por Amanda Rigamonti

Mulher, pianista, professora, estudiosa, apaixonada pela vida, pelos filhos e pela profissão. É assim que se define Maria Teresa Madeira, a convidada da vez do Som que Fez o Som.

Nascida na Lapa, no Centro do Rio de Janeiro, e criada em Nova Iguaçu, no subúrbio do mesmo Rio, a musicista se tornou uma das principais intérpretes de Chiquinha Gonzaga, acumulando em sua história inúmeras apresentações e gravações das composições de Chiquinha.

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A artista, que define o piano como “o cara”, tem uma trajetória na música que começa cedo, com uma mãe professora de piano e acordeom. Tem hoje mais de 30 discos lançados, e é doutora pela Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (Unirio), onde também dá aulas para os cursos de bacharelado e de extensão. Assim, as referências que compartilhou neste Som que Fez o Som são das mais variadas e trazem muito de sua história e memória afetiva familiar.

Antes de mergulhar nas indicações de Maria Teresa Madeira, leia entrevista com a pianista, em que ela conta um pouco de sua história e da relação com o piano e fala sobre Chiquinha Gonzaga, a homenageada da 51ª edição do programa Ocupação Itaú Cultural – que entra em cartaz no dia 24 de fevereiro na sede da instituição.

Retrato de Maria Teresa Madeira. Ela aparece sentada ao lado de seu piano. O piano, à direita da imagem, é preto. Ela é uma mulher branca, de cabelos curtos e grisalhos, veste uma camiseta regata preta, um colar com pingente amarelado e uma saia prateada. De pernas cruzadas, repousa o braço esquerdo sobre a perna e o direito está apoiada no piano, repousando a mão na parte de traz de seu pescoço. Ela sorri de boca fechada e olha para a câmera.
Maria Teresa Madeira (imagem: Marcio Monteiro)

Maria Teresa, conte um pouco de sua trajetória. Como foi sua infância? Quando e como ingressou na música?

Minha trajetória na música começou cedo. Minha mãe era professora de música (piano e acordeom) e tinha uma academia de música e dança em Nova Iguaçu (RJ). Ou seja, nasci já num ambiente propício. Mas nunca me senti obrigada a estudar música ou dança – e acabei me apaixonando pelas duas coisas.

Sou filha única, meus pais me criaram com muito amor e foram essenciais na minha formação. Morávamos numa casa grande e guardo memórias maravilhosas da minha infância. Brinquei muito, andei de bicicleta, gostava de praia, piscina, e até joguei futebol na rua em que morava, pois era sem saída... Nossa mesa era farta. Gosto de comer bem até hoje!

Fiz o curso técnico de piano lá na academia da minha mãe e depois entrei para a Universidade Federal do Rio de Janeiro, com 17 anos, para fazer o bacharelado em piano. Mais tarde fiz meu mestrado na Universidade de Iowa, nos Estados Unidos, onde morei por três anos. Em 2016, concluí meu doutorado pela Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro, instituição na qual leciono desde 2009. Ensinar música numa universidade pública tem sido uma experiência fantástica. Cada aluno é um universo e traz consigo uma trajetória muito particular. Saber lidar com a diversidade tem me dado um prazer enorme. E ver nos olhos desses alunos a sede por conhecimento é meu maior estímulo.

O que tem de especial no piano, na sua opinião?

As várias facetas do instrumento: som, timbre, abrangência de registros, fora a empatia física que todo instrumentista precisa ter com o instrumento de sua escolha. Sem contar com o repertório escrito para ele, sem mencionar todas as possibilidades de adaptações de variadas formações musicais que ele consegue sintetizar. Ele para mim é “o cara”!

Retrato de Maria Teresa Madeira. Ela aparece sentada sobre seu seu piano. O piano, à direita da imagem, é preto. Ela é uma mulher branca, de cabelos curtos e grisalhos, veste uma camiseta regata cinza clara e uma calça cinza escura. Sentada sobre o piano, ela apoia os pés descalços sobre o banquinho do piano. À esquerda há um espelho, que reflete a parede do fundo. A parede tem um papel de parede 3D branco. Ela sorri, olhando para a lateral direita.
Maria Teresa Madeira (imagem: Marcio Monteiro)

Por que Chiquinha Gonzaga?

Chiquinha surgiu felizmente na minha vida por causa de um projeto que fui convidada a participar em 1995. Ali foi o início de uma paixão eterna... Nesse projeto toquei em quatro concertos e ainda fiz a direção musical do “Forrobodó”, sucesso de Chiquinha, de 1912. Depois, veio a minissérie televisiva, e na sequência três discos. Viajei muito tocando Chiquinha pelo Brasil e pelo mundo: Estados Unidos, Argentina, França, Espanha, Finlândia etc. Novamente em 2013, outra montagem de “Forrobodó”. E em 2020 lancei, em parceria com Wandrei Braga, a coleção chamada Chiquinha Gonzaga para Todos em quatro volumes, todas partituras para piano, organizadas didaticamente por níveis de dificuldade. São 145 músicas pinçadas do acervo digital do site www.chiquinhagonzaga.com. E assim vamos em frente com Chiquinha. Sem parar.

Chiquinha faz do piano, antes um mero ornamento, um instrumento de trabalho. Você poderia falar sobre o impacto dessa transição?

Chiquinha foi uma mulher que acreditava na sua capacidade de criar e de vencer. O piano, primeiramente um mero apetrecho que fazia parte da educação das sinhazinhas de época, acabou virando seu ganha-pão. Depois de um casamento arranjado por seu pai, um homem de prestígio social e político, ganhou um marido possessivo e tão repressor quanto seu pai. Não aceitou. E tudo que lhe restou foi a música. Na verdade, era só isso que ela precisava. Trabalhou duro para se fazer respeitar num ambiente masculino. Ela tocou, compôs, arranjou e escreveu para teatro, o que lhe trouxe o reconhecimento do grande público. Chiquinha prosperou e obteve muito sucesso em vida. E amou muito, do jeito que queria.

Para quem não a conhece: como você apresentaria Chiquinha Gonzaga?

Compositora, pianista, arranjadora, abolicionista, defensora dos direitos autorais, a primeira maestrina à frente de uma orquestra, a primeira pessoa que escreveu uma música especialmente para o Carnaval. Chiquinha é sinônimo de empoderamento feminino. Eu sempre digo que ela lutou dignamente e conseguiu ser respeitada. Chiquinha foi uma heroína, uma mulher à frente de seu tempo, sem nunca perder o rumo de sua vida.

Você é tida como a principal intérprete de Chiquinha Gonzaga. O que lhe rendeu este título e como honrá-lo?

Sinto-me muito honrada em receber esse título de principal intérprete. Mas acho que faço parte do time dos pianistas que tocaram e tocam Chiquinha e reconhecem seu valor como criadora e como um divisor de águas na nossa música. Minha história de vida profissional ficou marcada por alguns compositores e Chiquinha fez e continua fazendo parte dela. Vou continuar com minha eterna pesquisa sobre Chiquinha. Acredito que posso honrá-la desta forma, tocando, escrevendo sobre ela e divulgando sua obra.

Como uma artista contemporânea, o que a move a continuar o legado de Chiquinha?

Há muito ainda que pesquisar, tocar, editar, digitalizar e registrar. O legado continua desse jeito. A curiosidade e a vontade de aprender estimulam o estudo, o conhecimento e inevitavelmente os registros. Eu torço muito para que a nova geração venha com sede e fome de Chiquinha. Prometo que ninguém vai se arrepender.

Confira as músicas indicadas por Maria Teresa Madeira. Algumas das indicações não estão disponíveis no Spotify, ou estão em interpretações diferentes das indicadas pela artista, por isso a playlist é uma adaptação desta lista.

1. “Brejeiro”, de Ernesto Nazareth
Do LP A Cor do Som ao Vivo, de 1977. Disco marcante. Eu tinha 16 anos e foi maravilhoso ouvir Nazareth desse jeito. Em 1976 assisti à Eudóxia de Barros no programa Oito ou Oitocentos, na TV Globo (apresentado por J. Silvestre), em que ela tocava e respondia sobre a vida de Ernesto Nazareth. Eu via com minha mãe.

2. “Fuga em ré maior”, de Swingle Singers
A secretária da academia da minha mãe sempre amou música, dança, sapateado... Ela tocava bateria e dava aulas também. Ela me apresentou a Bach desse jeito. Eu me apaixonei. E ficava tocando com ela minuetos, prelúdios e depois invenções a duas vozes. Era uma farra!

3. “Concerto em fá para piano e orquestra”, George Gershwin (com Roberto Szidon ao piano e regência de Sir Edward Downes com a London Phillarmonic Orchestra)
Comprei este LP quando fui para o exterior pela primeira vez. Passei um mês em Nova York fazendo um curso de dança na Julliard School e comprei discos que tenho até hoje. Quando comprei este LP eu já tinha tocado a “Rapsodia in blue”, do Gershwin, também.

4. Prelúdios, de Chopin, tocados por Martha Argerich
Simplesmente espetacular. Martha é uma deusa, sempre me inspira muito. Em especial o “Prelud op. 28 no 16”. Espetacular!

5. Rod Stewart American Song Book
Sou apaixonada por todos os CDs desta coleção desde que eles foram lançados, não dá para escolher uma música só. Posso destacar “Smile”, “Someone to watch over me” e “I got a crush on you”.

6. “Meu guri”, de Chico Buarque
Choro todas as vezes que ouço, muito marcante e impactante. Mostra nossa triste realidade.

7. “Força da imaginação”, de Dona Ivone Lara, cantada por Arranco de Varsóvia
Adoro ouvir sempre, melhora meu astral. E todos do Arranco são amigos muito queridos!

8. “Fascinação”, Elis Regina
Música preferida da minha mãe.

9. “Cantiga por Luciana”, de Edmundo Souto e Paulinho Tapajós, na voz de Evinha
Música preferida do meu pai. Eu me lembro do festival transmitido pela TV.

10. “Satisfaction”, Rolling Stones
Fui ao show deles nas areias de Copacabana. Marcante.

11. “Além da razão”, Luiz Carlos da Vila
Em parceria com Sombra e Sombrinha, no CD Um Cantar a Vontade, gravado ao vivo. O CD todo é maravilhoso.

12. “Água de chuva no mar”, de autoria de Wanderley Monteiro, Carlos Caetano e Gerson Gomes, cantada por Wanderley Monteiro e Beth Carvalho
Eu me emociono sempre. Desde a primeira vez em que ouvi esta música.

13. “Après un rêve”, Gabriel Fauré, com Kiri Te Kanawa no soprano e Richard Amner no piano
Espetacular. Lembro da primeira vez que toquei esta canção. Paixão eterna por essa música. Esta gravação é linda!

14. “Bohemian rhapsody”, Queen
Impactante até hoje!

15. A Cena do Balcão de Romeu e Julieta, de Prokofiev
De arrepiar de tão lindo.

O Som que Fez o Som é uma série publicada na primeira sexta-feira do mês e reúne as influências de diferentes artistas

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