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A carnaúba como testemunha

Série fotográfica “Batalha imaginada”, do artista Maurício Pokémon, registra comunidades tradicionais piauienses

Publicado em 16/06/2026

Atualizado às 12:17 de 16/06/2026

por Maria Clara Matos

Vínculos dão-se pela escuta, e deles surgem projetos artísticos em suas máximas potências: é por meio dessa lógica que o artista Maurício Pokémon trabalha. Para imprimir sentido coletivo em suas obras, ele primeiro ouve as comunidades que retrata e. então, busca registrar aquilo que surge da memória e do imaginário delas. Foi a partir de um processo como esse – repleto de trocas e criações conjuntas – que Maurício criou Batalha imaginada, série fotográfica de 14 imagens que relembra um dos episódios mais marcantes da independência do Brasil: a Batalha do Jenipapo, ocorrida em 1823, no Piauí. Esse projeto foi um dos trabalhos contemplados pela edição 2023-2024 do programa Rumos Itaú Cultural.

A motivação para que Maurício criasse Batalha imaginada veio da revisitação da Batalha do Jenipapo por ocasião dos 200 anos desse conflito, completados em 2023. A narrativa histórica revela que, antes de serem exterminados em massa, os homens do campo envolvidos na Batalha – heróis piauienses, cearenses e maranhenses – usaram de uma inteligência tática, baseada no uso de recursos cotidianos da roça e no profundo conhecimento sobre o território, para fazer as tropas portuguesas recuarem. O bicentenário levou o artista a investigar mais profundamente os efeitos que essa história provoca no imaginário coletivo das comunidades das cidades de Parnaíba (PI), Oeiras (PI) e Campo Maior (PI). “Comecei a me perguntar quais seriam outras narrativas possíveis para essa batalha. Quais são outras possibilidades que temos para recontar essas histórias, que sempre nos foram passadas de uma única maneira, numa tentativa de fechar nossa subjetividade. Todas as histórias contadas em segundo plano me fazem mais sentido”, comenta Maurício.

Fotografia realizada em área de mata, com intensa fumaça ocupando grande parte da cena. Ao fundo, duas moças observam a câmera enquanto seguram uma peça artesanal de fibra vegetal. Cestos e elementos trançados em tons naturais e avermelhados aparecem entre a vegetação, criando uma atmosfera envolta por névoa e luz suave.
Batalha imaginada, de Maurício Pokémon | imagem: divulgação

 

O território onde aconteceu a Batalha do Jenipapo – zona de transição entre os biomas da Mata dos Cocais, da Caatinga e do Cerrado –, é povoado por milhares de árvores carnaubeiras, que vivem em torno de 200 anos e, portanto, teriam testemunhado o conflito. “Isso faz com que as carnaúbas sejam grandes guardiãs da memória do que aconteceu na região”, explica Maurício. Mas essa espécie de palmeira não tece só as lembranças do povo piauiense: tece também o artesanato das comunidades locais e, além disso, é um dos principais meios de subsistência da região – da carnaúba, são extraídos pó, cera, madeira e palha.

Fátima Santos, artesã e moradora da comunidade do Resolvido, zona rural de Campo Maior, conta que é muito gratificante se envolver com os registros fotográficos de Maurício e a narrativa contada por eles, já que se trata de uma oportunidade de lançar um outro olhar sobre a Batalha do Jenipapo – uma visão para além do lado sangrento do confronto. “Para nós, é importante contar sobre a batalha a partir de nossa perspectiva, e não somente reproduzir o que já foi tão repetido”, diz ela.

O processo de pesquisa e criação de Batalha imaginada surgiu como um desdobramento de outro projeto de Maurício, chamado Árvore que arranha. Esse primeiro trabalho serviu de pesquisa-base do segundo no que diz respeito à relação entre o território onde aconteceu a Batalha do Jenipapo e os protagonismos da carnaúba e das comunidades tradicionais que trabalham com ela. Mas, em Batalha imaginada, o artista tinha como objetivo fazer uma série fotográfica que percorresse o limiar entre o documental e a ficção, entre o flagrante e a cena montada. “Foi minha primeira experiência fotografando um projeto que envolvia uma equipe semelhante à de um set de cinema”, conta Maurício. E, nesse sentido, ele também chama atenção para o fato de que o projeto ocupa um lugar performático. “Nós conversamos bastante sobre o que Batalha Imaginada tem de fotoperformance”, explica.

“Estávamos sentadas uma de frente para a outra, cobertas de fumaça, com os braços esticados e entrelaçados. Foi feito um cano largo do talo de carnaúba com muitos espinhos em volta. Nossos braços se encontram e se abraçam por dentro desse tubo”: é assim que Fátima descreve a foto tirada ao lado de sua irmã. “Foi um momento que nos marcou bastante, porque a gente tem uma parceria muito legal, somos o complemento uma da outra”, completa. De forma semelhante ao quadro traçado na descrição de Fátima, a série Batalha imaginada é construída a partir de várias percepções e compreensões.

E, talvez, tanta conexão entre fotografado e fotografia seja o resultado de um processo de muita escuta – o qual, como descrito anteriormente, é a tônica dos trabalhos de Maurício. Fátima conta que o artista chega com suas ideias, mas que também está sempre super aberto às propostas da comunidade: “Ele tem muita sensibilidade nesse sentido”, resume. Segundo Maurício, ele de fato busca ter essa constante abertura com as pessoas, de forma a elaborar as imagens coletivamente. Nas palavras dele: “A escuta vem muito antes, e ela participa ativamente da construção da imagem. É nisso que eu acredito. Eu nunca trabalho com a ideia de ter personagens. Eu sempre estou com pessoas, e elas decidem o que querem dentro do projeto também. Isso vai guiando meu trabalho e o projeto vai sendo moldado”.

Outro pilar importante de Batalha imaginada é dar visibilidade e reconhecimento ao trabalho que as comunidades fazem com a palha da carnaúba , também mencionado previamente. O objetivo é ampliar a criação de redes entre essas comunidades, bem como levar, a outros locais, suas histórias e seu conhecimento sobre o artesanato feito a partir dos insumos de tal árvore. Conhecer melhor a região – e a si mesmo – tem sido descoberta e presente para Maurício: “Eu tenho o privilégio de ter um projeto dentro do meu estado, dentro da Caatinga, dentro do bioma em que quero estar, sem precisar ir para outros lugares. [...] Isso me dá um conhecimento maior de quem eu sou, do lugar onde estou; é muito importante, para mim, estar produzindo onde quero estar”, conclui.

Fotografia de bastidores de uma produção audiovisual realizada em área rural. Em frente a uma casa simples, um grupo de homens, mulheres e crianças posa com peças de artesanato em fibra vegetal, enquanto uma câmera fotográfica e integrantes da equipe aparecem em primeiro plano. Ao fundo, árvores, cercas e um céu nublado compõem a paisagem do campo.
Batalha imaginada, de Maurício Pokémon | imagem: divulgação
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