por Amanda Rigamonti

"Nunca tive medo do caos. Sou o próprio caos. Construído, maquiado, perfumado, montado, desmontado, destruído."

Assim se inicia Rituais Virtuais. Em seus quatro minutos de duração, essa obra-manifesto, que integra o Festival Arte como Respiro, mostra a rotina de uma mulher trans em isolamento. Enquanto ela faz coisas como se maquiar, se vestir e comer, escutamos suas reflexões sobre arte, amor, isolamento, solidão. Essa mulher é Valéria Barcellos, que assina o texto e atua em filme dirigido e produzido por Silas Souza de Lima.

A dupla, que mantém um relacionamento há três anos, dos quais dois foram preenchidos também por essa parceria de trabalho e criação, montou a obra com a proposta de colocar em pauta uma realidade de isolamento que existe desde antes da pandemia de coronavírus – o isolamento que é forçado a pessoas trans. Eles contam que a ideia era retratar o cotidiano e ressignificar, através do olhar de duas pessoas pretas e transexuais, essa situação que a pandemia trouxe, mas que não é nova, e sim naturalizada em certos contextos e vivências.

No vídeo, Valéria aparece careca. A dupla conta ainda que isso se dá pois a artista está em processo de acompanhamento oncológico desde 2019 , ano em que recebeu o diagnóstico e deu início a tratamento com quimio e radioterapia. Com isso, Rituais Virtuais surge também diante de toda uma significação pessoal de Valéria após a passagem pelo "quarto signo", em suas palavras. Ela ainda completa "Em uma sociedade na qual a expectativa de vida de mulheres trans é de 35 anos, segundo a Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra), ter 40 e conseguir viver de sua própria arte é realmente desafiador".

Em entrevista ao Itaú Cultural (IC), Silas fala sobre a concepção do trabalho, mas mergulha especialmente em questões que estão por trás dessa construção: debates sobre representatividade, passabilidade, privilégios, generalizações de corpos e histórias e a importância de falar da solidão de pessoas trans. Ele ainda conta um pouco de sua própria história e compartilha o que entende hoje como liberdade.

Como foi o processo de criação de Rituais Virtuais?

Todo o planejamento e a produção se deram nesse período pandêmico mesmo. Eu resido com a Valéria e nós temos uma parceria de coletividade de trabalhos, para além de ela ser minha companheira. Logo que vimos a possibilidade do IC e de produzir algo, tivemos essa ideia, visto que era um edital que especificava o tema, dava um apontamento para o que deveria ser abordado. Pensamos na nossa vontade de retratar o indivíduo, o ser humano, e como retratar o que para a gente é cotidiano, que às vezes soa como lugar-comum, mas dando um novo olhar.

Veio disso. Mais especificamente de uma artista, de um corpo preto, de uma pessoa trans. Como é essa ressignificação da quarentena ou desse processo pandêmico para uma pessoa que já vive uma situação de privação, eu diria, de socialização, já naturalizada há muito tempo.

Você pode contar mais sobre a parceria com Valéria Barcellos?

A gente vem desenvolvendo essa parceria, essa coletividade mesmo, há uns dois anos. Claro que ela é multiartista, cantora, artista visual, participa do conselho consultivo do Museu de Arte Contemporânea do Rio Grande do Sul [MACRS], em Porto Alegre, que é a cidade em que a gente reside, então ela tem estado muito mais ativa, porque ela vivencia da arte dela, e eu, como estudante de medicina e um pouco artista também, tento conciliar esses momentos que tenho de possibilidades de produção.

Nesses últimos anos, a gente vem desenvolvendo algumas parcerias. É inevitável essa influência das nossas vivências no contexto de produção e essa proximidade de retratação de recortes e vivências, além do olhar direcionado para o público do que nos atravessa como corpos pretos, trans, e de que forma isso se dá.

De fato, vivemos um momento em que vemos as pessoas trans assumindo certo protagonismo, tendo voz para falar dessas vivências. É importante que essa vivência atravesse o seu produzir e que você consiga ocupar um espaço artístico com isso, não é?

Muito! E a gente entra em discussões... Um exemplo clássico são as discussões tidas como recentes, mas que são já de algum tempo, sobre trans fake, em relação ao teatro, e o porquê da significação desses termos, que alguns artistas, atrizes ou atores trans passaram a reivindicar em relação a esses corpos e esse não acesso, essa ausência de oportunidades pela qual esses corpos passam. Porque são discussões para além de simplesmente as pessoas se sentirem representadas. Essas discussões em relação a raça, gênero, debates de sexualidade são processos de equiparação de pessoas que nem sequer são oportunizadas desde sua formação.

É extremamente importante a ideia da representatividade, e não apenas a representação. Em 2020 acho utópico ainda desconsiderar os processos de reparação que para certas vivências ainda são necessários, porque não há uma equidade de oportunidades, por exemplo.

Outro ponto importante é essa noção de representatividade e representação. Representatividade é sobre indivíduos se sentirem representados por aquilo que veem, terem suas vivências retratadas por eles mesmos, não apenas a caricaturização do que vivenciam, mas sim as pessoas terem acesso e possibilidade de contar suas próprias narrativas.

Precisamos oportunizar esses artistas, não temos equidade de números, a quantidade de atrizes e atores trans empregados nos meios de comunicação é muito pequena; a forma como a pessoa, o indivíduo, o corpo trans foram tratados midiaticamente até hoje quase sempre é associada a um contexto do sarcástico, da chacota, do engraçado... Não do potente.

Frame da obra Rituais Virtuais (imagem: Silas Souza de Lima)

Você comentou que é estudante de medicina. Como é conciliar essas duas carreiras? Como essas duas coisas se encontram na sua vida?

A arte em si, para mim, sempre foi algo com que tive bastante proximidade. A questão das humanidades é algo que me desperta bastante curiosidade. Sempre me interessei por ler, fotografar, aprender produção de vídeo... Não só o técnico, mas o trabalho de pensar o que quero retratar, para que é válido direcionar o olhar do público.

Essa questão da medicina em si é curiosa porque tem toda uma ressignificação também, individualmente falando, de como se dá esse processo de continuar um olhar humanizado e não mecanizar esse tratamento de sempre lidar com corpos, com doenças ou com a busca da saúde. E como entender que, para além de lidar com um corpo, estou lidando com um indivíduo ali.

E a arte em si direcionada a uma questão mais humanística o tempo todo atravessa nesse sentido. Eu estou retratando a vivência de alguém, mas qual é meu objetivo mostrando aquilo? Qual é a fidelidade retratando aquilo? Eu não preciso dar uma resposta direta, ou fechar ali, e geralmente nas obras deixamos a reflexão em aberto. Deixar que seja visto a partir da vivência individual de cada um.

Costumamos dizer, a Valéria e eu, que “estamos cansados de desconstrução”. É um processo que foi necessário e precisa continuar, mas o que vamos construir a partir disso? De situações racistas... Eu aprendi, mas o que eu vou fazer a partir do momento em que tomo consciência? Então são situações muito voltadas para o indivíduo. E meu gosto para a arte é justamente voltado para isso. Eu gosto de histórias, gosto de retratar vivências, e isso também é uma forma individual de sempre me policiar para não me deixar mecanizar esse processo, sabe?

Produzir arte – vídeo, foto – tem a questão do olhar. Achei bonito o que você falou de olhar para as pessoas como indivíduos, mais do que como corpos. A arte deve contribuir muito para lembrá-lo desse lugar.

A vivência com a Valéria, inevitavelmente, tem completa influência nisso. As vivências que eu tive, como homem trans negro não retinto estudante de medicina que conseguiu, diante de todas as dificuldades da vida, ter acesso ao ensino superior, vindo de todo o processo de colégio público e tudo mais, somadasa essa troca e essa situação de evidenciar coisas que uma pessoa negra mais retinta que eu, mulher, trans, artista, que vive apenas da arte que produz, e como se dá esse olhar social para esse corpo que não tem... uma palavrinha que nós dois odiamos, que é passabilidade, e não tem vontade de ter. Então são coisas bem diversas e complexas que nos atravessam, e aí o equilíbrio disso tudo é como eu pego todas essas vivências, impressões, e como coloco isso para o outro a partir do que eu quero que o outro enxergue, sabe?

A palavra passabilidade é bastante usada, não é? Por que vocês a odeiam?

Acaba me incomodando bastante porque minha vivência individual vem de processos de achar que sempre era necessário me enquadrar em algum padrão ou numa conjuntura esperada socialmente que geralmente, não vou dizer sempre, vai estar associada a um contexto de expectativas de performances de gênero ligadas a genitais, por exemplo.

Acho extremamente importante a gente pontuar essa questão da passabilidade, porque para algumas pessoas trans isso faz sentido, e isso pode ser usado inclusive como instrumento para se colocar como indivíduo de “eu sou um estudante, trabalhador, artista... Tenho diversas camadas, e a transexualidade é apenas mais uma camada”; e em outros contextos, para outras pessoas trans, isso tem outra significação política.

Apesar de ser uma pessoa, um homem que se beneficia de uma sociedade patriarcal que sempre vai associar meu gênero a algo forte, válido e tudo mais, eu acho extremamente problemático me deixar levar por esses privilégios associados a isso, enquanto para outras pessoas isso não é nem passível de dúvida, a pessoa não pode se dar nem o privilégio da dúvida, porque a violência direcionada a ela não é neutra. É o que acontece, por exemplo, indo com a Valéria ao supermercado. As violências que ela vivencia, as situações de transfobia evidentes, não são coisas sutis, não são coisas naturalizadas como, por exemplo, as que são direcionadas a mim nos espaços aos quais consigo ter acesso.

Com isso eu volto novamente para a sua questão, que é por que é importante essas pessoas falarem por si? Porque vão existir milhões de vivências diferentes, e o maior erro é justamente generalizar e tratar como “são pessoas que nasceram em corpos errados” ou “são pessoas que são extremamente disfóricas”, porque para algumas pessoas isso não vai fazer a mínima racionalidade, entende?

Há essa situação também de entender que nós não somos todos iguais. A gente tem de parar de associar isso, porque nós não somos, e é maravilhoso não ser. É justamente isso que precisamos que as pessoas entendam.

A gente brinca sobre a sopa de letrinhas da sigla LGBTQIA+... “Não vai parar de aumentar grupo ali?” Não enquanto não entenderem que as pessoas não precisam ser e não serão iguais, não serão todas da mesma forma de bolo. Se estão requerendo ali vivências é porque elas não se sentem abarcadas. Elas são indivíduos, são corpos... E novamente nós voltamos ali no contexto. Não são números...

O maior erro é generalizar.

Nós não somos todos iguais, e é maravilhoso não ser.

Não são números, não são só histórias, são pessoas.

Pessoas que amam, que são amadas, que trabalham, que fazem n coisas, e qual significação humana isso tem além deviver ou sobreviver.

Frame da obra Rituais Virtuais (imagem: Silas Souza de Lima)

Por que é importante falar da solidão de pessoas trans?

Por que é importante? Porque é real. Porque em 2020 isso ainda é realidade... As pessoas serem mortas. É bom a gente pontuar muito isto: a violência associada a esses corpos, os índices de violência, a gente não está lidando com crimes pontuais de apenas uma facada, de apenas um tiro. Geralmente são 70 tiros/facadas. Pessoas degoladas. Arrastadas em público. São coisas muito cruéis, associadas a muito ódio. Retratar a solidão de pessoas trans é lidar e ouvir... Por que a gente sempre escuta sobre violência e sofrimento? Porque essa é a realidade que a maioria dessas pessoas tem; é ainda o recorte mais... O disco arranhado.

É importante, mais do que nunca, colocar isso dessa forma, porque a pandemia, o processo da quarentena em si, foi muito complicada para muita gente. Esse processo de restrição social – que eu complemento dizendo que não é social, é física – é uma coisa muito recorrente para a vivência trans. De como é que eu me coloco no mundo, isso que inclusive parte das impressões do próprio indivíduo de como me construir no mundo a partir das minhas próprias impressões, e não só daquilo que me é vomitado/colocado. Como eu, a partir de uma ideia do que é homem, de uma ideia do que é mulher, como me construir diante disso, diante de toda uma vivência e de uma série de violências que ainda me rodeiam? Então, falar sobre isso é necessário porque ainda é uma coisa real.

Qual é o papel das pessoas cisgêneras diante dessa realidade?

A pergunta que vale 1 milhão de reais? [risos]

Eu acho que começando a questionar a própria cisgeneridade. Porque só existe a transexualidade, ou só existem essas dissidências de gênero ou qualquer outra situação, porque nós não questionamos ou não nos damos o trabalho de entender como ocidentalmente se formaram esses papéis de gênero e o que fazer para que essas coisas não sejam o tempo todo associadas a um contexto genitalizador. E o que é esperado, ou pior, que performances sociais são esperadas a partir da genitália que a pessoa apresenta. Isso é completamente tóxico, porque é reduzir o ser humano a simplesmente um genital. E aí, trazendo para a parte da medicina, o que a gente vai dizer, por exemplo, sobre pessoas intersexuais?

O que pessoas cis podem fazer? Eu acho que é justamente isto: questionar privilégios, questionar ou tentar entender como se dá essa construção de sociedade, como isso se configurou dessa forma, porque a gente não precisa falar necessariamente de transgeneridade para ter o debate de gênero, e acho que esse seria o papel efetivo.

E novamente a ideia: acho que desconstrução a gente precisa continuar, mas só ela não vai nos levar a nada; a gente precisa construir, sair do recorte de apenas falas, de apenas debates, e fazer algo efetivo.

O que é liberdade para você?

Que pergunta cabulosa! Em 2020 [risos]. Liberdade para mim hoje é poder conseguir conquistar coisas pelas quais eu tenho lutado, e muito mais do que isso, é ver mais pessoas contando suas próprias histórias, sendo agentes de suas próprias histórias, e não ver apenas situações excepcionais. Excepcionalidade para mim está complemente associada à exceção, e de exceção eu acho que a gente não precisa e não é benéfica, então a gente precisa ver cada vez mais jovens na medicina, artistas conseguindo espaço no Itaú Cultural, conseguindo fazer sua arte, e promover cultura e reflexão, e entender que construção a gente faz junto. Eu acho que é dessa forma.

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