Por Cassiano Viana

Ana Luiza Fay (Porto Alegre, Rio Grande do Sul, 1982) cresceu em Campinas, viveu no Rio de Janeiro e mora na capital paulista desde abril de 2019. É formada em filosofia.

A relação com a fotografia é antiga, ela conta, mas a paixão surgiu mesmo quando viu a foto que deu início à série “A Subjetividade Assombrada” (Haunted Subjectivity), em 2015.

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“Havia criado uma caracterização e, na falta de espelho, tirei uma foto para ver como tinha ficado”, lembra. “Essa foto, sua composição, luz etc., trouxe um sentido de teatralidade dramática para a caracterização, e ali veio o estalo: é com isso que quero trabalhar.” A série foi criada ao longo de três anos.

Com a palavra, Ana Luiza

“Quando parte significativa de uma vida se desenha nos contornos de ermas e longínquas paragens; quando esta vida é resultado do encontro de quem nestas mesmas paragens circula desde o início do século XVIII, ali depositando, na lentidão inescrutável do tempo, o sol de seu fecundante esperma contra a violência de uma urbanidade perdida nas ranhuras deste mesmo tempo; quando este, esquecido de seu útero quente, afasta esta vida do farfalhar natural, obrigando-a a refazer-se na multidão da cidade, então não é estranho que esta mesma vida, ao retornar àquelas remotas paragens, deseje reencontrar aquilo de que não tem memória.”

(imagem: Ana Luiza Fay)

“Os autorretratos nasceram de uma urgência ocultada e morosa que se fez em acúmulo e cuja ação progressiva e subterrânea operou em mim a formação de um mal que se pensava ele próprio irreversível e permanente: uma severa e muito vasta noite pairou, transfigurando-me vazia de estrelas e incapturável. De súbito, já longe da cidade, as mãos, guiadas por desconhecida e secreta força, experimentam objetos aleatórios – roupas antigas, tecidos, galhos, folhas, pedras, ossos, penas – e, sem projeto nem planejamento, põem em curso um fazer instintivo e improvisado. Então, a fotografia.”

(imagem: Ana Luiza Fay)

“Noite e dia ponho-me a caminhar munida da recém-adquirida câmera fotográfica
da qual nada conheço. Posiciono-a no tripé, ajusto o timer e lanço o corpo em não calculada dança diante desse olho espectral e tecnológico que se abre e se fecha na promessa de restituir. Vejo os registros: falta o rosto. Ao esconder-se ele desvia a atenção, abre a memória e devota o espaço à diferença. Vem então a insuficiência do termo: o ‘auto’ foi para fora e o ‘retrato’ já não é mais meu.”

(imagem: Ana Luiza Fay)
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