o nascimento de mais uma etapa de um processo íntimo da busca pelo “não se sabe o quê”. O chão firme e plano da cidade me devolvia a sensação da firmeza de existir com uma única finalidade: seguir adelante. Não havia pressão, mis pasos eran míos, em outras palavras: eu caminhava sem ter de provar nada para ninguém. Minha segunda profissão era ser estrangeira e é também dessa sensação que sinto saudade: não por não conhecer ninguém ou coisa do tipo, mas porque a condição de ser estrangeira me deu o direito de não me culpar em todas as inúmeras vezes em que eu abri uma porta equivocada.

Eu dizia:

- Aqui eu caminho diferente!

Me colocar em risco era ter como recompensa experienciar outra vida que não a minha.

O que você mais quer agora?

Tenho muitos desejos dentro de mim. Tenho desejos íntimos, desejos mais amplos e desejos que talvez nunca se realizem, mas, com certeza, o que eu mais quero hoje é que não haja mais mortes por coronavírus, mesmo sabendo que isso é apenas a ponta de um iceberg. Acredito que não se trata de curar apenas uma doença, mas de curar as doenças do inconsciente coletivo que ignora, exclui e desrespeita (mata) a existência dos povos indígenas, da população negra, do meio ambiente, dos animais. São tantas curas pelas quais ainda teremos de passar.

Como você imagina o amanhã?

Eu me esforço para imaginar. Não consigo visualizar nada muito concreto. Os contornos do desenho do nosso futuro ainda não foram traçados, são como aquelas tarefas que tínhamos quando éramos crianças, de ligar os pontos com o lápis e só enxergar a imagem final quando tudo estivesse interligado. Eu gostaria muito que essa imagem tivesse a ver com um recomeço da vida através da simplicidade e da calmaria. Projeto nos meus sonhos mais lindos pessoas se encontrando e debatendo alternativas para o nosso modo de vida, novas formas de existir e conviver. Trazer a natureza para perto e abraçá-la junto com tudo o que sempre esteve deixado de lado. Aprender do que vive à margem, o marginal, o que percorre um caminho que não é o da maioria. Acho que imagino algo por aí.

Quem é Mayara Constantino?

Eu poderia dizer que sou atriz. É assim que eu me defino desde os meus 7 anos de idade. Mas confesso que hoje, aos 33, não estou mais tão apegada ao título. Eu amo as palavras, mas não acho justo escolher uma para definir alguém.

Aprendi num curso de tarô que você não é uma carta, você está. Eu gosto de usar isso na vida também. Então posso dizer que no momento eu “estou” estudante. Não sei em que etapa estarei na próxima vez que você me ler. Eu me formei em audiovisual, mas me arrependo de não ter estudado pedagogia. Eu tenho tido ultimamente uma forte inclinação para dirigir atores, gosto de acompanhar e orientar o processo criativo. Sou apaixonada por literatura infantil, Cortázar e Clarice. Já trabalhei numa videolocadora e também já fui garçonete. Eu admiro artistas misteriosos e atores que não traçaram o caminho mais óbvio (e simplista) do que é ser ator no Brasil. Sou muito pé no chão, não me deslumbro fácil. Tenho tendência a sempre querer ir embora, amo ser estrangeira. Desejo ser um corpo que se move na intenção de absorver (se nutrir) e propor, ou seja, conviver com base nas trocas de experiências. Atuo na perspectiva de poder servir. Meus estudos são constantes, pois quero, sem ingenuidade, ser uma ferramenta que contribui para um mundo diferente.

Mayara Constantino (imagem: Fabio Audi)

Um Certo Alguém
Em Um Certo Alguém, coluna mantida pela redação do Itaú Cultural (IC), artistas e agentes de diferentes áreas de expressão são convidados a compartilhar pensamentos e desejos sobre tempos passados, presentes e futuros.

Os textos dos entrevistados são autorais e não refletem as opiniões institucionais.

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