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“ — Não adianta tentar — declarou. — Não dá para acreditar em coisas impossíveis.

— Acho que você não tem muita prática – observou a Rainha. — Quando tinha a sua idade, eu sempre fazia isso meia hora por dia. Ora, às vezes acredito em seis coisas impossíveis antes do café da manhã.”

Alice Através do Espelho, de Lewis Carroll

Existe uma história dos lugares reais, isto é, daqueles que constam nos mapas convencionais, e existe uma história dos lugares imaginários, aqueles sonhados por alguém. Quase sempre, cada época e cada lugar real concebem um lugar imaginário: na Idade Média, por exemplo, uma história muito contada era a do País da Cocanha, onde os rios eram de vinho e não de água, salsichas brotavam em árvores e a primavera durava o ano inteiro. Na Inglaterra do século XIX, Lewis Carroll escreveu os livros Alice no País das Maravilhas e Alice Através do Espelho, que narram aventuras de uma menina que viaja ora por uma toca do coelho, ora por um espelho, e descobre uma terra da fantasia, povoada por criaturas únicas. Também nessa época na Inglaterra tornou-se popular o conto “João e o Pé de Feijão”, em que um menino sobe por meio da planta, que cresce sem parar, até as nuvens e encontra um lugar onde tudo é enorme, pois é habitado por gigantes.

(imagem: divulgação)

Na história da arte, há, também, diversos mundos imaginários. Maurits Cornelis Escher (1898-1972) se tornou particularmente famoso por suas gravuras com construções impossíveis, como escadas que não dão à lugar nenhum, casas onde o teto fica no chão e o chão no teto e corredores que se repetem ao infinito. Podemos pensar que Escher tenha escutado o conselho da Rainha de Alice Através do Espelho, de acordo com o excerto acima, e praticou acreditar em coisas impossíveis!

Na Coleção Brasiliana, há alguns relatos peculiares sobre o Brasil feitos por viajantes europeus que visitaram essas terras nos séculos XVI, XVII e XVIII. Descrevem locais, habitantes, fauna e flora, por vezes, impossíveis de identificar e, por outras, improváveis, como ilhas que são monstros ou abacaxis do tamanho de seres humanos.

Muitos artistas que participam da Coleção Brasiliana tiveram que usar a imaginação para, a partir de relatos e registros de viajantes e aventureiros, representar os lugares que eram desbravados pelos expedicionários. As imagens produzidas, portanto, acabavam se tornando um misto entre realidade e fantasia.

Ao se pensar uma exposição ou uma peça de teatro, um exercício semelhante de criação é estabelecido: precisa-se conceber, a partir de um espaço pré-existente, um novo lugar que receberá um novo conteúdo. Nessas ocasiões, é papel do arquiteto elaborar para o público uma ambientação que se encontre no limiar entre o concreto e o imaginário, a qual valorize o conteúdo que a ocupa e encante o público, simultaneamente.

(imagem: divulgação)

Seja criando histórias, seja criando um cenário, libertar a imaginação e sonhar nos possibilita construir – e algo que era fantasia pode se tornar parte da realidade um dia. Veja, por exemplo, a antiga animação para televisão Os Jetsons, que mostrava uma família vivendo no futuro, utilizando esteiras rolantes para deslocar mais rapidamente e realizando videochamadas. Na época de sua transmissão, essas invenções só existiam na imaginação dos criadores da série; hoje, fazem parte do nosso dia a dia. Podemos dizer, assim, que sonhar coloca no mundo criações e invenções. Como escreveu Shakespeare: “Somos feitos da mesma matéria que nossos sonhos”.

Para inspirar:

Décoration du Ballet Historique: Donné au Théatre de la Cour, à Rio de Janeiro, le 13 de mai 1818; à l’occasion de l’acclamation du Roi D. Jean VI et du mariage du Prince Royal D. Pedro, son fils.

Documento baixável.

Expedição Brasiliana: construa um lugar imaginário (imagem: divulgação)
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