por Milena Buarque Lopes Bandeira

A morte de Vladimir Herzog, em 1975, na sede do Destacamento de Operações de Informação – Centro de Operações de Defesa Interna (DOI-Codi), em plena ditadura civil-militar brasileira (1964-1985), transmutou o jornalista em fato. Personagem marcante na narrativa historiográfica nacional e na retomada da democracia no país, Vlado – seu verdadeiro nome – percorreu, enquanto comunicador, redações de diversos veículos de imprensa no Brasil – além de uma passagem pela BBC, em Londres –, tendo o que move e pertence ao humano (a política e a cultura) como preocupação maior.

Embora figure nos livros de história, Herzog ainda é pouco lido nas faculdades de jornalismo e comunicação social. Com o intuito de inverter essa narrativa, e lançar luz sobre a vida de Vlado, a Ocupação Vladimir Herzog, em cartaz entre agosto e outubro de 2019, iniciou um processo de resgate de sua produção intelectual, que culminou, em junho deste ano, no lançamento do acervo do jornalista.

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Reunindo mais de 1.700 itens ligados à trajetória pessoal e profissional de Vlado, o acervo apresenta ao público fotografias, documentos, correspondências e, claro, reportagens.

A convite do Itaú Cultural, a jornalista Cicélia Pincer, doutora em ciências da comunicação pela Universidade de São Paulo (USP) e professora do curso de jornalismo da Escola Superior de Propaganda e Marketing de São Paulo (ESPM/SP), comenta cinco matérias escritas por Herzog e publicadas n’O Estado de S. Paulo e no Jornal do Commercio. (Para acessar o acervo e conferir as reportagens, clique aqui.)

Na visão de Cicélia, “o olhar crítico e analítico do repórter” alcançava transformar pautas rotineiras da agenda da política nacional, como a cobertura de uma viagem ministerial, em uma narrativa sobre as mazelas da sociedade brasileira.

Vladimir Herzog em ambiente de trabalho (imagem: Acervo Família Herzog)

Um Dia de Vida da Cidade Nova \ O Estado de S. Paulo, 23 de abril de 1960

“Herzog narra o primeiro dia de vida oficial de Brasília, num jogo textual em que a criança-cidade se embebe no olhar do jovem jornalista. Estão ali os folguedos, as luzes, os ruídos, a poeira que, se já não é tanta, ainda se faz presente, como cabe a uma infância inquieta e curiosa. Mas estão ali as casacas, as cartolas e os colarinhos engomados a lembrar que a infância também envolve a lida com a autoridade, os ritos e as instituições dos adultos, aos quais responde, assim como o presidente Kubistchek, com um sorriso, um cenho franzido, um bocejo. A cidade-criança ganha, no texto de Herzog, o caráter não trivial, quase inefável, de um espaço-tempo do qual pouco se pode dizer, mas muito se pergunta.”

Combate às endemias na ilha do Bananal \ O Estado de S. Paulo, 4 de junho de 1960

“Mais uma vez, o olhar crítico e analítico do repórter se mostra na capacidade de transformar uma pauta de cobertura de uma viagem ministerial em narrativa sobre as mazelas da falta de saneamento básico na saúde das populações indígenas da Ilha do Bananal, localizada no atual estado de Tocantins. Herzog tece uma trama textual muito bem urdida entre as informações sobre a visita do Ministro da Saúde, a precariedade de vida dos pouco mais de cem índios carajás que viviam na ilha, e as ameaças que os investimentos governamentais podiam representar, tanto em termos de especulação imobiliária quanto da possibilidade de seu uso como capital político no processo eleitoral em curso naquele ano de 1960.”

"Gilda" sambou no Portela e falou sobre Orson Welles \ O Estado de S. Paulo, 9 de março de 1962

“Harold Ross, fundador da revista The New Yorker, defendia o perfil como um texto que, por meio do relato de particularidades, entrevistas e descrições, almejasse a intimidade e a inteligência espirituosa mais do que a completude biográfica ou a adoração de heróis. Herzog alia todos estes elementos no breve perfil da atriz Rita Hayworth, quando da sua visita ao Brasil, em 1962. A visita da estrela a um baile da Portela é o ‘mote’ de um texto que parece fazer de sua performance no ‘ritmo quente’ uma metáfora de sua trajetória profissional. Do início tímido, tanto na quadra da escola quanto no primeiro filme - em que ‘só dançou’ -, Rita vai, aos poucos, ‘se juntando à turma’ até atingir a fama, no cinema, e integrar, no samba, os ‘mil quinhentos e um Acadêmicos de Portela’.”

(imagem: Arquivo/Estadão Conteúdo)

Uma questão de fome \ O Estado de S. Paulo, 15 de dezembro de 1962

“Neste texto, Herzog nos lembra que a crítica e a cultura são também formas de resistência e que o jornalismo não precisa e nem deve se furtar ao confronto e à polêmica. Numa verve bastante enérgica e marcada por fina ironia, o jornalista acusa a falta de uma produção cinematográfica voltada ao público infantil brasileiro, o que atribui tanto a um 'intelectualismo irresponsável' quanto à submissão às pressões mercadológicas e comerciais, por parte de produtores e dos consumidores também. Além de elencar, pontualmente, os principais problemas que afastam a criança do cinema nacional, Herzog defende o caráter educativo do cinema, e da arte em geral, identificando a falta de acesso das crianças à cultura com a fome.”

Carta aos Cariocas \ Jornal do Commercio, 17 de fevereiro de 1963

“Herzog se vale ironicamente da rivalidade entre Rio de Janeiro e São Paulo para mostrar um panorama da produção cinematográfica brasileira naquele início de 1963. Enquanto os paulistas 'pegam do lápis, fazem as contas' e não se arriscam, os cariocas, com coragem, audácia e 'bossa', estavam com 30 filmes prontos ou 'em vias de realização'. Além de apontar as condições políticas e econômicas do país como causas da 'semiestagnação' do cinema - acusando o conformismo de diretores e produtores e uma legislação mais favorável à entrada de filmes estrangeiros –, Herzog destaca o impacto do cinema baiano na produção carioca e lembra a responsabilidade dos cineastas com uma população em que mais da metade era analfabeta.”

(imagem: Acervo Instituto Vladimir Herzog)
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